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Paulo Casaca

O DESCALABRO BANCÁRIO NACIONAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O DESCALABRO BANCÁRIO NACIONAL

 

Imagine-se que alguém resolvia encomendar ao sindicato dos taxistas a elaboração de um código da estrada, preservando a sua ‘rigorosa independência’, ou seja, não dando a possibilidade a ninguém de influenciar o que o sindicato achasse por bem fazer. Ninguém ficaria surpreendido se o resultado deste procedimento fosse o de termos instituído o princípio da prioridade absoluta dos táxis.

Com o Tratado de Maastricht, inspirados na doutrina ‘ordo-liberal’ germânica, fizemos algo de bastante semelhante: entregámos às organizações corporativas bancárias o exclusivo de fixar as regras do trânsito financeiro em ‘rigorosa independência’.

O resultado foi o de que a banca se permitiu tudo fazer e endossar ao contribuinte a factura dos acidentes que provocou, sem dar explicações ou assumir encargos.

Independentemente das responsabilidades individuais dos banqueiros nos acidentes ocorridos há mais de uma década, aquilo com que a opinião pública se deveria preocupar é com a racionalidade do sistema que pôs em marcha.

A título de exemplo, um dos administradores do banco estatal declarou na Comissão de Inquérito parlamentar que só em 2008 é que a sua administração se deu conta de que tinha investido nos anos anteriores em compra de acções 4.6 mil milhões de euros, incluindo as acções de um seu concorrente privado.

O problema não é só que o resultado deste estado de coisas tenha sido um monumental desastre, o problema é que como qualquer aluno que passa por uma escola de economia aprende, é assim que se fizeram os grandes desastres do passado, como por exemplo, o da crise de 1929.

Numa estimativa feita por Ricardo Cabral, o sistema bancário, de 2008 até à actualidade, passou para o contribuinte 44 mil milhões de euros da sua dívida. Estes cálculos não incluem os efeitos indirectos das chamadas Parcerias Público-Privadas.

Mario Draghi foi o que nós podemos chamar um ‘ditador iluminado’. À frente do Banco Central Europeu conseguiu evitar a implosão do sistema, não hesitando mesmo em pôr fora de jogo quem tinha passado das marcas, como foi o caso do Banco Espírito Santo.

Com Draghi a deixar o lugar vago, e com a ameaça de vermos a ortodoxia alemã substitui-lo no cargo, temos aqui a forte possibilidade de ver de novo sobre a mesa uma terapia de choque.

Será que só assim vamos entender a necessidade da reforma financeira?

Bruxelas, 2019-06-12
Paulo Casaca

Paulo Casaca

A EUROPA E A TRAGÉDIA DO MEDITERRÂNEO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A EUROPA E A TRAGÉDIA DO MEDITERRÂNEO

 

Dois jovens advogados baseados em Paris, Juan Branco, de nacionalidade espanhola, e Omer Shatz, de nacionalidade israelita, instruíram um processo endereçado ao Tribunal Criminal Internacional contra as instituições europeias acusando-as de deliberadamente terem provocado a morte de muitas das 14.000 vítimas de naufrágio registadas de 2014 a 2019, nas costas europeias do Mediterrâneo, a fim de dissuadir outros potenciais emigrantes.

Em centenas de páginas, faz-se assim o processo de uma entidade mais preocupada em dar lições ao mundo do que em olhar para as suas responsabilidades e que, ao longo das últimas décadas, foi construindo um discurso e uma cultura de criminalização não só de quem foge ou emigra mas também de quem dá qualquer apoio humanitário a essas pessoas, sendo que a alternativa política é cada vez mais entre os que defendem abertamente essa política e os que o fazem de forma camuflada envolvendo-a num manto feito de hipocrisia.

Creio que é tempo de entender que a normalização da morte do migrante é a brutalização da nossa alma, e que há que ter a coragem de dizer chega, e construir alternativas. Penso que há aqui cinco questões fundamentais a ter em conta.

A primeira é a da globalização que torna os fossos nos níveis de desenvolvimento mais difíceis de aceitar. Não se trata de igualizar rendimentos, mas apenas evitar que as disparidades se tornem de tal forma grandes que faça sentido pôr a vida em risco para as atravessar.

A segunda é a de entender que são os pobres dos países para onde se dirigem os emigrantes que pagam a factura da migração, enquanto os ricos tendem a lucrar com isso. Por outro lado, os que mais fogem não são necessariamente os que mais precisam de fugir mas por vezes os que têm meios para pagar a fuga.

A terceira é a de que a fraternidade tem de jogar nos dois sentidos. Qualquer pessoa que queira uma pátria de refúgio tem que aceitar os seus valores essenciais.

A quarta é a de não confundir recusa de aventuras com falta de coragem política. A Síria ou a Líbia, para citar dois dos mais próximos exemplos, são nossos vizinhos e não é possível virar as costas ao que lá se passa.
A quinta é a hipocrisia. Temos de deixar de nos remeter ao papel de pregadores de moral abstracta ignorando a realidade que nos rodeia.

Pela minha parte, os melhores votos para a corajosa dupla de advogados que ousou dizer que o rei vai nu.

Tällberg, 2019-08-20

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Paulo Casaca

O IATE DA MENINA THUNBERG

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O IATE DA MENINA THUNBERG

 

De acordo com a revista Lonely Planet, a jovem Greta Thunberg não queria faltar à Cimeira do Clima de Nova Iorque, mas ‘encontrou dificuldades quando tentou estabelecer o percurso de comboio da Europa para a América do Norte’ desabafando a sua mágoa no twitter.

Eis senão quando um magnate do imobiliário ligado à alta competição automóvel e marítima descobre um príncipe encantado – ou em todo o caso neto do Príncipe Rainier do Mónaco – que com um pequeno apoio entre outros da BMW e do Clube de Iate do Mónaco resolveu o problema: um iate com painéis solares e tripulação alimentada a comida ‘vegan de astronautas’ e com zero emissões de dióxido de carbono vai levá-la a Nova Iorque e já agora a Santiago do Chile e outras paragens.

A jovem, que foi aparentemente tirada da escola para dar lições mundiais de clima aos 15 anos, irá passar agora muitos meses fora do sistema de ensino, fazendo-se transportar numa embarcação de competição sem camas ou casas de banho e, imagino, com menos condições de estudo ainda.

Neste fantasioso mundo das pegadas ecológicas seria excelente que alguém explicasse de que forma uma embarcação pode ser feita com materiais que não impliquem qualquer emissão atmosférica.

Se pensarmos em emissões de gás com efeito de estufa por milha de transporte efectuada – o único critério sensato para colocar o problema – as emissões do iate, que não serve para transportar o que quer que seja, mas apenas para competição, foram até hoje infinitamente superiores às de qualquer avião, pela simples razão de que, antes de encontrar esta passageira, o iate nunca transportou ninguém.

Um dos maiores desafios da humanidade – a preservação ambiental – tem sido tratado com uma assustadora falta de seriedade, atingindo o paroxismo com esta nova vaga feita de efabulação mediática e manipulação infantil.

Concedo que nesta história do sapo que se transformou em príncipe encantado por efeito de um twitt, há a registar efeitos positivos. Li na imprensa que o líder sindicalista que tinha sido acerbamente criticado por se transportar a bordo de um Maserati, optou agora por uma trotinete.

Não sei se a mudança lhe vai aumentar os créditos junto dos condutores de camiões tanque de combustível, mas creio poder afirmar com mais segurança do que no caso do iate que o ambiente ganhou com este novo meio de transporte do famoso sindicalista.

Bruxelas, 2019-08-13
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

JUSTIÇA PARA O MAR DE TIMOR

Paulo Casaca

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PAULO CASACA JUSTIÇA PARA O MAR DE TIMOR

 

Em 2004, os serviços secretos australianos utilizaram câmaras escondidas para espiar reuniões do governo timorense a fim de permitir à Austrália extorquir uma parte maior dos recursos naturais marinhos do que aquilo a que tinha direito no mar de Timor.

Um funcionário desses serviços considerou que se estava perante um abuso de poder – dado que as actividades clandestinas dos serviços deveriam servir para a defesa e segurança do país e não para roubar vizinhos mais pobres – e denunciou o caso, levando a que as autoridades australianas se vissem obrigadas a rever o acordo e a conceder condições mais favoráveis a Timor Leste.

A escritora australiana Kim McGrath aborda esse e outros episódios no livro cuja edição portuguesa foi recentemente lançada em Lisboa: ‘Passar dos Limites – A História Secreta da Austrália no Mar de Timor’ livro em que se acusa a Austrália do desvio dos serviços secretos da sua acção de defesa nacional para a defesa de interesses económicos ilegítimos.

A defesa deste ‘lançador de alertas’ foi tomada por um antigo magistrado a exercer a advocacia, Bernard Collaery, e este por sua vez foi acusado pelas autoridades do crime de violação de ‘Segredo de Estado’, tendo no passado dia 6 começado o seu julgamento em Canberra.

O antigo magistrado viu-se privado da sua documentação e incapaz de organizar a sua defesa, numa situação que considerou kafkiana, sendo inclusivamente obrigado a sair do país para a poder preparar. O Fórum Justiça para o Mar de Timor lançou uma campanha internacional para o encerramento do processo.

Abordámos a semana passada uma enorme campanha de propaganda feita no nosso país em favor de um falso ‘lançador de alertas’ envolvido em obscuros actos de espionagem. É tempo de olharmos para os verdadeiros ‘lançadores de alertas’ como Bernard Collaery que tudo arriscou para denunciar a utilização obscena de serviços secretos para fins privados.

Precisamos de ser solidários com os que verdadeiramente se arriscaram para a defesa da justiça em Timor Leste em vez de perdermos tempo com informação teleguiada por quem apenas se serviu de Timor Leste.

Bruxelas, 2019-08-07

Paulo Casaca

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