Connect with us

Paulo Casaca

A GUERRA DO QUEIJO

Paulo Casaca

Publicado

|

PAULO CASACA A GUERRA DO QUEIJO

 

Ao fim de quinze anos, o processo lançado pelos Estados Unidos sob presidência de George W. Bush contra a União Europeia por subvenções ilegais à companhia Airbus chegou ao seu termo com a Organização Mundial de Comércio (OMC) a autorizar os EUA a impor tarifas alfandegárias sobre produtos europeus importados representando 7.5 biliões de dólares.

A penalização infligida à União Europeia pelo seu desrespeito pelas regras internacionais de comércio é a maior da história da organização.

A administração americana aplicou rapidamente a autorização que lhe foi dada pela OMC e anunciou para o final da próxima semana uma extensa lista de produtos sobre os quais recairá uma taxa alfandegária de 25% que é supostamente focada nas exportações dos quatro países envolvidos na construção do Airbus, mas que, com alguma surpresa, se constata atingir fortemente algumas produções de outros países, como o queijo.

Assinale-se que se trata de uma lista que pode ser modificada a qualquer momento e que as taxas aplicadas poderão subir de 25 para 100 pontos percentuais.

Os produtores italianos de queijo já reagiram exigindo às instituições europeias que assumam as responsabilidades pelas consequências de uma guerra para a qual nem a Itália nem em especial os produtores de queijo deram qualquer contribuição.

O que é irónico nesta guerra é que o Presidente Trump que acusou a arquitectura comercial internacional de não proteger os interesses americanos aparece agora, finalmente, a enquadrar a sua acção por ela, enquanto as instituições europeias que fazem do respeito das regras comerciais internacionais e da proibição dos auxílios de Estado o seu credo ignoram soberanamente os seus compromissos e obrigações ditados pela ordem internacional.

É mais um sinal de que a realidade é sempre mais complexa do que aquilo que se julga e que não devemos embarcar em juízos simplistas para encontrar bodes expiatórios.

Independentemente desta inversão de papeis, o que me parece necessário é que todas as vítimas colaterais dessa guerra – incluindo naturalmente o sector leiteiro dos Açores – saibam reclamar dos seus direitos junto de quem tem o poder exclusivo para repor a normalidade nesta matéria: as instituições europeias.

Lisboa, 2019-10-09
Paulo Casaca

Paulo Casaca

A OTAN AOS SETENTA ANOS

Paulo Casaca

Publicado

|

PAULO CASACA A OTAN AOS SETENTA ANOS

 

Celebraram-se esta semana os setenta anos do Tratado do Atlântico Norte, tratado do qual Portugal é membro fundador. Aliança surgida na esteira da ‘Carta do Atlântico’ negociada entre Churchill e Roosevelt ao largo da Terra Nova em 1941, a OTAN é a organização de defesa melhor sucedida da história contemporânea.

Se a carta do Atlântico foi pensada no quadro do confronto com o expansionismo nazi-fascista – havia mesmo então a esperança de poder vir a contar com a presença nesta da União Soviética – a OTAN iria claramente ter como alvo o expansionismo soviético, lógica que continuou a prosseguir mesmo quando o quadro geopolítico se alterou profundamente com o colapso soviético e a revolução islâmica que catapultou o fascismo islâmico, ou jihadismo, como principal força expansionista e anti-humanista.

Pessoalmente estou em crer que Gorbachev foi uma janela de oportunidade para a paz, daquelas que são raríssimas na história, e que não foi devidamente compreendido e apoiado pelo ocidente que deixou que a situação se deteriorasse na Rússia até aparecer um novo ditador disposto a recriar o império soviético.

Por outro lado, a lógica do inimigo do meu inimigo ser meu amigo levou a uma enorme complacência com o jihadismo que sobreviveu não só ao fim da União Soviética como mesmo ao 11 de Setembro, mostrando como a desinformação se tornou hoje mais do que em qualquer época do passado um elemento estratégico essencial.

O novo imperialismo russo mostra como ele é também capaz de utilizar a mesma lógica de alianças cruzadas, cimentando uma aliança estratégica com a teocracia iraniana com a qual reconquistou a Síria, apoiando no seu território um emirato na Chechénia, aliando-se aos Taliban e sabotando agora a Aliança Atlântica através de uma espúria aliança com o jihadismo turco.

O grande desafio da Aliança Atlântica é agora o de conseguir responder a um quadro geopolítico muito mais complexo, marcado pela desafio global da China, a tentativa de reemergência do imperialismo russo e a ameaça jihadista que tem no fascismo teocrático iraniano o seu principal protagonista, mas na qual não é possível esquecer a Turquia, enquanto tem de gerir as tensões internas provocadas pelo neogaullismo de Macron.

É um desafio muito complexo mas apaixonante que espero venha a encontrar protagonistas à altura.

Bruxelas, 2019-12-04
Paulo Casaca

Continuar a Ler

Paulo Casaca

O BANHO DE SANGUE IRANIANO

Paulo Casaca

Publicado

|

PAULO CASACA O BANHO DE SANGUE IRANIANO

 

Finalmente, quase dez dias depois do início dos confrontos ‘Le Monde’ fala-nos de um banho de sangue no Irão. De acordo com a informação produzida pelo ‘Conselho Nacional da Resistência Iraniana’ datada de dia 26, o número de vítimas mortais aproxima-se do meio milhar, os feridos ultrapassam os quatro milhares e os presos são mais de dez mil.

Sobre tudo isto o parlamento português fez um silêncio total decidindo antes solidarizar-se com a ‘Jihad Islâmica’ alvo de um ataque de Israel no dia 11 de Novembro, num texto onde a realidade é profundamente distorcida. A Jihad Islâmica, como o nome indica, partilha da mesma ideologia que as congéneres da Al Qaeda, ou do Estado Islâmico e partilha também dos seus métodos com muitos ataques terroristas sobre a população civil que causaram inúmeras vítimas mortais.

Apoiar ou desculpar uns e condenar outros apenas porque uns se especializam a matar judeus e outros visam também ocidentais é humanamente inaceitável e só é compreensível à luz de preconceitos antissemitas.
Em qualquer movimento militar é essencial preservar tanto quanto possível a via humana, e por isso mesmo, me insurgi perante os bombardeamentos indiscriminados feitos sobre as cidades sírias pelas forças russo-iranianas, como também me insurgi sobre a forma como as forças regulares iraquianas e milícias dirigidas pelo Irão com cobertura aérea americana conquistaram Mossul ao Estado Islâmico provocando muitos milhares de vítimas civis.

Posto isto, quem olhar de forma equilibrada e imparcial para os factos tem de concluir que Israel é, em toda a região, o país com a força militar que mais atenção dá à minimização das vítimas civis e que toma mais medidas disciplinares em caso de abuso.

A ‘Jihad Islâmica’ há muitos anos que é comandada pela teocracia iraniana que a financia e forneceu os cerca de quinhentos mísseis que disparou este mês sobre Israel a partir de Gaza. Que o PCP apoiado pelo BE lance assim esta manobra de diversão sobre o banho de sangue iraniano é algo de esperar por parte das forças políticas que no Parlamento Europeu se recusaram a condenar as violações dos direitos humanos no Irão numa moção votada massivamente por este.

Que o PS apoie esta descarada manipulação iraniana da realidade, isso é indesculpável e inaceitável.

Olhão, 2019-11-27
Paulo Casaca

Continuar a Ler

Paulo Casaca

O POVO IRANIANO GRITA PELA LIBERDADE

Paulo Casaca

Publicado

|

PAULO CASACA O POVO IRANIANO GRITA PELA LIBERDADE

 

Se na Coreia do Norte a única forma de manifestação possível é a fuga, e na Venezuela, depois do parlamento demitido e das manifestações reprimidas, agora temos a fuga à fome, aos esquadrões da morte e à tortura, que levou já milhões de pessoas ao exílio, este é um ano marcado pela revolta em Hong Kong e sobretudo pela maior revolta de sempre no Império teocrático iraniano que mobiliza milhões de iranianos, iraquianos e libaneses.

As democracias registaram também um ano de revolta, nomeadamente em França e no Chile, enquanto na Bolívia se passou da chapelada eleitoral para um estado de quase guerra civil onde o sistema democrático fica em jogo.

Se no Chile há a perspectiva de uma Constituinte que possa restabelecer um consenso de regime e responda ao profundo mal-estar da população, em França a clivagem parece profunda e, apesar do sucesso táctico do Presidente Macron em junho, a situação não parece estar estabilizada.

Posto isto, é necessário ter prudência com as comparações. Os guardas revolucionários islâmicos responderam à população no Irão ou no Iraque a rajada de metralhadora, tiro de helicóptero ou de atiradores especiais, com pelo menos centenas de vítimas mortais, milhares de presos e torturados.

A teocracia iraniana conquistou com violência extrema as capitais e vasto território sírio e iemenita, mantendo o Líbano e o Iraque sob controlo das secções locais dos guardas revolucionários islâmicos que esvaziaram de conteúdo as instituições nominalmente democráticas.

No Irão, tal como na ex-União Soviética, os cidadãos são livres de votar, desde que nos candidatos selecionados pelo poder. O essencial do poder pertence ao guia espiritual que se autoproclama como representante de Deus, e só por força do poderoso lóbi teocrático no Ocidente se fala em ‘democracia islâmica’ para descrever a ditadura.

A ditadura iraniana, para além de se basear no supremacismo e no fascismo religioso, tem na sua Constituição a ambição de dominar o mundo, ambição confirmada pela sua prática. É esta ambição planetária que faz dela algo de incomensuravelmente mais perigoso do que qualquer outra ditadura contemporânea.

Nesta hora de revolta do povo iraniano, exprimir a nossa profunda solidariedade é um dever para todo o humanista.

Bruxelas, 2019-11-20
Paulo Casaca

Continuar a Ler

+ Populares