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Pedro Gomes

O PESO DO SILÊNCIO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES O PESO DO SILÊNCIO

 

As vozes das vítimas fizeram-se ouvir na inédita cimeira do Papa Francisco com os presidentes de conferências episcopais e institutos religiosos, convocada pelo Papa, sobre a protecção dos menores na Igreja.

O Papa Francisco teve um gesto corajoso que pode alterar a atitude de silêncio prolongado e envergonhado da Igreja sobre os abusos sexuais de menores.

Espero que esta cimeira represente uma mudança na Igreja, no sentido de reconhecer e admitir os casos de abuso sexual de menores e denunciar os prevaricadores pelos crimes cometidos, para que possam ser julgados e punidos. Nesta matéria, a justiça não pode ficar apenas no foro eclesiástico.

Os crimes cometidos contra menores – rapazes e raparigas – são hediondos e não podem ter nenhuma espécie de tolerância e muito menos de encobrimento.

Esta cimeira será dolorosa, com um sentido expiação, para a Igreja e para o clero, mas esta dor não tem comparação com a dor daqueles que sofreram abusos e os silenciaram durante anos, por vergonha ou temor da hierarquia religiosa.

Ninguém pode continuar a sofrer desta maneira.

O manto de silêncio que cobre a prática de abusos sexuais não é exclusivo da Igreja, mas estende-se a outras instituições, do desporto ao mundo empresarial.

Acredito que esta cimeira possa tornar a Igreja mais transparente na punição do clero que comete o crime de abuso sexual de menores e desperte os leigos para aprenderem a olhar e a interpretar os sinais de prevaricação e a prevenir comportamentos intoleráveis.

As crianças têm de se sentir protegidas quando frequentam a catequese ou participam numa celebração religiosa.
O respeito por todas as vítimas de abusos sexuais deve levar a Igreja a mudar imediatamente de conduta, para acabar com um flagelo que envergonha a Igreja e os católicos.

Na abertura da cimeira, o Papa apelou aos participantes para que escutassem “o grito dos menores que pedem justiça”.

Acabar com a impunidade de padres e bispos impõe que a cimeira convocada pelo Papa tenha resultados concretos e não se fique pela reafirmação de valores, princípios ou pela adopção de um código de conduta para o clero que, sendo importante para a prevenção dos abusos sexuais, é insuficiente.

Pedro Gomes
22FEV2019 – 105 FM

Pedro Gomes

TEMPO DOS LILASES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES TEMPO DOS LILASES

 

Estamos no tempo de vésperas, em Sexta-Feira Santa.

No mês da Páscoa, o tempo tem outro sentido.

A morte e ressurreição de Jesus Cristo tem o significado de compromisso com os homens de boa vontade, crentes ou não crentes.

Nas celebrações da Páscoa, que se repetem há dois mil anos, os rituais renovam-se a cada ano. Mudamos com o tempo e a nossa relação com a vida também se altera. Como ensinou Heraclito, nunca nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio.

O tempo pascal é um tempo de passagem. Não apenas da passagem da morte à vida, mas da renovação da vida.
Renovação dos gestos, das atitudes, do desejo e da vontade.

A celebração da morte do Senhor, com a igreja em silêncio, os altares despidos, o despojamento, convida ao recolhimento interior.

Na sua vida, Jesus manteve sempre o contacto com o povo: crianças e idosos, ricos ou pobres, proscritos e poderosos, todos foram recebidos.

Na cruz em que morre, Jesus continua a atrair: o centurião, ladrões, verónicas.

Para todos, o filho de Deus tem uma palavra de acolhimento, de ternura, de compaixão. Ninguém é excluído. Ninguém fica para trás. Ninguém é insignificante.

Numa época de relativismo dos valores, do abandono de princípios em favor do utilitarismo, da desvalorização do homem e da sua condição humana, de descrença generalizada, a mensagem de Jesus mantém-se actual. Amar continua a ser o mandamento essencial. Pelo amor, tudo muda, tudo se transforma.

O amor incondicional, sem barreiras, sem constrangimentos. O amor que acolhe, aceita e perdoa. O amor que é sinónimo de misericórdia.

Nos versos de Juan Vicente Piqueras, “não fujas do que sentes. Não permitas/ que a vida se perca no vazio,/que a morte ao chegar encontre/já feito o seu trabalho”.

É quanto baste.
Uma Santa Páscoa.

Pedro Gomes
19ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

A LUZ QUE SE ESCONDE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES A LUZ QUE SE ESCONDE

 

O mundo viu, pela primeira vez, imagens de um buraco negro supermaciço, no centro da galáxia M87. Os nossos olhos espantados contemplaram, esta semana, fotografias inesquecíveis: um objecto cósmico, com uma massa enorme, a 54 milhões de anos-luz do nosso planeta, estava ali, desafiando os sentidos.

Os buracos negros apaixonam a opinião pública desde sempre, convocando a imaginação e contrariando o senso comum.

Um buraco negro forma-se quando a matéria entra em colapso sobre si mesma. A sua densidade é tão elevada, que atrai a matéria e a luz para o seu interior. Como escreveu Carl Sagan, no seu livro Cosmos, “quando a gravidade for suficientemente elevada, nada, nem sequer a luz consegue sair. A um sítio como esse chama-se buraco negro”.

A presença dum buraco negro afecta tudo à sua volta, alterando a dimensão espaço-tempo. Um buraco negro é uma espécie de abismo no espaço, que não conseguimos observar, pois não emite luz, muito embora a sua sombra possa ser vista, como a fotografia do Event Horizon Telescope revela.

A fotografia é espantosa: um radioso anel de luz a expulsar o negrume do aparente vazio. A imagem desperta sentimentos contraditórios: atraídos pela luz, quase nos esquecemos da força poderosa do buraco negro. Diante de nós, está o indizível, que apenas pertencia ao mundo imaginado e às conjecturas dos astrónomos.

Como disse Sheperd Doeleman, Director do projecto Event Horizon Telescope, “vimos o que se pensava ser invisível”.

Os buracos negros estão muito longe da terra. Não passam de pontos no espaço, que nem conseguimos identificar a olho nu, mas o seu mistério é imenso. No imaginário do espaço e da astronomia, os buracos negros são uma viagem para Ítaca.

A primeira fotografia de um buraco negro prova que as capacidades humanas vencem todos os obstáculos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis. Depois, de há três anos, termos podido escutar sons dos buracos negros, agora temos o privilégio de ver um. A dimensão dos buracos negros e o que ainda não sabemos sobre a sua existência recorda a nossa pequenez na vastidão cósmica e a inquietude sobre o nosso lugar no universo: seremos únicos e especiais?

Não sabemos.

Pedro Gomes
12ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

O IMPARÁVEL DESCRÉDITO DA DEMOCRACIA

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES O IMPARÁVEL DESCRÉDITO DA DEMOCRACIA

 

As nomeações de familiares para funções públicas no Governo, na Administração Pública ou para funções no Estado, com a extensão que a comunicação social vem revelando, são um problema no funcionamento da democracia, contribuindo para uma acentuada crise de confiança dos cidadãos nos políticos e nos decisores políticos.

O problema não é de legalidade, mas de conduta pessoal e de ética republicana.

O Primeiro-Ministro, acossado pela opinião pública e pelas consequências deste caso nas sondagens, traçou uma linha política que tenta proteger todo o executivo: apenas os casos de nomeação directa de familiares são um problema ético.

O Primeiro-Ministro está errado na sua avaliação, pois não é tolerável que a nomeação de familiares para cargos de confiança política fique protegida por uma cortina, atrás da qual se escondem as nomeações de familiares feitas por outros.

Nem tudo o que lei não proíbe é permitido do ponto de vista ético. A velha máxima de conduta pessoal e política foi esquecida e arrumada sem pudor por novos e velhos titulares de cargos políticos.

Não é necessário haver uma lei que trace os limites para as nomeações feitas por livre escolha dos membros do governo. A ética, o bom senso e o sentido de serviço público deveriam bastar. Precisamente o que faltou a este Governo.

A nomeação de familiares para cargos de confiança política provoca o estreitamento da pluralidade política, pois tudo parece ficar decidido por muitos poucos que, por razões familiares, não terão opiniões diversas.

A protecção do interesse público também é, de algum modo, colocada em causa com esta prática.

Certamente que muitas destas pessoas têm méritos pessoais e qualidades para o desempenho das funções públicas para que foram nomeadas, mas a teia de nomeações cruzadas em que o Governo de António Costa se enredou depressa faz esquecer este aspecto.

A política também é exemplo.

Pedro Gomes

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