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Paulo Casaca

ESMAGAR CORPOS E DESPEDAÇAR OSSOS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA ESMAGAR CORPOS E DESPEDAÇAR OSSOS

 

A expressão agora famosa foi proferida pelo presidente chinês a 13 de Outubro por ocasião de uma visita oficial realizada ao Nepal e foi utilizada para explicar a política chinesa perante o separatismo.

O Nepal envia rotineiramente para trás os refugiados do Tibete – país conquistado pela China nos anos 50 do século passado – pelo que o discurso pode servir de aviso em relação a qualquer veleidade nepalesa de mudar de política, como pode servir também de aviso a Hong Kong e à Formosa, ou apenas como constatação do que se passa no Turquestão Oriental.

Noutras longitudes, o ditador turco empenhado numa campanha de limpeza étnica no Norte da Síria seria um natural candidato a subscrever estas palavras, como infelizmente parece que haja também quem as subscreva no nosso país vizinho.

Embrenhados que estamos nas trapalhadas do BREXIT – que como finalmente observou o presidente cessante da Comissão Europeia, nos fizeram perder já três anos – tendemos a perder de vista que, muito pior que as fragilidades do nosso sistema democrático é a inumanidade do sistema imperial que reclamando-se de uma religião, de uma etnia, de uma língua, de um sistema hereditário, de uma história ou de um pouco de tudo isto considera a trituração de seres humanos como instrumento político aceitável.

Às portas da Europa, as barbáries imperiais jihadistas iraniana e turca expandem-se entre momentos de disputa e de aliança, com a Rússia de Putin a ensaiar o que quer vir a fazer na Europa. O Ocidente age como se existisse noutro planeta e perde a capacidade de entender o que se passa.

O encerrar do processo negocial da adesão europeia da Albânia e da Macedónia do Norte, sem qualquer razão imparcial ou explicação, mostra até que ponto vai a nossa política de avestruz.

Uma Europa sem princípios nem valores; que aproveita todas as oportunidades para insultar os Estados Unidos da América, sem no entanto dar qualquer passo para poder subsistir sem a sua garantia de segurança; que abandona agora as minorias curdas como abandonou todas as outras; que se encolhe perante todos os impérios e se mesmeriza com o seu umbigo corre sérios riscos de sobrevivência.

Contrariamente ao que parecem pensar as elites europeias, nada há nos corpos dos nossos cidadãos que seja mais difícil de esmagar e despedaçar do que nos corpos de outros seres humanos que habitam outras longitudes. Somos todos feitos da mesma massa.

Bruxelas, 2019-10-22
Paulo Casaca

Paulo Casaca

O ENREDO DA ‘AZORES PARQUE’

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O ENREDO DA AZORES PARQUE

 

A má gestão do sector público regional dos Açores, com a multiplicação de dívidas, défices e maus resultados, tem sido infelizmente notícia recorrente na imprensa regional, havendo a sensação de que se internalizou a ideia de que a essas empresas não devem ser exigidos resultados positivos, sustentabilidade económica e financeira, rigor e transparência na sua gestão, numa lógica de desresponsabilização geral que me parece muito negativa para a economia e sociedade açorianas.

Com eleições regionais marcadas para daqui a alguns meses, o principal partido da oposição elegeu há um mês um novo líder, sendo que me pareceria natural esperar da sua parte uma posição pública que marcasse uma alternativa séria e credível a este estado de coisas.

Mais talvez do que declarações, e sendo o líder da oposição também o presidente da maior autarquia açoriana, esperar-se-ia da sua parte uma prática que pudesse contrastar com a do partido responsável pela governação regional.

Em vez disso, o que podemos constatar é uma gestão empresarial do município que em nada pode servir de exemplo para quem acredite na necessidade de um novo rumo, e que tem como exemplo maior o enredo da ‘Azores Parque’.

Constituída em 2004 como sociedade anónima maioritariamente detida pelo município de Ponta Delgada com objectivos urbanísticos, em 2009, quando me candidatei à presidência do município, tinha um activo superior a 16 milhões de euros.

Tendo as contas registado lucros, sempre reintegrados até 2015, aparece nessa data com os primeiros prejuízos, de 273.000 Euros, e o responsável pela autarquia a declarar que a empresa está na prática falida e que é preciso extingui-la, internalizando os seus serviços.

De lá para cá, assistimos incrédulos à venda pela autarquia da sua posição maioritária por 500 euros a uma misteriosa Alixir Capital registada na Capital, empresa onde aparecem os mesmos personagens de uma complicada disputa judicial sobre a propriedade da empresa detentora do principal clube de futebol da cidade que envolve misteriosos empresários turcos e de Singapura.

No meio de tudo isto a empresa é obrigada a declarar falência pela empresa bancária que absorveu o Banco do Funchal, que por sua vez tinha absorvido o Banco Comercial dos Açores.

Como foi possível derreter o património público tão radicalmente? Quem é a Alixir? Há negócios político-financeiro-futebolísticos dissimulados que deveríamos conhecer?

Tendo sido o actual líder da oposição e do principal município dos Açores o responsável da empresa durante grande parte da sua existência, seria curial termos da sua parte explicações claras e detalhadas sobre o que se passou e como tudo isto foi possível.

Bruxelas, 2020-01-15
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

A TRAGÉDIA DO VOO PS-752

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A TRAGÉDIA DO VOO PS-752

 

A queda de um voo da principal companhia aérea ucraniana com a perda de 176 vidas aparenta ser a principal consequência da barragem de mísseis disparados pelo Irão na madrugada de ontem.

O ataque foi anunciado vezes sem conta como represália à eliminação do líder das operações externas dos guardas revolucionários islâmicos e foi acompanhado de um sem número de falsas proclamações sobre os alvos atingidos ou mesmo as armas utilizadas.

Na verdade, como se pode constatar pela observação de dois mísseis por explodir perto da base aérea de ‘Ain Al-Asad’ não se tratará dos mais modernos Fateh-110 mas antes dos vetustos Qaim-1, mísseis balísticos de pequena precisão que só por azar podem ser efectivos se se dirigirem a alvos militares definidos.

No caso dos mísseis enviados às forças americanas em Erbil, há notícias de mísseis que explodiram a dezenas de quilómetros e é seguro que nenhum acertou perto sequer de qualquer dos alvos proclamados.

Os EUA aderiram aparentemente ao jogo diplomático, com Donald Trump a declarar que tudo ia bem, confirmando o disparo dos mísseis e não desmentindo a profusão de notícias fictícias dando conta de numerosas vítimas e aviões destruídos ou sem exigir a clarificação do que se passou com o voo PS-572.

Teerão não tem qualquer interesse numa guerra convencional com os EUA e menos ainda que essa guerra se trave nas suas fronteiras ocidentais, pelo que o bombardeamento das forças americanas no Iraque foi apenas para animar os seus apoiantes, hoje mais numerosos entre os ocidentais vítimas da síndroma de Estocolmo do que dentro de portas ou na região, e cuidadosamente levado a cabo para não provocar estragos nas forças norte-americanas.

Como explicou David Petraeus, a operação americana de dia 3 atingiu claramente os objectivos pretendidos de dissuasão e torna pouco provável qualquer ataque convencional iraniano aos EUA, tornando claro que Trump leva a sério as linhas vermelhas que anuncia.

Mas a verdade é que, embora enfraquecido pela sua profunda impopularidade interna e nos países ocupados, o aparelho estratégico de guerra iraniano continua intacto, pronto a prosseguir a sua expansão.

E se os guardas revolucionários islâmicos se mostraram incapazes de promover um ataque de mísseis sobre alvos militares convencionais, confirmaram, no entanto, o seu desprezo pelas vítimas civis e a sua enorme capacidade de desinformação.

A opinião pública ocidental que ignorou olimpicamente as centenas de milhares de vítimas da agressão teocrática dentro de portas ou na Síria, Iraque, Líbano ou Iémen, comoveu-se apenas com a execução do mais proeminente líder terrorista da actualidade. Nada mostra melhor os verdadeiros perigos enfrentados pela humanidade.

Bruxelas, 2020-01-08
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

APONTAMENTOS PARA UMA ANTOLOGIA DA ASNEIRA

Paulo Casaca

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PAULO CASACA APONTAMENTOS PARA UMA ANTOLOGIA DA ASNEIRA

 

Foi a 12 de Dezembro que afirmei aqui ter o Bloco de Esquerda acompanhado o PCP numa recusa de condenação do banho de sangue no Irão. Asneira minha! A sigla que acompanha a do PCP no voto é a do PEV, não do BE. Pela acusação infundada, peço desculpa ao Bloco de Esquerda, aos ouvintes e editores da ‘105 FM’ e agradeço aos que me assinalaram o erro.

E se há um vocábulo alemão internacionalizado, Schandenfreude, que exprime a nossa satisfação pelo mal dos outros, dos piores sentimentos que nos podem possuir, não é menos verdade que o mal alheio relativiza o nosso e, na circunstância, quero agradecer ao Ministro Santos Silva e ao senhor Presidente da República o de terem relativizado a minha asneira.

Há 30 anos, George Bush, depois de recordar a sua obrigação infantil de comer brócolos, anunciou que, presidente dos Estados Unidos, se iria dispensar de o fazer. A aparentemente inócua crítica aos brócolos acabou num imenso embaraço presidencial e num pedido oficial de desculpas aos produtores de brócolos.

Se o Presidente dos Estados Unidos não pode dizer que não gosta de brócolos, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros deveria entender que fazer julgamentos menos lisonjeiros de empresários é, por definição, asneira.
E passo agora ao nosso Presidente, que medalhou um treinador de futebol afirmando, em jeito de justificação, que a sua notoriedade seria comparável à do Infante que inspirou a medalha atribuída.

Marcello Rebello de Sousa fez-me lembrar Lambaréné, cidade gabonesa a que Albert Schweitzer deu notoriedade. Admirei-me quando visitei a cidade há uns anos atrás de o lendário médico alsaciano ser aí menos conhecido que o treinador português da equipa local de futebol.

E por todos os cantos do mundo em que passei – excepção feita a Goa onde Vasco da Gama e António Costa, por esta ordem, são os mais populares – pude dar-me conta que nenhum navegador, líder nacional ou escritor português podem rivalizar com a notoriedade de inúmeras figuras portuguesas do mundo do futebol, de grande parte das quais eu nunca tinha ouvido falar.

Contrariamente ao nosso presidente, contudo, não me passou pela cabeça sugerir a hierarquização das personalidades nacionais em função da sua popularidade, menos ainda fazê-lo por ocasião da atribuição da mais importante distinção nacional.

Resta-me esperar que um serão no Outeiro, um banho na ‘Praia da Areia’ ou um passeio pela Caldeira possam ter ajudado o nosso Presidente na passagem do ano no Corvo a entender que nem tudo se resume à notoriedade.

Bruxelas, 2020-01-01
Paulo Casaca

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