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Paulo Casaca

AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E O POVO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E O POVO

 

Estamos a menos de um ano das eleições presidenciais em Portugal e, embora estas eleições não tenham a popularidade das americanas, os protagonistas começam a alinhar-se. No sistema semipresidencialista português, a figura de Presidente tem flutuado entre o perfil de um monarca distante e a de um conspirador político, ambas protagonizadas pelo primeiro Presidente eleito por sufrágio universal em duas fases diferentes da sua presidência.

Com as presidências abertas, Mário Soares tornou o cargo popular, mantendo embora uma distância aristocrática que, com o actual presidente, rei das ‘selfies’, do fato de banho e do comentário futebolístico, se perdeu completamente.

Este novo figurino presidencial português tornou-se tão forte que condiciona o dos rivais, sendo que a primeira candidata potencial anunciada é uma personagem televisiva; o segundo ergueu-se na política a partir do comentário futebolístico, e a terceira alguém que se afirma contra o clube do segundo e que lhe pretende roubar o palmarés no campeonato do justicialismo.

Dir-me-ão que o actual Presidente apenas não declarou a sua recandidatura para manter o suspense e que os eleitores obviamente preferirão o original às cópias.

Aqui há que ter em conta que ninguém é imortal nem imune à doença real ou presumida. Mais importante do que isso, o país sente a necessidade de reforma política, reforma que certamente não surgirá do arco governativo, sendo muito mais fácil pensá-la a partir de uma Presidência com contornos de poder fluidos.

O nosso primeiro Presidente, no seu segundo mandato, inventou um novo partido, o PRD, que abalou o sistema político português, o segundo, ensaiou o mesmo plano que a custo foi interrompido por Guterres e Sampaio; Sampaio, não deixou de marcar profundamente o seu segundo mandato com a demissão de Santana Lopes, enquanto Cavaco Silva, mais comedido, se ficou pela tentativa de manter um governo sem apoio parlamentar.

Rebelo de Sousa, a ser reeleito, não irá certamente privar-se de marcar a governação, marca que vai depender das condições políticas mas que, a ter lugar, creio se irá inspirar mais numa nova força governativa do que num mero peso em favor do seu partido de origem, uma espécie de PRD modernizado, mais parecido com o partido de Macron.
Mas independentemente destes cenários, creio que vamos ter entre nós uma era política marcada pelo populismo e que todos vamos ter de nos saber adaptar a ela.

Bruxelas, 2020-02-12
Paulo Casaca

Paulo Casaca

A MARATONA DE CENTENO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A MARATONA DE CENTENO

 

Na história das cimeiras europeias, a figura da ‘maratona negocial’ é uma das mais relevantes, sendo a mais famosa a que marcou o início da Política Agrícola Comum. Tendo começado a 18 de Dezembro de 1961, só terminou a 8 de Janeiro de 1962, com um acordo determinante na evolução da integração europeia.

Mário Centeno começou ontem a sua maratona negocial no Eurogrupo a que preside com um tweet em língua inglesa em que dizia que ‘temos de estar à altura das nossas responsabilidades’, mensagem que quando a reunião foi interrompida, dezasseis horas depois de começada, ou seja, às oito horas da manhã de dia oito, ganhou um peso para muitos inesperado.

A reunião recomeça dia 9, no formato vídeo, que agora se estandardizou, formato que torna impossível a utilização da arma favorita dos tempos de Delors, que era a de tentar vencer os conselheiros pela fome, quando o sono não funcionava.

Se o espírito de Natal não resultou em 1961, tendo em conta o regime de semi-prisão domiciliária que se vulgarizou na Europa, tão pouco a ameaça de fim de tréguas da Páscoa funcionará hoje, mas creio que Centeno ganhou já uma estatura de maratonista europeu que lhe permitirá ultrapassar este e outros obstáculos.

Nesta maratona, há duas lições da crise de 2008 que não foram entendidas em mais de uma década e sobre as quais não surgirá luz nestas noites perdidas: a primeira é a de que a finança em geral e a banca em particular não fazem parte da solução mas são antes parte do problema, e a segunda é a de que não temos problemas com défices, mas antes com desequilíbrios estruturais entre quem tem excedentes e quem tem défices.

Posto isto, tal como a solução encontrada em 1962 para a PAC foi uma má solução, que teve no entanto a suprema vantagem de impedir a morte prematura das comunidades europeias, não há hoje que esperar milagres, mas há que persistir e salvar a Europa do seu pior inimigo: ela mesma.

Estamos por isso na altura de invocar o herói da maratona de há seis décadas, o então comissário da Agricultura, Sicco Mansholt, socialista, herói da resistência contra o nazismo e o mais brilhante pensador sobre política agrícola europeia. Ele conseguiu que a Europa subsistisse mesmo sabendo que sobre uma base de política agrícola longe da ideal.

Homenagear o holandês Sicco Mansholt é hoje a melhor forma de explicar que não se trata de opor uns países a outros, mas lembrar que todos temos de estar à altura dos melhores dos que nos precederam.

Pela minha parte, votos de sucesso a Mário Centeno nesta decisiva maratona europeia.

Bruxelas, 2020-04-08
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

TAMIFLU-BIS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA TAMIFLU-BIS

 

Estávamos na Primavera de 2009, meses depois do início da derrocada financeira dos finais de 2008, e declarava-se uma pandemia de gripe, oriunda de um vírus semelhante ao da gripe espanhola de 1918, e que, tal como a pandemia actual, provoca uma doença infecciosa pulmonar.

Lançou-se então uma vasta campanha mediática promovendo a necessidade de se encontrar um remédio. Milagrosamente, apareceu pouco depois o Tamiflu, produzido por uma conhecida empresa farmacêutica suíça e que, a bom preço, supostamente curava a gripe.

A comunidade científica levou alguns anos para demonstrar que o dito Tamiflu em nada contribuía para a cura daquela ou de qualquer outra gripe.

Quando isto foi demonstrado, no entanto, já a empresa tinha feito fortunas com vendas de milhares de milhões de euros no mundo inteiro, uma parte dos quais serviu para engordar o famoso défice orçamental português de 2009, com as consequências de que certamente estaremos lembrados.

Apesar disso, a dita empresa não respondeu criminalmente nem indemnizou o cidadão pelo assalto que praticou, sendo apenas mudadas algumas das regras mais escandalosas com que, ao abrigo de estudos supostamente científicos, se fazem burlas como a do Tamiflu.

Na pandemia actual, o centro hospitalar-universitário mais cotado internacionalmente, o Instituto da Infecção de Marselha, já validou os testes publicados preliminarmente por investigadores na China, de medicação do domínio público que tem uma grande taxa de sucesso nas primeiras fases da evolução da doença.

Os mesmos sistemas de saúde que se tinham precipitado a realizar compras milionárias de Tamiflu em 2009, são no, entanto, contrários à solução encontrada, enquanto se assiste a uma campanha mediática de diabolização e restrição ao uso da medicação prescrita.

Ninguém poderá por isso impedir-se de perguntar se este aparente paradoxo não se explicará por a medicação seguida estar no domínio público e não permitir por isso a realização de fortunas a empresas detentoras de patentes.
Em alguns meses, o mundo recuou para soluções medievais e idolatra a superstição que é hoje mais laica que religiosa. Os nossos dirigentes preferem as soluções que têm mais cotação mediática àquelas que têm as maiores credenciais científicas, de diagnosticar por teste, tratar por medicamento, entender pela experiência e ciência.

Há que ter a coragem de parar este estado de coisas. Não precisamos de nenhum Tamiflu-bis, precisamos de fazer na saúde o que nos dizem os melhores cientistas, e inverter a rota de suicídio económico, social e político em que nos deixámos envolver.

Bruxelas, 2020-04-02
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

A EPOPEIA DO DR RAOULT

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A EPOPEIA DO DR RAOULT

 

O Dr Li Wenliang, primeiro a dar o alarme sobre o novo vírus, preso e depois um dos primeiros médicos a falecer vítima do segredo que quis desvendar, ficará na história como o mártir do regime ditatorial chinês. O Dr Raoult, que felizmente está vivo – e para bem dele e da humanidade espero que continue vivo e de boa saúde por muitos e longos anos – poderá ficar como símbolo equivalente do estoicismo cidadão esclarecido perante os vírus da pobreza de espírito que mina os nossos sistemas democráticos.

O Dr Raoult, médico e professor universitário, é um dos mais prestigiados e consagrados especialistas mundiais em matéria de doenças infectocontagiosas, e dirige centenas de investigadores num centro hospitalar universitário em Marselha.

O essencial da sua mensagem perante a pandemia é a de que há medicação do domínio público que funciona comprovadamente e que deve ser imediatamente utilizada em quem estiver contagiado, e que esse contágio é fácil de detectar, nas suas palavras: ‘os testes baseiam-se em reacções em cadeia por polimerase, algo banal, que todo a gente pode fazer’.

Seja porque com esta mensagem o Dr Raoult põe em causa dois negócios que florescem à conta do vírus, seja por qualquer outra razão, a verdade é que o Dr Raoult foi ignorado e silenciado por todos os poderes fáticos do seu país.
Felizmente, como as normas de censura ainda não se impuseram entre nós, pode usar as redes sociais para explicar o que sabe. Passou então a ser denegrido ou ridicularizado por praticamente toda a imprensa francesa como se se tratasse de alguém sem qualquer competência neste domínio. Finalmente, começa a ser seguido no mundo inteiro e, mesmo no seu país de origem, multiplicam-se os casos de médicos que seguem as suas prescrições.

Mas não é só em França que se prefere ouvir um Guru da moda sem qualquer competência no domínio em que fala em vez do maior especialista mundial que por acaso é francês; o convidado de honra do outrora prestigiado ‘Financial Times’ de Londres para falar sobre o vírus foi outro Guru especializado em ficção política e, segundo me dizem, os mais ouvidos conselhos em matéria de virologia em Portugal são da autoria de um ex-director de jornal, ex-presidente de partido e ex-ministro de muita coisa que não a saúde que agora anima um programa televisivo.

Aquilo a que chamamos de democracia é na verdade um complexo sistema de grande fragilidade que só através da coragem, determinação e saber de pessoas como o Dr Raoult pode subsistir. E, também por isso, bem haja caro Didier Raoult!

Bruxelas, 2020-03-25
Paulo Casaca

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