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Pedro Gomes

WE ALONE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES WE ALONE

 

Após ter obtido uma retumbante vitória no Partido Conservador, Boris Johnson foi formalmente nomeado Primeiro-Ministro e Primeiro Lorde do Tesouro, pela rainha Isabel II, na passada quarta-feira.

As suas primeiras palavras como Primeiro-Ministro, repetidas na Câmara dos Comuns no dia seguinte não deixam margem para dúvidas quanto à prioridade política: o novo chefe do executivo britânico assumiu o brexit como uma “responsabilidade pessoal”.

No discurso na Câmara dos Comuns, Boris Johnson sublinhou que o divórcio – litigioso ou amigável – com a União Europeia terá lugar até 31 de Outubro, declarando que prefere uma saída com acordo.

Boris Johnson é um político surpreendente, muitas vezes contraditório e arrojado em muitas das suas posições. Os próximos três meses serão determinantes para o sucesso ou insucesso do seu mandato, que se inicia em circunstâncias pouco invejáveis e dominadas pelo tumultuoso processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

Depois do fracasso da sua antecessora e, perante os três votos de rejeição da Câmara dos Comuns ao acordo celebrado com a União Europeia, a margem de manobra do novo Primeiro-Ministro é muito reduzida no plano interno, até porque o facto de não se ter submetido a eleições o fragiliza.

Pelo seu lado, a União Europeia não vai alterar a posição em relação ao Reino Unido, apenas porque houve uma mudança de Primeiro-Ministro. A inflexibilidade continuará a ser a regra, sobretudo porque a Europa não quer que o brexit se possa tornar num perigoso precedente político que alimente a tentação de saída de outros Estados-membros.

Boris Johnson enfrenta um dos maiores desafios da sua carreira política daqui até ao fim de Outubro, sob o espectro de um no deal brexit, que custará muito caro ao Reino Unido.

Nas próximas semanas o discurso político vai endurecer de ambos os lados do Canal da Mancha e uma das duas margens vai ficar isolada. The winter is coming.

Pedro Gomes
26JUL2019 – 105 FM

Pedro Gomes

CHUVA DE AGOSTO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES CHUVA DE AGOSTO

 

O tempo incerto deste mês de Agosto trocou as voltas ao calendário e fintou o clássico “Almanaque do Camponês” que não conseguiu prever um mês tão chuvoso como este, para desespero dos turistas e dos pais que não sabem o que fazer aos humores de adolescentes irrequietos que não podem ir para a praia.

Na verdade, andamos todos mal-humorados com este tempo chuvoso e de elevada humidade, que nos faz repetir o velho gracejo de que só aguentamos este tempo com guelras, o que deixa logo espantado qualquer forasteiro que pensará que a famosa humidade das ilhas perturbou o espírito dos açorianos que até sonham em ser peixes.

Nada disso, esclarecemos logo, pois sabemos do que falamos. Ao fim de mais de quinhentos anos nestas ilhas, habituámo-nos a lidar com os humores meteorológicos com a tranquilidade que vem do conhecimento: olhamos o céu pela manhã e percebemos se vai chover ou não, mesmo que se esteja no pino do Verão e a chuva seja uma improbabilidade estatística. Espreitamos as nuvens e arriscamos uma previsão sobre o momento em que o céu se vai abrir.

Fizemos da meteorologia uma arte requintada, sobre a qual discorremos com elegância.

Mesmo quando chove em Agosto – o que é um anacronismo – logo encontramos uma explicação para este estado de alma do tempo, que vai das alterações climáticas ao “El Niño”, que constitui um bom tópico para as conversas de Verão com chuva.

Perante uma chuva persistente e teimosa, não nos rendemos: a gabardina não sai do armário. O braço-de-ferro pode prolongar-se, mas no final, Agosto acabará por ser Agosto.

No entretanto, reinventamos os dias, longe da praia, com uns disfarçados suspiros por todos os lugares do planeta em que o sol brilha e a temperatura está acima dos vinte e oito graus.

Adília Lopes escreveu “a Tia Paulina dizia: chuva, vento e frio. E também dizia: vento a puxar chuva. Eu digo o mesmo aqui”.

Estamos conformados com tempo, mas não nos resignamos. Há-de passar, com a mesma certeza com o que o dia sucede à noite.

Pedro Gomes
23AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

VIAJAR É VIVER

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES VIAJAR É VIVER

 

Abu Abdullah Muhammad Ibn Battuta, mais conhecido por Ibn Battuta é um dos maiores viajantes da história.

Nascido em Marrocos, no início do século XIV, Ibn Battuta, com 21 anos, decidiu cumprir o haji – um dos cinco pilares da fé muçulmana – e partir para a cidade sagrada de Meca, para a peregrinação ritual.

A viagem que deveria durar pouco tempo, prolongou-se durante quase de três décadas.

Ibn Battuta percorreu mais de cento e vinte mil quilómetros e visitou quarenta e quatro países, incluindo os lugares sagrados do Islão, desafiando as limitações impostas aos viajantes do século XIV.

Contemporâneo de Marco Polo, durante uma parte da sua vida, Ibn Battuta, percorreu uma distância superior à deste, sem que alguma vez se tivessem cruzado. Marco Polo era um mercador, sem educação formal que viajou para países com culturas diferentes da sua. Battuta era um homem da classe média-alta, cosmopolita, educado e versado em leis, que viajou até aos limites geográficos da influência muçulmana.

A duração temporal da viagem, o número de países visitados, a distância percorrida, os obstáculos geográficos, políticos e sociais que teve de vencer, as dificuldades impostas pelos meios disponíveis para percorrer grandes distâncias, as doenças que atormentavam os viajantes – a que ele não escapou – tornam a viagem de Battuta numa aventura épica, num tempo em que os viajantes eram peregrinos, mercadores ou militares.

Este notável viajante percorreu apenas países sob domínio muçulmano tendo trabalhado em muitos deles como juiz, já que estudara leis antes de partir.

Ao longo da viagem, anotou minuciosamente – com espírito de jurista – os usos e costumes de cada lugar, a organização social, o sistema político e de governação, num registo precioso que constitui um mosaico de influência muçulmana na Europa, África ou Ásia.

Quando Ibn Battuta regressa a Marrocos, cerca de 1350, é encarregue pelo sultão Abu Inan Faris de escrever o relato da sua viagem, que dá origem ao livro conhecido como “Rihla de Ibn Battuta”, que terá sido escrito por um terceiro a quem Battuta narrou a sua extraordinária viagem.

Seiscentos anos depois, continuamos a admirar o espírito deste viajante intrépido.

Pedro Gomes
16AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

NÓMADAS EM VIAGEM

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES NÓMADAS EM VIAGEM

 

No Verão todos somos Xerazade, no desejo absoluto das conversas que se prolongam, das histórias que trazemos da vida para a porta da amizade ou para um ocasional encontro de amigos, em que o tempo fica suspenso do que podemos contar e escutar.

No Verão, também todos somos Marco Polo, inspirados pela viagem que falta fazer e animados pela vontade de enfrentar o desconhecido, longe dos lugares que inundam os folhetos turísticos que prometem praias e lugares paradisíacos e que afinal são todos iguais, numa impúdica massificação do gosto.

O viajante não é um turista, na subtileza das suas escolhas, no desenho de uma geografia de lugares e pessoas muito pessoal. Cada viajante cartografa o mundo de acordo com um código pessoal que apenas ele conhece e que não pode ser replicado. Por isso mesmo, cada viagem é única e irrepetível, mesmo que outros possam seguir os seus passos.
Uma viagem pressupõe a descoberta de si próprio, num exercício de subjectividade que singulariza cada viajante: do que gosto? O que gostaria de ver? Que percursos vou escolher? Quem me vai acompanhar?
Viajar é traçar uma geografia íntima. Um percurso de aprendizagem e de conhecimento sobre os lugares e as gentes.

Na antiguidade grega, o conhecimento e a sabedoria estavam ligados à ideia de viagem, de peregrinação e de aprendizagem.

O filósofo francês, Michel Onfray escreveu um belíssimo ensaio – “Teoria da Viagem – Uma poética da geografia”- sobre a determinação de cada viajante, o prazer da fruição da viagem ou a poética de cada lugar escolhido.

Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira”, escreve o autor, que defende a ideia – para mim sempre sedutora – de que qualquer viagem começa numa biblioteca ou numa livraria, quando o olhar é seduzido por um lugar inesperado ou um animal exótico que salta de um romance, de um poema ou de um atlas.

Como são belos os atlas, na precisão minuciosa do recorte dos países e dos continentes, da imensidão da água que cobre a terra, dos nomes dos lugares que se sobrepõem em torvelinho, na confusão dos sentidos que nos causam, porque não conseguimos medir as distâncias com o olhar e afinal descobrimos que estamos a dar saltos de milhares de quilómetros; dizemos que o mundo é grande e os atltas – sempre verdadeiros e, simultaneamente mentirosos – parecem desmentir a geografia e a cartografia. Uma pura ilusão que nos atrai, como as sereias sempre fizeram aos marinheiros.

Uma viagem é sempre uma revelação.

Pedro Gomes
9AGO2019 – 105 FM

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