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Pedro Gomes

UM PASSE, DOIS PASSSES, TRÊS PASSES…NAS URNAS

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES UM PASSE, DOIS PASSSES, TRÊS PASSES…NAS URNAS

 

O Governo de António Costa anunciou com a pompa e a circunstância próprias da época pré-eleitoral, as novas medidas para os passes sociais nos transportes públicos, com destaque para a Área Metropolitana de Lisboa (AML) e a Área Metropolitana do Porto (AMP).

A nova política de preços dos transportes públicos assenta num modelo de passe intermodal, que permite uma significativa redução dos preços dos títulos de transporte pagos pelos utentes.

Uma medida que, quando foi anunciada, iria custar 65 milhões de euros, e que afinal custará cerca de 140 milhões de euros, a suportar pelo orçamento de Estado e, em pequena escala, pelos municípios envolvidos.

Lisboa e Porto vão beneficiar de 89 milhões de euros de apoio, ao passo que as zonas do interior do país, com mais dificuldades de acesso, menor grau de mobilidade e menor disponibilidade de transportes públicos vão receber valores modestos, sem serem destinatárias de políticas que permitam combater a desertificação e o despovoamento.

É verdade que a grande Lisboa e o Porto concentram a maioria da população portuguesa, mas, por isso mesmo, justificava-se a adopção de outro tipo de políticas para combater a macrocefalia dos grandes centros urbanos.

A redução do preço dos transportes públicos associada à generalização de um passe intermodal, que conjugue todos os transportes, permitindo uma melhor mobilidade urbana, é uma medida socialmente justa.

Apesar disso, o Governo da República não se livra do rótulo de eleitoralista, pois trata-se de uma decisão com um enorme impacto social, tomada a dois meses das eleições europeias e a seis meses das eleições legislativas.

No meio de tudo isto, os açorianos ficam a ver navios, ou melhor, autocarros, já que os Açores não estão abrangidos pela nova política de passes sociais.

O Governo Regional dos Açores nunca se preocupou em lançar passes socias intermodais, com um tarifário justo, articulando o transporte suburbano com o transporte urbano, nas cidades de Ponta Delgada e Angra de Heroísmo, as únicas que dispõem deste tipo de transporte.

Em 2009, pela Resolução nº 14/2009, de 21 de Julho, a Assembleia Legislativa recomendou isso mesmo ao Governo Regional. Dez anos depois, continua tudo na mesma.

O Governo Regional parece estar à espera de Godot.

Pedro Gomes

Pedro Gomes

TEMPO DOS LILASES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES TEMPO DOS LILASES

 

Estamos no tempo de vésperas, em Sexta-Feira Santa.

No mês da Páscoa, o tempo tem outro sentido.

A morte e ressurreição de Jesus Cristo tem o significado de compromisso com os homens de boa vontade, crentes ou não crentes.

Nas celebrações da Páscoa, que se repetem há dois mil anos, os rituais renovam-se a cada ano. Mudamos com o tempo e a nossa relação com a vida também se altera. Como ensinou Heraclito, nunca nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio.

O tempo pascal é um tempo de passagem. Não apenas da passagem da morte à vida, mas da renovação da vida.
Renovação dos gestos, das atitudes, do desejo e da vontade.

A celebração da morte do Senhor, com a igreja em silêncio, os altares despidos, o despojamento, convida ao recolhimento interior.

Na sua vida, Jesus manteve sempre o contacto com o povo: crianças e idosos, ricos ou pobres, proscritos e poderosos, todos foram recebidos.

Na cruz em que morre, Jesus continua a atrair: o centurião, ladrões, verónicas.

Para todos, o filho de Deus tem uma palavra de acolhimento, de ternura, de compaixão. Ninguém é excluído. Ninguém fica para trás. Ninguém é insignificante.

Numa época de relativismo dos valores, do abandono de princípios em favor do utilitarismo, da desvalorização do homem e da sua condição humana, de descrença generalizada, a mensagem de Jesus mantém-se actual. Amar continua a ser o mandamento essencial. Pelo amor, tudo muda, tudo se transforma.

O amor incondicional, sem barreiras, sem constrangimentos. O amor que acolhe, aceita e perdoa. O amor que é sinónimo de misericórdia.

Nos versos de Juan Vicente Piqueras, “não fujas do que sentes. Não permitas/ que a vida se perca no vazio,/que a morte ao chegar encontre/já feito o seu trabalho”.

É quanto baste.
Uma Santa Páscoa.

Pedro Gomes
19ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

A LUZ QUE SE ESCONDE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES A LUZ QUE SE ESCONDE

 

O mundo viu, pela primeira vez, imagens de um buraco negro supermaciço, no centro da galáxia M87. Os nossos olhos espantados contemplaram, esta semana, fotografias inesquecíveis: um objecto cósmico, com uma massa enorme, a 54 milhões de anos-luz do nosso planeta, estava ali, desafiando os sentidos.

Os buracos negros apaixonam a opinião pública desde sempre, convocando a imaginação e contrariando o senso comum.

Um buraco negro forma-se quando a matéria entra em colapso sobre si mesma. A sua densidade é tão elevada, que atrai a matéria e a luz para o seu interior. Como escreveu Carl Sagan, no seu livro Cosmos, “quando a gravidade for suficientemente elevada, nada, nem sequer a luz consegue sair. A um sítio como esse chama-se buraco negro”.

A presença dum buraco negro afecta tudo à sua volta, alterando a dimensão espaço-tempo. Um buraco negro é uma espécie de abismo no espaço, que não conseguimos observar, pois não emite luz, muito embora a sua sombra possa ser vista, como a fotografia do Event Horizon Telescope revela.

A fotografia é espantosa: um radioso anel de luz a expulsar o negrume do aparente vazio. A imagem desperta sentimentos contraditórios: atraídos pela luz, quase nos esquecemos da força poderosa do buraco negro. Diante de nós, está o indizível, que apenas pertencia ao mundo imaginado e às conjecturas dos astrónomos.

Como disse Sheperd Doeleman, Director do projecto Event Horizon Telescope, “vimos o que se pensava ser invisível”.

Os buracos negros estão muito longe da terra. Não passam de pontos no espaço, que nem conseguimos identificar a olho nu, mas o seu mistério é imenso. No imaginário do espaço e da astronomia, os buracos negros são uma viagem para Ítaca.

A primeira fotografia de um buraco negro prova que as capacidades humanas vencem todos os obstáculos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis. Depois, de há três anos, termos podido escutar sons dos buracos negros, agora temos o privilégio de ver um. A dimensão dos buracos negros e o que ainda não sabemos sobre a sua existência recorda a nossa pequenez na vastidão cósmica e a inquietude sobre o nosso lugar no universo: seremos únicos e especiais?

Não sabemos.

Pedro Gomes
12ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

O IMPARÁVEL DESCRÉDITO DA DEMOCRACIA

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES O IMPARÁVEL DESCRÉDITO DA DEMOCRACIA

 

As nomeações de familiares para funções públicas no Governo, na Administração Pública ou para funções no Estado, com a extensão que a comunicação social vem revelando, são um problema no funcionamento da democracia, contribuindo para uma acentuada crise de confiança dos cidadãos nos políticos e nos decisores políticos.

O problema não é de legalidade, mas de conduta pessoal e de ética republicana.

O Primeiro-Ministro, acossado pela opinião pública e pelas consequências deste caso nas sondagens, traçou uma linha política que tenta proteger todo o executivo: apenas os casos de nomeação directa de familiares são um problema ético.

O Primeiro-Ministro está errado na sua avaliação, pois não é tolerável que a nomeação de familiares para cargos de confiança política fique protegida por uma cortina, atrás da qual se escondem as nomeações de familiares feitas por outros.

Nem tudo o que lei não proíbe é permitido do ponto de vista ético. A velha máxima de conduta pessoal e política foi esquecida e arrumada sem pudor por novos e velhos titulares de cargos políticos.

Não é necessário haver uma lei que trace os limites para as nomeações feitas por livre escolha dos membros do governo. A ética, o bom senso e o sentido de serviço público deveriam bastar. Precisamente o que faltou a este Governo.

A nomeação de familiares para cargos de confiança política provoca o estreitamento da pluralidade política, pois tudo parece ficar decidido por muitos poucos que, por razões familiares, não terão opiniões diversas.

A protecção do interesse público também é, de algum modo, colocada em causa com esta prática.

Certamente que muitas destas pessoas têm méritos pessoais e qualidades para o desempenho das funções públicas para que foram nomeadas, mas a teia de nomeações cruzadas em que o Governo de António Costa se enredou depressa faz esquecer este aspecto.

A política também é exemplo.

Pedro Gomes

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