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Paulo Casaca

A EUROPA E A TRAGÉDIA DO MEDITERRÂNEO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A EUROPA E A TRAGÉDIA DO MEDITERRÂNEO

 

Dois jovens advogados baseados em Paris, Juan Branco, de nacionalidade espanhola, e Omer Shatz, de nacionalidade israelita, instruíram um processo endereçado ao Tribunal Criminal Internacional contra as instituições europeias acusando-as de deliberadamente terem provocado a morte de muitas das 14.000 vítimas de naufrágio registadas de 2014 a 2019, nas costas europeias do Mediterrâneo, a fim de dissuadir outros potenciais emigrantes.

Em centenas de páginas, faz-se assim o processo de uma entidade mais preocupada em dar lições ao mundo do que em olhar para as suas responsabilidades e que, ao longo das últimas décadas, foi construindo um discurso e uma cultura de criminalização não só de quem foge ou emigra mas também de quem dá qualquer apoio humanitário a essas pessoas, sendo que a alternativa política é cada vez mais entre os que defendem abertamente essa política e os que o fazem de forma camuflada envolvendo-a num manto feito de hipocrisia.

Creio que é tempo de entender que a normalização da morte do migrante é a brutalização da nossa alma, e que há que ter a coragem de dizer chega, e construir alternativas. Penso que há aqui cinco questões fundamentais a ter em conta.

A primeira é a da globalização que torna os fossos nos níveis de desenvolvimento mais difíceis de aceitar. Não se trata de igualizar rendimentos, mas apenas evitar que as disparidades se tornem de tal forma grandes que faça sentido pôr a vida em risco para as atravessar.

A segunda é a de entender que são os pobres dos países para onde se dirigem os emigrantes que pagam a factura da migração, enquanto os ricos tendem a lucrar com isso. Por outro lado, os que mais fogem não são necessariamente os que mais precisam de fugir mas por vezes os que têm meios para pagar a fuga.

A terceira é a de que a fraternidade tem de jogar nos dois sentidos. Qualquer pessoa que queira uma pátria de refúgio tem que aceitar os seus valores essenciais.

A quarta é a de não confundir recusa de aventuras com falta de coragem política. A Síria ou a Líbia, para citar dois dos mais próximos exemplos, são nossos vizinhos e não é possível virar as costas ao que lá se passa.
A quinta é a hipocrisia. Temos de deixar de nos remeter ao papel de pregadores de moral abstracta ignorando a realidade que nos rodeia.

Pela minha parte, os melhores votos para a corajosa dupla de advogados que ousou dizer que o rei vai nu.

Tällberg, 2019-08-20

Paulo Casaca

Paulo Casaca

A SEDUÇÃO EM REDE

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A SEDUÇÃO EM REDE

 

Uma das minhas mais antigas memórias de infância é a de ouvir o noticiário radiofónico da ‘Emissora Nacional’ que começava com o apontamento ‘Rádio Moscovo não fala verdade’, apontamento que teve em mim o único efeito de tentar desesperadamente escutar a tal Rádio Moscovo assim demonizada mas por isso mesmo alvo Da minha incontida curiosidade.

Outros tempos, outras tecnologias, mas, a crer no que leio na imprensa, as mesmas obsessões por parte dos participantes num encontro anual denominado de ‘web summit’ a decorrer em Lisboa que descobriram num dissidente americano exilado em Moscovo o último grito da comunicação.

E assim está o nosso mundo de comunicação instantânea e sem fronteiras cansado do que tem e fantasiando sobre o que está para além do seu entendimento. Que Moscovo seja, na esteia de Teerão, uma das principais capitais mundiais da desinformação; que utiliza o espaço comunicacional para promover o enredo, o engano ou a efabulação, são detalhes que pouco interessam à nossa opinião pública.

A última vez que um presidente norte-americano resolveu utilizar a mão pesada para pôr na ordem os serviços secretos do país, saneando centenas de operacionais envolvidos em obscuras operações de desestabilização na América Latina – e já lá vão mais de quatro décadas – foi alvo de uma operação de demolição que o levou à humilhação eleitoral.

De lá para cá, as coisas não parecem ter melhorado, com um dos inquilinos da Casa Branca alegadamente a dispensar a sua vigilância e o presente a ser alvo de um processo de destituição por denúncia vinda desses mesmos serviços que também ele tentou domesticar, embora sem saneamentos em massa.

Dar a um contratado externo aos serviços secretos acesso a informação vital é sintoma de amadorismo em organismos que cada vez mais parecem apenas eficazes a pôr em causa aqueles que eles supostamente protegem mas que são incapazes de informar sobre os planos nucleares do Irão ou da Coreia do Norte, entender a revolta árabe contra o imperialismo teocrático ou estabelecer a estratégia para enfrentar o Grande Irmão.

Para além das desventuras das relações do poder político com os serviços secretos que este fascínio pela informação vinda de Moscovo simboliza, creio que estamos mais uma vez perante um sintoma do niilismo que nos submerge e a que tenho dado alguma atenção.

Do cansaço com o Natal ou com as normas de vestuário passámos agora à fatiga com a verdade, a ciência e a descoberta; uma mais perigosa fase de fascínio. Receio mesmo que estejamos perante uma lógica semelhante à de um filme de terror que tanto mais nos seduz quanto mais nos aterroriza.

Resta-nos esperar que se trate apenas de um mau sonho e que algum bom senso volte com o despertar.

Bruxelas, 2019-11-06
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

E DEPOIS DO CALIFA IBRAIM?

Paulo Casaca

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PAULO CASACA E DEPOIS DO CALIFA IBRAIM?

 

A edição eletrónica do ‘Washington Post’ classificou o dirigente jihadista eliminado por uma audaciosa operação das forças especiais norte-americanas, em título do seu obituário, como teólogo austero, o que é pouco mais ou menos o mesmo do que descrever Hitler como ‘pintor e ensaísta austríaco’ por alturas da sua morte.

E se um poderoso movimento da opinião pública obrigou o jornal norte-americano a recuar, apelidando agora o assassino em massa como ‘líder extremista’ – o que continua a ser obviamente um grosseiro e ofensivo eufemismo para as muitas dezenas de milhares das suas vítimas – a realidade é que este epígono da imprensa dita de referência nos permite perceber a dimensão da psicopatia do apaziguamento com que a sociedade ocidental trata o Jihadismo.

Desde a sua autoproclamação como Califa que o líder da organização jihadista assassinou milhares de pessoas, reduziu dezenas de milhares de crianças e mulheres à escravatura, impôs um código social e político fanáticos e desencadeou atentados terroristas pelo mundo inteiro. Tal como aconteceu com Bin Laden, não há razões para crer que a eliminação do líder desta organização se traduza pelo fim das actividades deste grupo, dos outros que existem no mundo ou, pior que isso, da utilização dessa doutrina por Estados com o objectivo de manipulação política.

A ideologia jihadista está claramente a ser posta em causa em todo o mundo muçulmano e afirma-se cada vez mais como mero instrumento de lógicas imperiais de Estados como o Irão e a Turquia ou ainda de outros que creem que ela pode resolver o seu problema de identidade, como é o caso do Paquistão.

Paradoxalmente, é no Ocidente que o Jihadismo se vê reverenciado, os seus crimes secundarizados, as potências que o manipulam desculpadas. E é por isso que o Jihadismo continua a ser uma das maiores ameaças enfrentadas por todos os que prezam valores humanos e é por isso fundamental continuar a combatê-lo, começando por enfrentar os meios mediático-político-financeiros que fazem a sua apologia entre nós.

Bruxelas, 2019-10-29
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ESMAGAR CORPOS E DESPEDAÇAR OSSOS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA ESMAGAR CORPOS E DESPEDAÇAR OSSOS

 

A expressão agora famosa foi proferida pelo presidente chinês a 13 de Outubro por ocasião de uma visita oficial realizada ao Nepal e foi utilizada para explicar a política chinesa perante o separatismo.

O Nepal envia rotineiramente para trás os refugiados do Tibete – país conquistado pela China nos anos 50 do século passado – pelo que o discurso pode servir de aviso em relação a qualquer veleidade nepalesa de mudar de política, como pode servir também de aviso a Hong Kong e à Formosa, ou apenas como constatação do que se passa no Turquestão Oriental.

Noutras longitudes, o ditador turco empenhado numa campanha de limpeza étnica no Norte da Síria seria um natural candidato a subscrever estas palavras, como infelizmente parece que haja também quem as subscreva no nosso país vizinho.

Embrenhados que estamos nas trapalhadas do BREXIT – que como finalmente observou o presidente cessante da Comissão Europeia, nos fizeram perder já três anos – tendemos a perder de vista que, muito pior que as fragilidades do nosso sistema democrático é a inumanidade do sistema imperial que reclamando-se de uma religião, de uma etnia, de uma língua, de um sistema hereditário, de uma história ou de um pouco de tudo isto considera a trituração de seres humanos como instrumento político aceitável.

Às portas da Europa, as barbáries imperiais jihadistas iraniana e turca expandem-se entre momentos de disputa e de aliança, com a Rússia de Putin a ensaiar o que quer vir a fazer na Europa. O Ocidente age como se existisse noutro planeta e perde a capacidade de entender o que se passa.

O encerrar do processo negocial da adesão europeia da Albânia e da Macedónia do Norte, sem qualquer razão imparcial ou explicação, mostra até que ponto vai a nossa política de avestruz.

Uma Europa sem princípios nem valores; que aproveita todas as oportunidades para insultar os Estados Unidos da América, sem no entanto dar qualquer passo para poder subsistir sem a sua garantia de segurança; que abandona agora as minorias curdas como abandonou todas as outras; que se encolhe perante todos os impérios e se mesmeriza com o seu umbigo corre sérios riscos de sobrevivência.

Contrariamente ao que parecem pensar as elites europeias, nada há nos corpos dos nossos cidadãos que seja mais difícil de esmagar e despedaçar do que nos corpos de outros seres humanos que habitam outras longitudes. Somos todos feitos da mesma massa.

Bruxelas, 2019-10-22
Paulo Casaca

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