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Pedro Gomes

QUE COISA ESTA, A MORTE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES QUE COISA ESTA, A MORTE

 

A notícia da morte do André chegou silenciosa e brutal, ao princípio da tarde de ontem.

Entre a vida e a morte, o André não conseguiu vencer a sua última batalha, apesar de se ter empenhado até ao limite, como fez em todos os combates políticos que animaram a sua vida.

A luta com a morte é traiçoeira e nem sempre o amor, o carinho ou fé dos que estão próximos é suficiente para a vencer.

A derrota pela morte é absoluta, na ausência do corpo. Restam, apenas, as boas recordações e memórias.

Ainda no Sábado estive com o André e com a Dulce – a sua mulher – e os filhos mais novos – na praia Pequena do Pópulo, de que ambos gostamos. A conversa fluiu solta, como sempre acontece entre amigos. Tinha regressado de Bruxelas, depois de uma intensa semana no Parlamento Europeu. Estava animado com as suas novas funções e com o facto de ter conseguido assento como membro efectivo em duas Comissões Parlamentares essenciais para os Açores.

A doença súbita mudou o rumo aos deuses. Tudo ficou diferente.

Os Açores e autonomia perderam um autonomista convicto, determinado a defender os interesses dos açorinos no coração da Europa, como sempre o fizera nos Açores e perante a República.

A família e os amigos perderam o pai, o marido, o homem de sentido de humor apurado, de inteligência fina, culto, interessado e preparado.

Nunca sabemos como enfrentar a morte, porque a vida não nos prepara para este momento. Ficamos sem saber o que dizer, o que fazer, especialmente quando a morte chega cedo demais, como no caso do André.

Abalado pela morte de um amigo, lembro os versos de José Tolentino Mendonça: “não lamentes serem os versos / saberes tão frágeis / as flores mais belas são as que se colhem /quando ainda se ignora a morte.

Não mais voltaremos a falar do futuro dos Açores, dos livros que lemos e de que gostámos, dos pequenos prazeres da vida; não voltaremos a fazer debates políticos ou a comentar noites eleitorais como tantas vezes fizemos.

Que coisa esta, a morte!

Estou certo de que voltaremos a encontrar-nos, André.

Pedro Gomes
19JUL2019 – 105 FM

Pedro Gomes

VIAJAR É VIVER

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES VIAJAR É VIVER

 

Abu Abdullah Muhammad Ibn Battuta, mais conhecido por Ibn Battuta é um dos maiores viajantes da história.

Nascido em Marrocos, no início do século XIV, Ibn Battuta, com 21 anos, decidiu cumprir o haji – um dos cinco pilares da fé muçulmana – e partir para a cidade sagrada de Meca, para a peregrinação ritual.

A viagem que deveria durar pouco tempo, prolongou-se durante quase de três décadas.

Ibn Battuta percorreu mais de cento e vinte mil quilómetros e visitou quarenta e quatro países, incluindo os lugares sagrados do Islão, desafiando as limitações impostas aos viajantes do século XIV.

Contemporâneo de Marco Polo, durante uma parte da sua vida, Ibn Battuta, percorreu uma distância superior à deste, sem que alguma vez se tivessem cruzado. Marco Polo era um mercador, sem educação formal que viajou para países com culturas diferentes da sua. Battuta era um homem da classe média-alta, cosmopolita, educado e versado em leis, que viajou até aos limites geográficos da influência muçulmana.

A duração temporal da viagem, o número de países visitados, a distância percorrida, os obstáculos geográficos, políticos e sociais que teve de vencer, as dificuldades impostas pelos meios disponíveis para percorrer grandes distâncias, as doenças que atormentavam os viajantes – a que ele não escapou – tornam a viagem de Battuta numa aventura épica, num tempo em que os viajantes eram peregrinos, mercadores ou militares.

Este notável viajante percorreu apenas países sob domínio muçulmano tendo trabalhado em muitos deles como juiz, já que estudara leis antes de partir.

Ao longo da viagem, anotou minuciosamente – com espírito de jurista – os usos e costumes de cada lugar, a organização social, o sistema político e de governação, num registo precioso que constitui um mosaico de influência muçulmana na Europa, África ou Ásia.

Quando Ibn Battuta regressa a Marrocos, cerca de 1350, é encarregue pelo sultão Abu Inan Faris de escrever o relato da sua viagem, que dá origem ao livro conhecido como “Rihla de Ibn Battuta”, que terá sido escrito por um terceiro a quem Battuta narrou a sua extraordinária viagem.

Seiscentos anos depois, continuamos a admirar o espírito deste viajante intrépido.

Pedro Gomes
16AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

NÓMADAS EM VIAGEM

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES NÓMADAS EM VIAGEM

 

No Verão todos somos Xerazade, no desejo absoluto das conversas que se prolongam, das histórias que trazemos da vida para a porta da amizade ou para um ocasional encontro de amigos, em que o tempo fica suspenso do que podemos contar e escutar.

No Verão, também todos somos Marco Polo, inspirados pela viagem que falta fazer e animados pela vontade de enfrentar o desconhecido, longe dos lugares que inundam os folhetos turísticos que prometem praias e lugares paradisíacos e que afinal são todos iguais, numa impúdica massificação do gosto.

O viajante não é um turista, na subtileza das suas escolhas, no desenho de uma geografia de lugares e pessoas muito pessoal. Cada viajante cartografa o mundo de acordo com um código pessoal que apenas ele conhece e que não pode ser replicado. Por isso mesmo, cada viagem é única e irrepetível, mesmo que outros possam seguir os seus passos.
Uma viagem pressupõe a descoberta de si próprio, num exercício de subjectividade que singulariza cada viajante: do que gosto? O que gostaria de ver? Que percursos vou escolher? Quem me vai acompanhar?
Viajar é traçar uma geografia íntima. Um percurso de aprendizagem e de conhecimento sobre os lugares e as gentes.

Na antiguidade grega, o conhecimento e a sabedoria estavam ligados à ideia de viagem, de peregrinação e de aprendizagem.

O filósofo francês, Michel Onfray escreveu um belíssimo ensaio – “Teoria da Viagem – Uma poética da geografia”- sobre a determinação de cada viajante, o prazer da fruição da viagem ou a poética de cada lugar escolhido.

Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira”, escreve o autor, que defende a ideia – para mim sempre sedutora – de que qualquer viagem começa numa biblioteca ou numa livraria, quando o olhar é seduzido por um lugar inesperado ou um animal exótico que salta de um romance, de um poema ou de um atlas.

Como são belos os atlas, na precisão minuciosa do recorte dos países e dos continentes, da imensidão da água que cobre a terra, dos nomes dos lugares que se sobrepõem em torvelinho, na confusão dos sentidos que nos causam, porque não conseguimos medir as distâncias com o olhar e afinal descobrimos que estamos a dar saltos de milhares de quilómetros; dizemos que o mundo é grande e os atltas – sempre verdadeiros e, simultaneamente mentirosos – parecem desmentir a geografia e a cartografia. Uma pura ilusão que nos atrai, como as sereias sempre fizeram aos marinheiros.

Uma viagem é sempre uma revelação.

Pedro Gomes
9AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

REZAR

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES REZAR

 

Todas as formas de rezar são suficientes. Todas as formas de rezar são insuficientes.

Rezamos como somos, com silêncio ou com as palavras a seguirem o rumo do coração.

Não há formas certas ou erradas para rezar, pois não se trata de um exercício da razão.

Rezar é como respirar, um mergulho de olhos abertos. Com simplicidade, Matsuo Bashô escreveu: “silêncio/ uma rã mergulha/ dentro de si”.

Talvez uma das formas mais complexas de rezar seja a da vida consagrada, dedicada à oração e ao silêncio, em clausura.

Nos conventos de clausura, o tempo tem outro ritmo. Deus é a quietude absoluta dos espaços imensos, da ausência das palavras, que se tornam irrelevantes. A oração não é uma pausa, um momento. Muito pelo contrário, todos os gestos – dos mais singelos aos mais elaborados – são uma oração, um agradecimento a Deus.

De coração aberto, os monges de clausura escutam o mundo de Deus, seguindo o ensinamento de São João Crisóstomo: “descobre a porta do teu coração e então poderás descobrir a porta do Reino de Deus”.

O único convento de clausura masculina em Portugal é o Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli (Escada do Céu), em Évora, que encerrará no dia 6 de Outubro, data em que a Ordem Cartusiana celebra a solenidade do seu fundador, São Bruno, que foi Arcebispo de Évora.

Neste dia, a cartuxa estará aberta aos fiéis, num momento raro, pois a regra da Ordem dos Cartuxos é feita de silêncio, oração e entrega a Deus.

Daniel Blaufuks, um dos grandes fotógrafos portugueses, registou a austeridade de vida, a simplicidade, o peso do silêncio, o despojamento e a centralidade de Deus na vida dos monges cartuxos, numa notável exposição intitulada “Prece Geral”, em 2015, que foi exibida em Ponta Delgada, no Museus Carlos Machado.

Os objectos de uso diário, os lugares despidos, o mobiliário simples e funcional, a sobriedade espartana do pequeno cemitério, de paredes caiadas de branco, convocam o silêncio comovente do mistério de Deus, que fica registado para sempre.

Com a partida dos últimos monges e o encerramento do Convento da Cartuxa, perde-se uma parte da memória religiosa de Portugal.

Pedro Gomes
02AGO2019 – 105 FM

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