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Pedro Gomes

A LUZ QUE SE ESCONDE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES A LUZ QUE SE ESCONDE

 

O mundo viu, pela primeira vez, imagens de um buraco negro supermaciço, no centro da galáxia M87. Os nossos olhos espantados contemplaram, esta semana, fotografias inesquecíveis: um objecto cósmico, com uma massa enorme, a 54 milhões de anos-luz do nosso planeta, estava ali, desafiando os sentidos.

Os buracos negros apaixonam a opinião pública desde sempre, convocando a imaginação e contrariando o senso comum.

Um buraco negro forma-se quando a matéria entra em colapso sobre si mesma. A sua densidade é tão elevada, que atrai a matéria e a luz para o seu interior. Como escreveu Carl Sagan, no seu livro Cosmos, “quando a gravidade for suficientemente elevada, nada, nem sequer a luz consegue sair. A um sítio como esse chama-se buraco negro”.

A presença dum buraco negro afecta tudo à sua volta, alterando a dimensão espaço-tempo. Um buraco negro é uma espécie de abismo no espaço, que não conseguimos observar, pois não emite luz, muito embora a sua sombra possa ser vista, como a fotografia do Event Horizon Telescope revela.

A fotografia é espantosa: um radioso anel de luz a expulsar o negrume do aparente vazio. A imagem desperta sentimentos contraditórios: atraídos pela luz, quase nos esquecemos da força poderosa do buraco negro. Diante de nós, está o indizível, que apenas pertencia ao mundo imaginado e às conjecturas dos astrónomos.

Como disse Sheperd Doeleman, Director do projecto Event Horizon Telescope, “vimos o que se pensava ser invisível”.

Os buracos negros estão muito longe da terra. Não passam de pontos no espaço, que nem conseguimos identificar a olho nu, mas o seu mistério é imenso. No imaginário do espaço e da astronomia, os buracos negros são uma viagem para Ítaca.

A primeira fotografia de um buraco negro prova que as capacidades humanas vencem todos os obstáculos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis. Depois, de há três anos, termos podido escutar sons dos buracos negros, agora temos o privilégio de ver um. A dimensão dos buracos negros e o que ainda não sabemos sobre a sua existência recorda a nossa pequenez na vastidão cósmica e a inquietude sobre o nosso lugar no universo: seremos únicos e especiais?

Não sabemos.

Pedro Gomes
12ABR2019 – 105 FM

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O VOTO PREMIADO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES O VOTO PREMIADO

 

O Presidente do Governo Regional dos Açores, no discurso do Dia da Região, sugeriu que, em vez do voto obrigatório, a que estão associadas sanções, os eleitores votantes fossem premiados nas prestações socias proporcionadas pelo Estado ou até com benefícios fiscais.

Vasco Cordeiro afirma que a sua proposta assenta num “contrato de cidadania”, por meio do qual uma participação eleitoral assídua dos cidadãos é premiada pelo Estado, enquanto os abstencionistas são penalizados.
O Presidente do Governo Regional propõe, afinal, um voto premiado.

Esta ideia não é aplicada em nenhum sistema eleitoral democrático e não pode ser levada a sério, pois levanta mais problemas do que as soluções que promete.

A participação eleitoral é, simultaneamente, um dever de cidadania e um direito que é livremente exercido por cada cidadão, sem que o Estado o premeie ou puna, em função do comportamento eleitoral.

O direito ao voto também compreende o direito do seu não exercício pelos cidadãos. A liberdade eleitoral é uma liberdade de escolha ou não-escolha.

Depois do voto obrigatório sugerido por Carlos César, Vasco Cordeiro propõe o voto sancionatório.

No fundo, trata-se de obrigar o eleitor a votar, sob pena de sofrer uma sanção aplicada pelo Estado.

Esta medida a ser aprovada – e não o será, certamente – suscitaria sérios problemas de constitucionalidade, desde logo quanto ao respeito pelo princípio da igualdade.

Para além disso, agrava a desconfiança dos cidadãos em relação aos partidos e aos agentes políticos, que fariam um melhor combate à abstenção se, por exemplo, tivessem uma relação mais transparente com os cidadãos ou lhes transmitissem com clareza as suas propostas.

A proposta de Vasco Cordeiro é uma ideia infeliz.

Pedro Gomes
14JUN2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

NORMANDIA

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES NORMANDIA

 

Há setenta e cinco anos, no dia 6 de Junho de 1944, o desembarque naval das forças aliadas nas praias da Normandia apressou o final da II Guerra Mundial, que apenas termina no ano seguinte.

Neste dia, em que morreram milhares de soldados, começou a libertação da Europa. A Europa deve a liberdade e democracia dos nossos dias à aliança anglo-saxónica que desencadeou uma arriscada operação aeronaval, que alterou o curso da guerra e da história.

As praias da Normandia ficaram manchadas pelo sangue de jovens soldados que deram a vida pela liberdade na Europa. Os seus corpos estão sepultados nos cemitérios da Normandia, testemunhas silenciosas da violência dos combates e da devastação da guerra.

Há setenta e cinco anos, a solidariedade norte-americana sustentou, sem hesitações, a defesa da Europa. O risco da guerra era o risco da morte da liberdade às mãos do regime nazi que prometia um reich de mil anos.

Em vez de mil anos de ditadura, os europeus conquistaram uma liberdade duradoura.

No seu esconderijo em Amesterdão, Anne Frank registou no seu diário, com “comoção”, que a esperança renascia, depois do desembarque aliado.

A Europa pagou um elevado preço por uma guerra que venceu. Em vidas humanas e em infra-estruturas económicas destruídas.

No período pós-guerra, o auxílio americano, através do Plano Marshall, foi determinante para a reconstrução da Europa e permitiu uma primeira forma de integração europeia, depois consolidada com a Declaração Schumann, em 9 de Maio de 1950, na qual o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês propunha a criação de uma Comunidade Económica do Carvão e do Aço (CECA), como resposta à devastação causada pela conflito armado.

A longa relação euro-atlântica dos Estados Unidos da América com a Europa, com expressão geoestratégica na participação na NATO, tem sofrido oscilações históricas, vivendo hoje um momento de incerteza perante a doutrina do Presidente Americano.

Do lado europeu, a questão é esta: as relações devem desenvolver-se de acordo com o princípio partners and equals ou podem estar submetidas a uma relação assimétrica?

Pedro Gomes
7JUN2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

81,29

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES 81,29

 

Nas eleições para o Parlamento Europeu, do passado Domingo, a abstenção bateu um nove recorde nos Açores e no país: 81,29% dos eleitores açorianos preferiu não participar na escolha dos Deputados portugueses no Parlamento Europeu.

Apenas votaram 44.786 eleitores, dos 226.885 inscritos nos cadernos eleitorais, numa manifestação de desinteresse por este acto eleitoral.

Esta elevada taxa de abstenção – de oito em cada dez eleitores – obriga os partidos políticos e a sociedade em geral a uma séria reflexão sobre este fenómeno, que fragiliza a democracia e permite que alguns possam começar a colocar em causa a legitimidade dos eleitos pelo povo.

Todos os estudos apontam para que as eleições autárquicas sejam os actos eleitorais que geram uma menor abstenção, quer pelo grande número de candidatos que integram as listas candidatas, quer pelo facto de as autarquias locais serem o nível de poder mais próximo dos cidadãos, circunstância que permite aos eleitores conhecerem bem os candidatos.

Pelo contrário, as eleições para o Parlamento Europeu geram elevadas taxas de abstenção, pois os eleitores ignoram o funcionamento deste órgão, desconhecem os Deputados, desconfiam de um parlamento distante e pressentem o conflito entre o princípio democrático e o modo como as decisões são efectivamente tomadas.

Os políticos têm de fazer um maior esforço para se aproximarem das pessoas, falarem uma linguagem mais simples, utilizarem melhor os novos meios de comunicação digitais, não apenas para divulgarem o que fazem, mas para interagirem com os cidadãos.

Mas, acima de tudo, as eleições para o Parlamento Europeu revelaram novas preocupações dos eleitores europeus, em especial dos mais jovens, com o ambiente, as alterações climáticas, a desigualdade social, a segurança ou o fortalecimento do euro e da política económica e monetária, que obrigam a uma nova narrativa discursiva por parte dos actores políticos.

Para os Açores, enquanto região ultraperiférica, parte integrante de uma Europa das regiões, a relação com a União Europeia não é apenas financeira e assente nos recursos que o orçamento comunitário pode afectar ao desenvolvimento regional.

Muitas das preocupações dos eleitores europeus têm uma expressão própria nos Açores e devem ter lugar num novo discurso europeu a partir dos Açores, o que não foi evidente na campanha eleitoral.

É tempo de voltarmos a construir uma política assente nos valores e princípios que fundaram o projecto europeu.

Pedro Gomes
31MAIO2019 – 105 FM

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