Connect with us

Nuno Melo

CADA VEZ MAIS UM CENTRO DO AR

Nuno Melo

Publicado

|

NUNO MELO ALVES CADA VEZ MAIS UM CENTRO DO AR

 

O Air Centre prometia muito. Prometia, desde logo uma tarefa quiçá ingrata, mas que estaria na base da sua génese. Quando foi anunciado, estava destinado a ser uma das grandes medidas para compensar os efeitos na economia terceirense (e açoriana) da redução efetivo militar americano nas Lajes. Começou por se chamar Air Center, com a palavra Center escrita na grafia do Inglês dos Estados Unidos. Mas rapidamente, antes até de funcionar, o nome foi mudado para Air Centre (adotando a grafia do Inglês Europeu), gesto que só pode ter uma leitura: foi para quebrar a anunciada ligação entre este centro de investigação e as quebras económicas provocada pela redução nas Lajes, pois até a embaixada dos EUA em Lisboa se referiu ao AIR Center como contrapartida pela redução. Até o discurso oficial sobre o mesmo mudou: começou por ser algo que iria beneficiar a Terceira, evoluindo para algo que iria beneficiar os Açores e agora é algo para o País.

Sem abrir portas na Terceira, o Air Centre valeu logo à cabeça 64 milhões de euros e um supercomputador. O computador, com todos os técnicos para usá-lo e mantê-lo em funcionamento, foi para universidade do Minho. Os 64 milhões foram divididos entre os pobres e necessitados centros de investigação das universidades de MIT, Carnegie Melon e Texas Univesity, nos Estados Unidos, e o centro de supercomputação de Barcelona e a Sociedade Fraunhofer na Europa. Para os Açores ficou a promessa de eventualmente alguns administrativos, na sede a localizar na Terceira, nalgum espaço cedido pela Câmara da Praia da Vitória.

Agora, ainda sem dar qualquer fruto conhecido nos Açores, e muito menos na Terceira, o Air Centre vai abrir dois polos no Brasil: um no Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, e outro no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, em Salvador.

Esta expansão é sinal que o Air Centre está a funcionar e fazer o seu percurso. E é isso que é preocupante, porque quando foi anunciado era para ser a chave para acabar com os males da economia da Terceira provocados pela redução das tropas americanas nas Lajes.

Este projeto até pode vir a ser algo de muito útil, para o País e para a Região. Não pode é ser aceite nem anunciado como contrapartida do impacto na economia da redução militar da Base das Lajes (são cerca de 100 milhões de euros por ano a menos que entram na economia da Terceira e dos Açores). E ao ser anunciado como tal, pelo ex-embaixador norte-americano em Portugal, criou expectativas (e exigências) em relação ao seu funcionamento, às contrapartidas, aos impactos económicos e sociais imediatos e de longo prazo, às suas valências e aos locais aonde ficarão instaladas essas valências. O que hoje se percebe é que nenhuma das expectativas criadas será cumprida.

Eventualmente, poderão existir alguns benefícios novos trazidos à região, nas áreas científicas, por este Air Centre. Até agora, os potenciais benefícios anunciados resultam apenas da agregação no Air Centre de outros programas de investigação científicos, ou seja, de se englobar neste centro outras coisas em curso e que iriam ocorrer na mesma sem o Air Centre.

Já o disse, mas repito: por si só, este Air Centre até poderá ser algo interessante a médio e longo prazo, se, e sublinho se, começar a criar algo nos Açores e a deixar cá conhecimento, o que até agora não aconteceu.

Como alegada contrapartida pela redução nas Lajes e como um benefício direto à economia dos Açores, mesmo num horizonte de 10 anos, infelizmente cada vez mais se confirma a suspeita que é apenas um Centro de Ar: porque só fica cá o ar quente, das conversas e das promessas ocas.

20/08/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

DESVIOS SEM NEXO

Nuno Melo

Publicado

|

Por

NUNO MELO ALVES DESVIOS SEM NEXO

 

Não é habitual que os militares tomem qualquer posição política ou sobre as políticas nacionais. Talvez a única exceção sejam aquelas políticas que lhes dizem respeito diretamente, como sobre o serviço militar, orçamentos das forças armadas, etc. De resto, é assim por uma questão de equilíbrio democrático, mas sobretudo porque as forças armadas são um dos pilares do Estado e são o garante do Estado contra agressões exteriores. Por serem e para serem uma parte do Estado não podem ser politicamente parciais. O Estado é de todos, de todas as tendências e acima de qualquer inclinação política. E é com o Estado que os militares estão comprometidos: com a Constituição, com as instituições e com os cidadãos e não com uma ou outra fação política.

É por essas razões que foi com algum espanto que li a notícia que fontes militares da Base Aérea n.º 4 alertaram um jornal açoriano para a passagem sucessiva de voos de Estado para os aeroportos de Ponta Delgada e Santa Maria, quando entendem que esse papel deveria ficar para as Lajes. A localização do Representante do Presidente da República na Ilha, e a presença militar portuguesa na Base Aérea, permitem que, além das honras militares aos dignatários estrangeiros, a representação da soberania portuguesa esteja bem acautelada.

As fontes militares não percebem a opção de enviar os voos de Estado para aquelas duas ilhas, criticando que, e passo a citar “a Base das Lajes continua ‘às moscas’”, e alertando que este assunto não pode nem deve ser desvalorizado e, ainda, revelam estupefação por as forças vivas da Terceira não se manifestarem contra esta situação.
De facto, tudo isto é estranho e não há qualquer lógica nos voos de Estado serem desviados para outros aeroportos que não a Base Aérea n.º 4. A certificação civil do aeroporto das Lajes não pode ser desculpa apara o desvio de voos de Estado, por três razões. Primeiro, a função militar do aeroporto, e de soberania portuguesa neste espaço, não se perde com a certificação civil. Segundo, a certificação civil não parece nem estar completa nem tão pouco a produzir resultados práticos ou palpáveis, ao nível das escalas técnicas e da aviação civil. Terceiro, os dois aeroportos para onde os voos estão a ser desviados são exclusivamente civis.

Pode-se sempre especular que a posição de fontes militares da Base Aérea seja uma disputa entre armas, concretamente motivada por a Força Aérea não querer perder a importância e peso nos Açores face aos outros ramos, mas sinceramente, parece-me que reduzir este assunto a uma quezila de casernas é absurdo. É que os desvios dos voos existem, sem que se percebam ou perspetivem razões objetivas para tal, ao nível das condições de segurança bélica ou de segurança aeronáutica.

Tudo indica que se tratam de opções políticas e como tal, têm que ser resolvidas no plano político. E é por aqui que as declarações e denúncias das fontes militares nos devem incomodar. Quer dizer que, sobretudo, os órgãos políticos da Terceira e dos Açores estão em falta ou a falhar, na procura de soluções para ocupar e dar uso à maior e melhor instalação aeroportuária dos Açores e na medida em que ainda desviam as poucas escalas que poderiam passar nas Lajes, para outros destinos.

O problema é de tal forma relevante e importante que, até os militares, cuja neutralidade interna tem que ser sempre preservada e salvaguardada (a única exceção foi o papel que tiveram inicio da democracia com o 25 de Abril), deram a conhecer as suas preocupações.

O Governo Regional dos Açores e as Câmaras da Terceira, bem como as forças vivas daquela Ilha, não podem deixar cair em saco roto as denúncias dos militares, que se dispuseram a expor-se numa situação de cariz político. Isso, por si só, já revela bem a urgência da situação.

12/11/2019
Nuno Melo Alves

Continuar a Ler

Nuno Melo

CENTRO DE QUÊ?

Nuno Melo

Publicado

|

Por

NUNO MELO ALVES CENTRO DE QUÊ?

 

Foi reconfirmado há poucos dias aquilo que já se sabia sobre a instalação do Air Centre: inicialmente apontado e anunciado como uma compensação pela redução do efetivo militar americano na base da Lajes, essa versão esfumou-se, e, agora que se soube que os americanos, apesar das parcerias iniciais com algumas universidades dos EUA, estavam fora do projeto, percebe-se que essa estória foi só para enganar.

Quem o reafirmou agora foi a presidente do Conselho Executivo da FLAD (Federação Luso-Americana para o Desenvolvimento), ao dizer publicamente que os EUA dispõem de centros de investigação de excelência que seriam extremamente úteis para se juntarem no Air Centre.

O principal pecado do Air Centre, que causou (e causa) desconfiança em relação à sua utilidade, foi a inabilidade política na forma como foi anunciado e como tem sido tratado pelos governos Regional e da República. Desde logo, por ter sido anunciado como contrapartida para atenuar os efeitos da base da Lajes. Rapidamente se percebeu a fragilidade desta solução como mitigadora das consequências económicas na Terceira e nos Açores, pois não tinha nenhum impacte palpável ou imediato na economia. Os governos Regional e da República acabaram por perceber isso e foram gradualmente mudando do seu discurso.

Sempre afirmei publicamente que, desse ponto de vista, como mitigação das consequências das Lajes, seria apenas um Centro de Ar (pois vazio de conteúdo ou consequências nesse âmbito). Porém, também afirmei que poderia, a longo prazo, ser algo útil para a Região, como base de conhecimento e de fixação de técnicos qualificados e especializados e com possíveis ligações e ramificações à Universidade dos Açores.

Ora, a visão da Presidente da FLAD, parece querer indiciar isso mesmo: que o Air Centre é um projeto em construção, e pese embora os impactes diminutos atuais, poderá será bom no futuro. Contudo, a posição da Presidente da FLAD também tem implícita que, pese embora todo o potencial que este Centro poderá ter, peca muito pelos centros de investigação atlântica de excelência norte-americanos não estarem envolvidos (isto apesar do que foi originalmente anunciado acerca da participação e envolvimento dos EUA no Air Centre). Assim sendo, gradualmente vai-se percebendo os reais contornos desta coisa.

Afinal, não foi fruto da diplomacia como contrapartida pela redução das FEUSAÇORES. Depois, pese embora o esforço (ou melhor, o marketing afirmando que houve um esforço nesse sentido) também não será algo para produzir impactes a curto prazo. Além disso, também agora se percebe que, sendo um centro que se pretende de conhecimento científico e de excelência, não tem a participação de alguns centros de investigação atlântica dos EUA, presume-se que de referência, o que, na minha interpretação do que disse a Presidente da FLAD, deixa o Air Centre coxo.

Os anos vão passando e as informações mudam conforme o vento. Convinha que fosse esclarecido, de uma vez por todas, e se soubesse o que realmente é este Air Centre e o que poderá ser, nos termos em que existe, e nos termos em que se gostaria que se concretizasse.

05/11/2019
Nuno Melo Alves

Continuar a Ler

Nuno Melo

ELECTRÓNICA SEGURA?

Nuno Melo

Publicado

|

Por

NUNO MELO ALVES ELECTRÓNICA SEGURA?

 

Há poucos dias foi notícia que um conjunto de distintos cidadãos (vários são figuras públicas e políticas, embora não estando ligados à política partidária) apresentou uma proposta de alteração ao sistema eleitoral nos Açores, com o propósito de reduzir a abstenção e tentar aproximar mais os eleitos dos eleitores.

Desde logo, é positivo que a proposta surja fora do espectro político tradicional, pois significa que há gente que, não estando na diretamente na política, em cargos públicos eleitos, está disposta a refletir sobre este assunto. Contudo, concretamente em relação à proposta, existem vários aspetos com os quais não concordo. Não me vou debruçar sobre esses vários aspetos, pelo menos hoje, mas apenas sobre um, mais relacionado com a forma que o conteúdo.

Uma das sugestões do grupo de cidadãos é a utilização do voto eletrónico com forma de combater a abstenção. Para os casos da abstenção não intencional, quanto mais fácil for votar mais baixa será: casos como os deslocados e os ausentes podem ser reduzidos pela facilitação dos meios de voto, concretamente com recurso a meios informáticos, móveis ou outros, para a expressão do voto. Repito, esta medida é essencialmente de forma e não de conteúdo. É um pouco como dizer que um comprimido será mais eficaz se a sua cor e sabor for mais apelativa, o que só seria verdade se efetivamente a cor e o paladar do comprimido impedissem alguém de o tomar. Confunde-se tornar um gesto mais fácil com dar-lhe a devida importância.

Outra das razões pela qual ainda não vejo utilidade no voto informático é a questão da segurança. Apesar de diversos programas e aplicações de segurança, todos os dias se houve falar de malware, de ataques de phishing, de vírus e de outros mecanismos para, através da via eletrónica, prejudicar os utilizadores. É verdade que a via informática, seja no PC, no telemóvel ou noutros dispositivos, já é um meio utilizado para gerir dinheiro, contas bancárias, fazer compras de bens e serviços, encomendar comida, tratar de assuntos de e com o Estado, etc.. Só que os mecanismos de segurança informáticos assentam na identificação e unicidade do utilizador. O problema do recurso a mecanismos informáticos ou eletrónicos está precisamente em garantir a segurança, ao utilizador e ao processo eleitoral, sem que o anonimato eleitoral seja violado. Quer isto dizer que os meios de identificação eletrónica, como a como a impressão digital, o registo da íris ou os códigos secretos pessoais estão associados de forma biunívoca a uma só pessoa, o que significa que também ligam o voto expresso a essa pessoa, violando o anonimato. O desafio está na validação do eleitor e do seu direito, sem violar o seu anonimato e, simultaneamente validar o voto, tudo no mesmo aparelho. Por alguma razão, apesar dos avanços tecnológicos, ainda nenhum País democrático sistematizou a votação eletrónica, sendo esta usada de forma restrita e controlada.

Finalmente, como acontece hoje em Portugal na relação com o Estado, os cidadãos infoexcluídos são muito prejudicados. Até têm que recorrer a terceiros para puderem validar o seu IRS, como sejam os técnicos de contas, as empresas especializadas ou serviços públicos.

Não vale a pena querer por a carruagem à frente dos bois e querer adotar soluções eletrónicas que ainda não existem. Mais importante que encontrar meios para desmaterializar o voto, é encontrar um sistema eleitoral e leis eleitorais que ajudem o cidadão a querer votar e façam-no sentir a importância e a consequência política dos seus actos. Feito isso, pouco interessa a forma de votar.

22/10/2019
Nuno Melo Alves

Continuar a Ler

+ Populares