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Paulo Casaca

CIDADANIA E ABSTENÇÃO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA CIDADANIA E ABSTENÇÃO

 

Começando pelo mais óbvio: não, nem nos Açores, nem no país, não há quem quer que seja que proíba os cidadãos de votar ou que os persiga se o fizerem. O voto é livre e se uma maioria de cidadãos não vota é porque não quer votar, sendo totalmente inaceitável culpar outrem por isso.

Há quarenta e cinco anos que usufruímos de liberdade de voto e se défice existe, é um défice de cidadania, é uma visão clientelar da democracia em que se espera que ‘eles’ e ‘eles’ são os políticos, os que mandam ou os que estão em cima, deem benesses em vez de se exigir que cumpram o mandato que recebem dos cidadãos pelo voto.

O clubismo continua a ser determinante no voto, como se viu nos Açores em que a ausência de campanha e de candidato pouco influiu no peso eleitoral regional do principal partido da oposição. Os partidos, os jornais, os líderes de opinião ignoraram olimpicamente o que estava em jogo e limitaram-se a tratar o escrutínio como uma sondagem para as próximas eleições multiplicando as atenções às mais variadas irrelevâncias.

Propor que o jovem que não vota não possa receber subvenções, é acentuar a disfunção clientelar, inverter os termos da relação saudável entre o eleitor e o eleito, falhar completamente a pontaria. Dizer que há falta de oferta eleitoral, com a multiplicação de siglas, partidos e causas que não alteram o quadro existente, também me parece não ter base.

Como cidadão, creio que há muito a fazer para diminuir a abstenção, se porventura alguém a quiser combater, em vez de a usar como uma espécie de ritual muro das lamentações. Deixo aqui algumas sugestões.

Na Índia, e por imposição judicial, o cidadão tem a opção de rejeitar todas as candidaturas propostas. Dar significado ao gesto, tornando-o num voto válido para que ninguém ocupe o lugar em causa, daria voz aos que proclamam a inutilidade do voto, permitindo lugares vazios se for isso o que o eleitor quer, e acabando com a cantilena da praxe contra os eleitos.

Depois, o cidadão que por qualquer razão se encontre longe do local do voto na data das eleições deve poder sistematicamente votar à distância, por via electrónica ou postal, diminuindo assim a abstenção técnica.
A possibilidade de escolha do eleito dentro da lista é outra mudança que me parece imprescindível.
E claro que os partidos, os políticos, a administração pública, os líderes de opinião, todos podem fazer melhor. Trabalhar por isso é o dever de todo o cidadão, não uma dádiva que ele deva esperar do céu ou dos ‘políticos’ – o que que seja que se queira dizer com isso.

Bruxelas, 2019-05-29
Paulo Casaca

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O DESCALABRO BANCÁRIO NACIONAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O DESCALABRO BANCÁRIO NACIONAL

 

Imagine-se que alguém resolvia encomendar ao sindicato dos taxistas a elaboração de um código da estrada, preservando a sua ‘rigorosa independência’, ou seja, não dando a possibilidade a ninguém de influenciar o que o sindicato achasse por bem fazer. Ninguém ficaria surpreendido se o resultado deste procedimento fosse o de termos instituído o princípio da prioridade absoluta dos táxis.

Com o Tratado de Maastricht, inspirados na doutrina ‘ordo-liberal’ germânica, fizemos algo de bastante semelhante: entregámos às organizações corporativas bancárias o exclusivo de fixar as regras do trânsito financeiro em ‘rigorosa independência’.

O resultado foi o de que a banca se permitiu tudo fazer e endossar ao contribuinte a factura dos acidentes que provocou, sem dar explicações ou assumir encargos.

Independentemente das responsabilidades individuais dos banqueiros nos acidentes ocorridos há mais de uma década, aquilo com que a opinião pública se deveria preocupar é com a racionalidade do sistema que pôs em marcha.

A título de exemplo, um dos administradores do banco estatal declarou na Comissão de Inquérito parlamentar que só em 2008 é que a sua administração se deu conta de que tinha investido nos anos anteriores em compra de acções 4.6 mil milhões de euros, incluindo as acções de um seu concorrente privado.

O problema não é só que o resultado deste estado de coisas tenha sido um monumental desastre, o problema é que como qualquer aluno que passa por uma escola de economia aprende, é assim que se fizeram os grandes desastres do passado, como por exemplo, o da crise de 1929.

Numa estimativa feita por Ricardo Cabral, o sistema bancário, de 2008 até à actualidade, passou para o contribuinte 44 mil milhões de euros da sua dívida. Estes cálculos não incluem os efeitos indirectos das chamadas Parcerias Público-Privadas.

Mario Draghi foi o que nós podemos chamar um ‘ditador iluminado’. À frente do Banco Central Europeu conseguiu evitar a implosão do sistema, não hesitando mesmo em pôr fora de jogo quem tinha passado das marcas, como foi o caso do Banco Espírito Santo.

Com Draghi a deixar o lugar vago, e com a ameaça de vermos a ortodoxia alemã substitui-lo no cargo, temos aqui a forte possibilidade de ver de novo sobre a mesa uma terapia de choque.

Será que só assim vamos entender a necessidade da reforma financeira?

Bruxelas, 2019-06-12
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

REFORMA DO SISTEMA ELEITORAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA REFORMA DO SISTEMA ELEITORAL

 

Resolveu o principal partido da oposição fazer da reforma do sistema eleitoral um dos seus temas desta pré-campanha para as legislativas, e penso que resolveu bem.

Para gerir o processo, criou um conselho de opinião com nove membros, alguns quadros do partido, outros mais ou menos anónimos, encimado por duas importantes figuras do sistema político-mediático-financeiro.

Seria naturalmente desejável ver no conselho figuras de outros partidos, mas concedo que seria difícil, especialmente em contexto pré-eleitoral. Menos compreensível, é não ver conhecidos politólogos independentes, que não creio recusassem a sua contribuição; e surpreendente mesmo é não ver aí militantes do partido que ocuparam as mais altas posições no Estado mantendo hoje um raro perfil de verticalidade e rigorosa independência, e estou aqui, naturalmente, a pensar em Mota Amaral.

No mesmo dia em que o conselho se reuniu, talvez não por coincidência, em artigo de opinião publicado no Diário dos Açores, Mota Amaral defendeu o fim do monopólio partidário eleitoral regional e nacional e várias medidas de reforma do sistema político, nomeadamente na justiça e na fiscalidade, que me parecem salutares.

Do rescaldo da primeira reunião do conselho, o líder do partido avançou com algumas posições conhecidas bem como com uma que se aproxima da que eu sugeri aqui na semana passada: a possibilidade de transformação de uma manifestação inequívoca de rejeição das candidaturas propostas em lugares vazios nas assembleias.

A declaração do líder do partido avança com propostas concretas antes do fim dos trabalhos da comissão, ainda que a ‘título pessoal’, e não aponta para qualquer meio de participação popular na sua formulação; nem sequer explica como pensa conseguir a maioria constitucional necessária. O problema maior, contudo, é o de pretender manter no controlo partidário e de figuras icónicas do sistema uma reforma que se impõe justamente para libertar o país dos interesses instalados no triângulo político-financeiro-mediático.

Posto isto, não existe sistema perfeito, nenhum sistema é imune a maus dirigentes e pior ainda do que não reformar sistemas é a divagação sobre reformas de sistemas como forma de nada fazer no quadro em que vivemos.

Lisboa, 2019-06-05
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FRANCISCA VAN DUNEN PARA A COMISSÃO EUROPEIA!

Paulo Casaca

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PAULO CASACA FRANCISCA VAN DUNEN PARA A COMISSÃO EUROPEIA!

 

As instituições europeias foram pensadas e desenvolvidas de forma mais aristocrática do que democrática; como instrumento para as elites europeias se entenderem em mecanismos fundamentais para assegurar a paz e a prosperidade.

À medida que elas foram alargando o seu âmbito de atuação e de competência – em matérias como a economia, finanças e moeda, defesa e liberdades – tornou-se cada vez mais clara a necessidade de estas permitirem aos cidadãos uma palavra decisiva na sua condução, que não se pode reduzir à mera participação num escrutínio de selecção partidária de representação.

O que me parece especialmente preocupante é que em vez de se alargar se estreite mesmo esta pequena janela de respiração democrática que é a eleição europeia. Em Portugal, o cidadão, não tem sequer o direito de manifestar a sua preferência por candidatos dentro das listas, e de qualquer forma, os partidos tratam as eleições europeias como uma mera sondagem para aquelas que verdadeiramente interessam, as nacionais.

A comunicação social potencia de resto esta lógica, não sendo capaz ou não querendo introduzir qualquer elemento de debate europeu, que não seja a chamada recusa do populismo, a que o Presidente Macron chama mesmo de ‘frente progressista’ que parece ter seduzido já o nosso Primeiro-Ministro que não tirou certamente lições do naufrágio socialista francês.

A decisão mais relevante para Portugal resultante deste escrutínio é a designação do representante português no que mais se aproxima de ser o Governo europeu, e considero igualmente lamentável que sobre isso tenhamos apenas tido intriga política.

Mais do que qualquer retórica inflamada mas abstracta, todos ganharíamos em ter propostas concretas, começando naturalmente pelo partido que está no Governo. Pela minha parte, deixo aqui a sugestão: representar Portugal em Bruxelas através da actual Ministra da Justiça, Francisca Van Dunen.

É alguém com um notável percurso de vida, alguém que simboliza o que Portugal tem a dar à Europa, alguém que tem imagem, decoro e bom-senso, e que acerta no alvo de muito do que se fala, mas por vezes não se sente.

Seria um debate que daria um passo para dar conteúdo ao que nos é pedido fazer no próximo dia 26.

Bruxelas, 2019-05-22
Paulo Casaca

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