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Paulo Casaca

O LÓBI DA MARIJUANA CONQUISTA PORTUGAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O LÓBI DA MARIJUANA CONQUISTA PORTUGAL

 

De símbolo da contestação e da sociedade alternativa, a marijuana passou a ser entre nós símbolo do big-business, com a multiplicação dos anúncios de faraónicos investimentos de várias multinacionais aconselhadas por figuras de proa da classe político-financeira portuguesa.

Abriu-se assim uma nova febre especulativa que aparece de contrabando com um discurso de um Portugal pioneiro nas novas políticas da toxicodependência em que a reflexão informada do que temos pela frente se afogou no mar da demagogia e dos interesses instalados.

Desde há décadas que sou anti-proibicionista, ou seja, estou convencido que a proibição/punição das drogas promove o grande e o pequeno crime e não previne convenientemente os comportamentos contrários à saúde e à sociabilidade dos humanos, e daí pensar que as autoridades portuguesas agiram acertadamente quando despenalizaram o consumo de droga.

Posto isto, uma coisa é não utilizar instrumentos errados, outra, muito diferente, é achar bom o que é inequivocamente mau.

Não discuto – porque não tenho competência para isso – os malefícios relativos dos canabinóides e do álcool, acredito que os efeitos de uns e de outros possam ser diferentes de pessoa para pessoa, mas estou certo de que o consumo de marijuana é devastador para a saúde de um grande número de pessoas.

Mais, como alguém que teve responsabilidades políticas na Região Autónoma dos Açores, estou convencido que o nosso maior problema de saúde pública é o do consumo de drogas, incluindo nelas, com lugar destacado, a marijuana.

Vejo assim estupefacto a forma como a nossa opinião pública se tem entregue à normalização e publicidade dos canabinóides, enquanto o organismo nacional competente em matéria de toxicodependência parece ter entrado na clandestinidade.

Nos Açores, o portal do Governo tem dados publicados sobre o consumo da marijuana pela juventude açoriana que eu considero assustadores, tendo a assembleia regional recomendado ao governo um estudo sobre a matéria que não foi até hoje elaborado.

O que precisamos é que, fora do alcance dos poderosos lóbis da canábis, se apresentem dados científicos independentes e rigorosos sobre os efeitos desta droga e da sua prevalência entre nós.
É um dever moral, social e político indeclinável.

Bruxelas, 2019-05-7

Paulo Casaca

Paulo Casaca

PORTUGAL TRAVA ENTRADA DE AGENTES IRANIANOS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA PORTUGAL TRAVA ENTRADA DE AGENTES IRANIANOS

 

De acordo com o jornal i, por iniciativa das autoridades antiterroristas foi suspensa pelo consulado português a concessão de vistos em Teerão após movimentações suspeitas na sequência do envolvimento de diplomatas iranianos em atentados terroristas na Europa.

Recorde-se que há um ano, uma operação policial conjunta europeia conseguiu fazer abortar um atentado bombista em Paris comandado por um diplomata em serviço na embaixada iraniana em Viena de Áustria, o mais aparatoso atentado organizado pelos guardas revolucionários islâmicos em território europeu nos últimos tempos.

Como o livro de investigação de Frederico Duarte Carvalho ‘Sá Carneiro e as Armas para o Irão’ nos lembra, em Portugal, a oposição aos desejos de Teerão custou a vida a um Primeiro-ministro sem que houvesse uma investigação séria do assunto. Por essa razão, a atenção dada ao tema pelos responsáveis pela luta antiterrorista é digna de grande relevo.

Durante décadas a vasta teia do poder iraniano teve em Portugal um estatuto intocável que não se limitou ao atentado de Camarate mas que se prolongou numa vasta esponja passada pelo funcionamento da máquina de terror e agressão dos guardas revolucionários islâmicos e pela promoção das oportunidades de negócios apresentadas como de interesse para o país.

Muito do que sabemos sobre as intensas negociações luso-iranianas anteriores a 2012 sobre estas matérias é graças à divulgação de relatórios diplomáticos reservados pelo wikileaks, embora digam respeito a matérias de interesse óbvio para a opinião pública portuguesa, como o sejam acordos financeiros de exploração e utilização de hidrocarbonetos que envolveram Portugal numa posição de intermediação entre o Irão e a Venezuela e que começaram com o negócio das contrapartidas pela compra de submarinos.

O que é fundamental é aclarar o custo financeiro, de segurança e político desse intenso envolvimento luso-iraniano para que, quase quatro décadas depois de Camarate, não persista em Portugal a mesma opacidade de interesses e procedimentos.

Bruxelas, 2019-07-09
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

A EUROPA DE MACRON

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A EUROPA DE MACRON

 

Confrontado com o espectro de ver a ortodoxia ordoliberal alemã reconquistar Frankfurt; um peso-pesado alemão a dirigir a Comissão Europeia e uma atlantista a dirigir a política externa, Macron conseguiu o feito de ganhar todas as peças do jogo.

No cargo mais importante em disputa, o Banco Central, vai ter uma compatriota, de dependência política quase total; à frente da Comissão, a mais francófila das dirigentes alemãs, sem peso político ou capacidade estratégica autónoma; na política externa, uma concepção alinhada com a francofilia, com o bónus suplementar de ter a presidir o Conselho o mais importante líder da comunidade francesa belga.

É a Europa sempre sonhada pela elite francesa: aristocrática, francófila, suficientemente importante para ser notada no mundo mas não tanto que possa fazer sombra à França. Para lá chegar, Macron foi chefe da frente progressista quando foi preciso eliminar o perigo germânico, aliou-se ao nacionalista Orban quando foi preciso pôr o socialista holandês de lado e, cereja no topo do bolo, encostou a chanceler Merkel à parede com a proposta de nomeação de uma sua conterrânea e correligionária para dirigir a Europa.

A forma como Macron conseguiu ganhar em toda a linha na mais complexa negociação europeia dos últimos anos vai para além do ‘Testamento Político’ legado pelo Cardeal Richelieu, e confirma-o como o mais astuto dirigente europeu contemporâneo.

Nada que não se pudesse adivinhar da forma florentina como no seu país ele conseguiu destruir o mapa político-partidário; comprar, eliminar ou reduzir à insignificância todo o escol nacional de personalidades políticas ou ainda sobreviver aos coletes amarelos.

A ‘Europa-light’ de Macron é no entanto incompatível com a Euro-emancipação que alimenta a imaginação das elites francesas e de que ele se tem apresentado como protagonista. A Europa não sobreviverá fora de uma reforçada aliança atlântica, porque não tem a força anímica para isso, porque Putin vive obcecado pelo império, porque o jihadismo está apostado em tomá-la, porque a China tem a vontade, a capacidade e terá a oportunidade de ser o seu ‘big-brother’.

Como com tantos dos seus predecessores – Napoleão será talvez o caso mais conhecido – Macron está agora confrontado com o desafio de conseguir limitar a sua ambição pela sua astúcia. Para bem de todos nós, espero que o consiga.

Bruxelas, 2019-07-09
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Paulo Casaca

UM PASSO NA COREIA DO NORTE

Paulo Casaca

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PAULO CASACA UM PASSO NA COREIA DO NORTE

 

Todos esperamos que o simbólico passeio do presidente norte-americano pela Coreia do Norte se torne um importante salto da humanidade na ultrapassagem de uma das causas do seu pior pesadelo: um holocausto nuclear!

A Coreia do Norte é governada por um dos mais despóticos regimes do mundo, uma monarquia absoluta que em nome do comunismo reduziu a maior parte do seu povo à fome, construiu gigantescos campos de concentração e mantém-se no poder pelo terror.

Há duas décadas, a comunidade internacional, encimada pelos Estados Unidos, encetou um primeiro acordo nuclear – seguido de outros – pelo qual o regime aceitaria terminar com o seu programa nuclear em troca de vultuosas subvenções. Acordo mal concebido e pior executado, acabou por ser um incentivo para o regime prosseguir a sua escalada nuclear com o permanente argumento de que faria pior se não obtivesse mais contrapartidas financeiras e diplomáticas.

Um acordo do mesmo tipo, mas que de vários pontos de vista é pior ainda do que este, viria também a ser concluído em 2015 com outro regime despótico, parceiro da dinastia Kim em matéria nuclear, com a agravante de ser consideravelmente mais expansionista do que a Coreia do Norte: estamos a falar da República Islâmica do Irão.

A presente administração norte-americana anunciou a sua intenção de mudar totalmente de rumo em relação às que a precederam, deixando de aceitar estes acordos de chantagem nuclear e impondo uma política de sanções a esses regimes e em particular aos seus ditadores.

O passo do Presidente norte-americano em território norte-coreano é extraordinariamente importante na medida em que sapeia o principal argumento com o qual a ditadura norte-coreana – à imagem de outras – ergueu a sua legitimidade: o da necessidade de fazer face ao imperialismo norte-americano.

O tabuleiro em que se traça o jogo geopolítico coreano é deveras complexo. Sem papão norte-americano para se legitimar, sem armas nucleares para chantagear quer os vizinhos quer o seu povo, o regime não poderá subsistir como existe, e é difícil imaginar que ele possa subsistir sem ser tal como ele existe.

Tudo indica por outro lado que nem a China nem a Rússia desempenharam aqui qualquer papel, enquanto é claro que este passo deixa mais isolado o parceiro nuclear da Coreia do Norte, justamente na altura em que o regime islamista exige mais contrapartidas económicas, financeiras e diplomáticas para fazer de conta que não se nucleariza.

Continuamos portanto num equilíbrio precário entre o sonho de uma humanidade livre, próspera e em paz e o pesadelo nuclear.

Gjirokastra, 2019-07-01

Paulo Casaca

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