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Nuno Melo

FOGO PÓ AR!

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES FOGO PÓ AR!

 

Está a circular na internet uma petição que visa reduzir ou proibir totalmente o uso de foguetes, nas festas tradicionais, com o argumento que o seu som é incomodativo. Os termos em que a petição está escrita deixam transparecer que os proponentes desconhecem a realidade das festas de freguesia. É natural e legítimo que o desconhecimento exista, sobretudo nas urbes onde as festas estão a cargo das autarquias e, portanto, desfasadas da iniciativa do povo e do envolvimento das pessoas na sua comunidade.

O som dos foguetes a rebentar é um dos sons mais característicos dos Açores. Não só no verão, mas especialmente nesta época, quando as festas de freguesia abundam por todas as ilhas. Os foguetes servem, no âmbito de uma festa de freguesia para muita coisa: dar o mote ou o início, e também o fim, da mudança de coroa, da coroação, do bodo de leite, da reza do terço; servem para concretizar as nomeações das comissões, como que se as selassem, quer da nova comissão anunciada, quer dos pelouros extraídos, a concretizar honra de um irmão em receber o Senhor Espírito Santo nas diferentes semanas; servem para dar as boas-vindas e fazer as despedidas aos donos das casas que recebem o pezinho e a distribuição do alfenim, anunciando a vinda dos cantadores e da filarmónica; servem para anunciar a bênção da carne e o início da sua distribuição; ou seja, servem para assinalar tudo o que é importante nas festas. Nas touradas à corda, que fazem parte das festas de algumas ilhas, os foguetes também sinalizam a entrada e saída dos toiros, o intervalo e o fim. Os foguetes marcam o ritmo das festividades e é, por isso, que as comunidades onde estas se desenrolam recebem o seu barulho com alegria e com naturalidade. E é por isso que as pessoas os recebem, muitas vezes, com a expressão “fogo pó ar”. Em suma, não há festas sem foguetes.

Não se pode aceitar que, por desconhecimento da realidade da maior parte do território regional, e das celebrações genuinamente enraizadas no povo das nove ilhas, aqueles que se sentem superiormente “urbanos” e não se revêm nelas, queiram alterar, proibir e destruir as tradições das freguesias e localidades dos Açores. E muito menos com o argumento que o barulho é incómodo.

As regras que envolvem os foguetes, concretamente no que toca ao seu fabrico, transporte, armazenamento e lançamento são muito rigorosas, estando sujeitas a licenciamentos e controlos apertados, cujo incumprimento acarreta pesadas coimas. As regras são tão rigorosas que uma festa em S. Jorge ficou sem foguetes este ano, porque as autoridades consideraram que não havia maneira de os transportar, obedecendo aos requisitos de segurança.

Por conhecimento direto, decorrente da minha participação em reuniões do conselho municipal de segurança de Angra do Heroísmo, e outras de caracter semelhante, as queixas reportadas pelas forças policiais relativamente a excesso de ruído incidiam sobre barulhos de bares, discotecas, verbenas e, especialmente, o ruído de quem entra e saí desses locais e circula nas suas imediações. Em relação ao ruído de foguetes, nunca houve indicação de queixas.

Os peticionários estão no seu direito de não gostarem do ruído dos foguetes, como estão no direito de não gostarem das festas que usam os foguetes. Não têm, porém, o direito de desvirtuar, alterar ou proibir as tradições, que, por serem, “urbanos” desconhecem ou não gostam. Talvez o seu objetivo não seja impedir o foguete, mas sim as festas.

Por isso, digo como se diz por cá: fogo pó ar!

23/07/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

PEIXE NO MAR

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES PEIXE NO MAR

 

Como dizia na semana passada, é preciso ir além das questões das modas na proteção do ambiente. E nesse sentido, até houve notícias positivas há pouco tempo, concretamente a proibição de pesca em dois bancos nos mares dos Açores. O objetivo do Governo Regional com essa proibição de pesca é dar tempo às espécies de peixe para aumentarem a sua população, situação benéfica a vários níveis. Por um lado, a médio e longo prazo trará melhores condições para a pesca, por outro lado, impede que as espécies e o restante ecossistema marítimo que delas depende desapareçam.

O biólogo marinho e professor da Universidade dos Açores, João Pedro Barreiros, há vários anos que defende a aplicação de restrições nalguns bancos de pesca como forma de permitir a reposição do stock de peixe nos Açores. Durante estes anos tem apelado e feito alertas, de forma constante, para os perigos da sobrepesca e para a necessidade de se permitir o aumento do número de exemplares das espécies como forma de tornar a pesca sustentável e viável. Em 2018 avisava que o mar dos Açores estava à beira do colapso, arriscando a tonar-se em “desertos marinhos” e avisando que “as pessoas que quiserem comer peixe terão que o importar”, isto se nada fosse feito, concretamente se não se criarem áreas marinhas protegidas integrais, fechadas à pesca, para permitir o repovoamento das espécies marinhas.

Há um ano era notícia que os pescadores da Terceira queixavam-se da diminuição acentuada de algumas espécies marinhas, que apareciam em muito menores quantidades. Ora, essa diminuição foi vista por João Pedro Barreiros como sendo já a consequência da falta de uma rede eficaz de reservas marinhas e da sobrepesca. Há poucos dias a Associação dos Operadores Marítimos dos Açores pediu ao Ministro do Mar – ultrapassando o Governo Regional dos Açores – a criação de áreas protegidas e a proteção de tubarões. A Associação também alertava apara o “abrupto decréscimo dos recursos marinhos existentes nas águas da Região Autónoma dos Açores” e para a necessidade de se criarem “Áreas Marinhas Protegidas eficazes em todas as ilhas dos Açores”. Os operadores turísticos confirmam aquilo que os pescadores sentem, que o peixe está a desaparecer dos mar dos Açores e que é preciso agir para reverter essa situação.

As restrições à pesca bem aplicadas em zonas cientificamente selecionadas produzem efeitos positivos dentro de três a quatro anos (como se viu no caso do Banco Condor), sendo perfeitamente possível articular as atividades de pesca com a preservação dos recursos marinhos. Por isso, o encerramento temporário de dois bancos submarinos é uma notícia positiva, ou pelo menos, parece ser um bom começo. Não sou cientista nessa área, por isso não sei avaliar se é suficiente ou se será necessário criar mais zonas destas em rede, para que sejam eficazes no repovoamento das espécies marinhas. Desconfio que isto seja apenas um começo e que seja necessário alargar a rede, mas se assim for, terá que ser, pois não podemos ficar sem peixe.

A questão é que, simultaneamente, durante estes períodos de aplicação de restrições à pesca cria-se um problema aos profissionais do sector que possivelmente ficarão privados do seu sustento económico. Para se garantir a reposição das espécies, os pescadores têm forçosamente que estar empenhados e comprometidos com as zonas de proteção, sendo por isso, necessário criarem-se mecanismos de proteção ao rendimento daqueles que são diretamente afetados pelas restrições.

Parece que esta situação ainda não está acautelada. Mas é urgente que esteja, para bem do peixe no mar.

10/12/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

MODAS E PROTAGONISMOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES MODAS E PROTAGONISMOS

 

É impossível ficar indiferente à ocorrência da COP25, a cimeira das Nações Unidas sobre o clima. É também impossível, infelizmente, dissociar as preocupações com o clima dos excessos das soluções radicais, sem equilíbrio, e, muitas vezes, sem fundamento científico quanto à sua eficácia ou relevância. E é, ainda, difícil focar apenas nas questões climáticas, mediante tantos outros problemas ambientais, como a poluição do meio marítimo com plásticos e outros detritos.

Existem outros problemas, que têm sido identificados e estudados, que decorrem das alterações climáticas e do aumento de poluição, mas também de outras causas, e cuja solução exige uma resposta mais transversal. Um grupo financeiro japonês prevê uma crise humanitária, em que metade da população mundial pode vir a ser afetada por aumentos de preços brutais dos alimentos, provocados pelas alterações climáticas. Acontece que a pressão nos preços dos alimentos também está a ocorrer devido ao aumento da procura, que resulta de, pelo menos, duas coisas: por um lado, as melhorias qualitativas na alimentação nos países mais desenvolvidos, e, por outro, do aumento exponencial da população mundial nos últimos séculos.

Uma das fórmulas da moda para reduzir a pegada ambiental da produção alimentar tem sido substituir a produção intensiva por processos biológicos e naturais mais amigos do ambiente, mas, objetivamente, menos eficazes na quantidade produzida. Esta solução não reduz a pressão que provoca o aumento de preços dos alimentos. No entanto, soluções como o uso de alimentos geneticamente modificados são apressadamente condenadas por alguns dogmáticos que pretendem limitar ou proibir o seu uso, quando, precisamente pelas suas características especificamente desenvolvidas, podem ser a solução para aumentar a oferta alimentar e diminuir a pressão sobre o ambiente. Ou seja, em áreas menores e salvaguardando as florestas e os habitats, é possível produzir mais, o que parece ser uma solução mais favorável à conservação do que propriamente a produção natural.

Quanto ao consumo energético, os combustíveis fósseis são poluentes, e a pressão para se encontrarem alternativas tem levado a um excessivo e desmesurado entusiasmo com as soluções de mobilidade elétrica baseadas nas baterias, cuja pegada ecológica é grande e cuja tecnologia necessita de minérios escassos. A segurança destas soluções ainda não é um dado adquirido e alguns produtos com baterias já estão proibidos de serem transportados como carga aérea. Há que insistir no desenvolvimento de soluções eventualmente melhores, como o hidrogénio ou o gás natural liquefeito, sem cair na cegueira atual que está impor a solução elétrica a baterias à base no lítio.

A questão de fundo é que, infelizmente, tem havido muito ruído, muito alarmismo e alguma precipitação em relação às soluções a adotar ou a rejeitar, como por exemplo, nos casos referidos. Cada vez parece mais óbvio que as soluções para estes problemas de escala global têm que passar por repostas cientificamente fundadas, por mecanismos que não sejam piores que os problemas que tentam resolver, e cada vez menos por entusiasmos com protagonistas e modas que se transformam em soluções políticas, muitas vezes caras mas irrelevantes. A conservação do planeta assim o exige.

03/12/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

A TAXA DAS DISFUNCIONALIDADES

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES A TAXA DAS DISFUNCIONALIDADES

 

As taxas turísticas parecem estar na moda. Surgiram primeiro em Lisboa em 2016, tendo-se gradualmente alargado a algumas outras localidades: Porto, Gaia, Óbidos, Mafra, Cascais e Vila Real de Santo António, entre outras, já adotaram esta medida. E agora, a Ilha de São Miguel também terá uma taxa turística. Devo dizer que acho que as taxas turísticas são um aproveitamento político absurdo e que revelam problemas graves subjacentes ao sector turístico.

Em primeiro lugar porque os desgastes provocados pelos turistas, nas estradas, nos monumentos, etc., já são pagos nos impostos e taxas que incidem sobre a atividade económica em geral. As viaturas de aluguer e os transportes turísticos pagam imposto de circulação e sobre o consumo de combustível, sobre as receitas e sobre as despesas, nestes últimos casos em função da quantidade. Nos outros consumos, os turistas pagam IVA nos preços que lhes são cobrados e taxas específicas. E nos monumentos públicos e privados, pagam o preço dos bilhetes de entrada.

Em segundo lugar, porque as taxas turísticas são um imposto, portanto uma receita pública, e não dos operadores privados. O normal seria, perante excesso de procura, os privados aumentarem os seus preços, até que a procura se equilibrasse à oferta, ou, até haver uma expansão da oferta turística no destino. O aumento de preços é igualmente exequível nos sítios e monumentos públicos, mas até pode ser possível que, por razões de índole cultural, não se queira fazer isso. Mas nesse caso, pode-se sempre recorrer a outras formas de controlar o número excessivo de visitantes aos sítios e monumentos, mediante a aplicação de restrições ao número de visitantes e com recurso a esquemas de marcação e reserva de visitas. O que não é normal é que surja um imposto adicional para onerar ainda mais os preços de um destino, ficando os operadores turísticos a perder.

Terceiro, em sítios como Lisboa, Porto, Coimbra, Ponta Delgada, Angra e Horta, localidades onde existem unidades de saúde para onde são encaminhados doentes, é absurdo cobrar a taxa turística a que lá se desloca por motivos de saúde ou visita a familiares que estejam numa dessas situações. O mesmo raciocínio se aplica às cidades que têm universidades, para onde se deslocam estudantes e onde os seus familiares os visitam. Eu diria mais: não é aceitável que sejam cobradas taxas turísticas aos cidadãos portugueses e com residência em Portugal, pois já pagam impostos pelos serviços públicos, sendo até sujeitos a uma tripla tributação: quando pagam impostos, quando usam serviços que pagam impostos e quando lhes é cobrada a taxa turística.

Finalmente, porque quando as taxas turísticas são introduzidas por excesso de procura de uma localidade, isso quase sempre revela mau funcionamento do destino turístico no geral. O caso das taxas turísticas de Lisboa, Porto e outras cidades grandes é um flagrante exemplo da má gestão do turismo feita no País. É óbvio que não se pode contrariar as preferências dos turistas mas pode-se criar condições melhores para incentivá-los a procurar outros destinos no País, através da inteligente gestão e aeroportos, transportes, eventos, etc..

No caso dos Açores, a aplicação de uma taxa turística em S. Miguel, acordada pelos seis municípios, é a confirmação do sucesso do turismo naquela ilha, mas a outra face da moeda é que é igualmente a confirmação do fracasso do turismo nas restantes. Ou seja, há excesso de turismo em S. Miguel, faltando nas outras ilhas. Tendo em conta que os governos Regional e da República, além de serem reguladores, também são operadores, ao gerirem aeroportos e serem donos de companhias aéreas, têm responsabilidade nas disfuncionalidades do sector de turismo. E em vez de as resolverem, levam a que seja criada uma taxa turística em S. Miguel.

Não sou só eu que digo que existem disfuncionalidades no turismo: também as seis Câmaras de São Miguel o dizem.

26/11/2019
Nuno Melo Alves

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