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Nuno Melo

DEMASIADAS DÚVIDAS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES DEMASIADAS DÚVIDAS

 

Não é a primeira vez que abordo este assunto, mas está a preocupar-me. Trata-se da nova diretiva comunitária sobre os direitos de autor, concretamente os já famosos artigos 11º e 13º, que aparentemente mantêm o essencial do já havia sido proposto. Até hoje, ainda não está disponível na net a nova versão aprovada há poucos dias, mas já se sabe que mantém as restrições mais polémicas.

É importante proteger os direitos de autor, contra os abusos e partilhas indevidas, até em redes de serviços como Google ou outras redes sociais. Mas é importante também não esquecer que o principal motivo para publicar algo na internet é a sua divulgação. Qualquer autor que tenha uma obra que é pública, tem como objetivo chegar mais longe. O Facebook vive de likes e partilhas. O Twitter de retwitts. E a Google, tal como outros motores de busca, tem como objetivo organizar a informação, pra ser mais facilmente encontrada. Por outras palavras, para aumentar a visibilidade do que se publica na internet. Aliás, quase todas as redes sociais, e a Google, cobram por aumentar a divulgação de links e conteúdos.

As novas regras na diretiva contraíram este propósito, partindo do pressuposto que a divulgação é má e está a violar os direitos de autor. Já o referi no passado, o ponto mais crítico destas normas é a imposição da criação de software de censura, rápido e eficaz, capaz de distinguir o que tem direitos de autor do que não tem. Um software deste género é um perigo brutal, pois caindo nas mãos de um governo autoritário, confere-lhe uma poderosíssima ferramenta de censura.

Por outro lado, não são as ditas redes sociais que partilham, mas sim os seus utilizadores. Até que ponto é legítimo pedir às redes sociais, que são agregadores ou gestores de um espaço, para serem também polícias das leis locais neste espaço? É um pouco como pedir aos concessionários das estradas para fiscalizaram as regras de trânsito… Além disso, se é legítimo que a União Europeia imponha controlo de direitos de autor, é legítimo que a Venezuela, ou a China ou a Coreia do Norte, ou outra qualquer ditadura (ou democracia) imponham a censura que quiserem às redes sociais, ao abrigo de legislação local.

O artigo 11º, obrigando a que os agregadores e redes sociais remunerem os links com snippets de media, jornais etc., está a inverter o serviço: ou seja, as redes sociais e a Google, ou a Sapo em Portugal, até agora cobravam por divulgar uma notícia ou um link, passam a pagar para puderem divulgar. Por outras palavras, a publicidade gratuita feita a um opinião ou a um pdf de um jornal, ou um print screen de um órgão de comunicação social, em vez de ser bem vista, é castigada com o pagamento. Contudo, resta saber se os comentários ou contrapontos ou esclarecimentos, feitos por quem partilha ou re-partilha não deverão ser protegidos como direitos de autor… é que não é só quem está registado como autor que o é… Parece-me que isto levará a que a informação fique mais difícil, mais cara e mais escondida, sem nenhum ganho por aí além. Se é verdade que a internet não morrerá, o seu uso mudará drasticamente.

Além de se pagar ao operador pela largura e acesso à rede, provavelmente passar-se-á a pagar todos os conteúdos. Será um pouco como pagar a assinatura do telemóvel e depois pagar todas as chamadas e sms como sendo de valor acrescentado…

Depois existem outras coisas mais comezinhas. Penso nestas modestas opiniões publicadas nesta rádio. Poderei eu republicar nas redes sociais que entenda? Poderá a 105FM republicar sem ter que me pagar direitos de autor? Poderão outras pessoas fazê-lo? O meu propósito nestas reflexões não é comercial, não tem fins lucrativos: é para fomentar a reflexão e a discussão, na medida das minhas capacidades.

Existem demasiadas zonas cinzentas, e algumas negras, nesta diretiva, para que possa ser consagrada como um instrumento útil na defesa dos direitos do autor e para se aceitar os limites impostos à internet. A sensação que fica é que esta medida vai proteger ainda mais os grandes operadores na Internet, e as grandes empresas que compram publicidade online, pois são esses que podem pagar pelo uso e partilha dos conteúdos e das fake news que quiserem divulgar.

19/01/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

SOLUÇÕES EQUILIBRADAS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES SOLUÇÕES EQUILIBRADAS

 

Nunca fui adepto das nacionalizações nem de mercados dominados por empresas públicas. Porém, não defendo mercados dominados pelas empresas, mas sim pelos consumidores. Regra geral, os mercados onde existe concorrência entre as empresas são os que melhor servem os interesses dos consumidores. Há quem diga que a teoria económica não serve em lado nenhum nem se aplica, porque nunca existem as condições necessárias para a que a concorrência perfeita funcione. É um facto que as condições de concorrência nunca são perfeitas, existindo diversas razões externas à teoria económica para que isso aconteça. Desde logo, a mais importante é a legislação e a regulamentação, que definem como podem funcionar os mercados e a concorrência nesses mercados.

As empresas públicas têm espaço e são necessárias. Podem servir de market makers, intervindo para criar a concorrência onde não existe e para assegurar serviços públicos onde não é possível fazê-lo com o sector privado. É preciso não esquecer uma premissa: o sector privado exige sempre um retorno económico para compensar os investidores. As empresas públicas não têm que ter lucros como objetivo, podendo ter outros propósitos: garantir a igualdade de direitos básicos ou constitucionais; garantir a igualdade de acesso às oportunidades; assegurar tratamento igual para situações iguais; etc., etc. É óbvio que devem ser bem geridas, mas bem geridas nestes casos, não quer dizer lucro, nem eficiência: quer dizer eficácia.

As recentes notícias da possibilidade da reversão parcial da privatização total dos CTT e da ANA surgem precisamente porque, sendo empresas privadas e estando a acautelar os objetivos de lucro dos seus acionistas, estão a deturpar os direitos dos cidadãos e a igualdade de oportunidades.

No caso dos CTT, porque como qualquer açoriano sabe, os preços e prazos de envio de correspondência ou mercadorias pelos CTT são diferentes do resto do País. Se é compreensível que assim seja com os prazos, pelo menos em parte mas nunca com os atrasos enormes que têm havido para a maior parte das nove ilhas, já o agravamento dos preços de e para os Açores não é, de todo, aceitável. A igualdade de oportunidades e de acesso a serviços públicos em condições equivalentes não está a ser assegurada. E o caso dos transportes por CTT é efetivamente um caso de serviço público, mesmo sendo assegurado por uma empresa privada, pelo que, se pela regulamentação não se chega lá, é dever do Estado intervir para corrigir esta situação, através recompra do capital no seu todo ou em parte.

A situação da ANA é semelhante: a empresa gestora dos aeroportos não tem concorrência nenhuma, portanto passou-se de um monopólio público para um monopólio privado. A ANA gere a distribuição de voos e ligações pelos seus aeroportos como quer e não mediante qualquer objetivo de desenvolvimento regional, nem sequer com objetivos de igualdade de acessos. Nos casos dos Açores, este último aspeto tem uma importância enorme, dado que, ao contrário do que acontece no Continente português (e Europeu), não existe alternativa ao transporte aéreo para os passageiros que necessitem sair da sua ilha ou Região.

O lucro é legítimo sendo a recompensa pelo risco e pelo empreendedorismo. Contudo, em caso de serviços públicos e da garantia de direitos dos cidadãos, não se pode sobrepor a outras prioridades.

Há que encontrar soluções equilibradas, para contentar os privados que investem bem como os nobres desígnios públicos, sendo que, quer no caso dos CTT, quer no caso da ANA, é possível fazer isso através da recompra de ações das empresas e através de regulamentação que obrigue ao cumprimento das prioridades públicas.

21/01/2020
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

TEIMOSIAS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES TEIMOSIAS

 

Existem situações em que só é possível assegurar a igualdade através da desigualdade. Quando o objetivo é proporcionar a igualdade de oportunidades, nem sempre isso se consegue sem um tratamento diferenciado para minorar a desvantagem. Tratar de forma igual situações diferentes nem sempre é a solução adequada, pois só se conseguem igualar as oportunidades tratando de forma diferente as situações diferentes.

O caso do financiamento da Universidade dos Açores, como outros casos de serviços públicos e de Estado na Região, parece enquadrar-se nessa situação. A especificidade regional, marcada pela descontinuidade territorial e pelo consequente agravamento de custos daí decorrentes, e que se consubstanciam na necessidade de se multiplicarem investimentos e infraestruturas, serviços, etc., exige uma atenção especial e um tratamento diferente por parte do Estado. Julgo que é fácil entender esta situação nos casos mais óbvios, de saúde, da segurança, etc., e até no ensino obrigatório. No caso do ensino superior, especialmente o público, deveria ser assim também.

A multipolaridade geográfica da Universidade dos Açores não é defeito, é feitio. A alternativa, de ser dividida em várias universidades, não é viável. Outra alternativa, de a encerrar, também não é adequada, devido à inegável a valia que tem sido para a Região.

Para manter a Universidade dos Açores em funcionamento e para preservar as suas características únicas e específicas à Região, é necessário reforçar o seu financiamento, para que atinja o equilíbrio. Além do acesso a fundos comunitários, como têm outras universidades no país, será impossível mantê-la sem um reforço orçamental.

Felizmente, o Reitor da Universidade dos Açores, não encara como uma inevitabilidade a redução de custos para acomodar a redução do financiamento, defendendo que existem patamares mínimos de custos de funcionamento necessários para manter a Universidade a funcionar, com as suas principais características intactas.

O que faz da Universidade dos Açores a Universidade dos Açores é precisamente a sua multipolaridade, distribuída por várias ilhas. É isso que a diferencia de outras no País e é isso que a tornou tão importante para a própria Autonomia. Tal como os portugueses residentes nos Açores estão dispersos (e às vezes até um pouco isolados, como agora acontece com os residentes no Grupo Ocidental devido aos estragos provocados pelo furacão) também a dispersão da Universidade consolida raízes locais, indispensáveis e que caracterizam a sua natureza.

Apesar da teimosia do Governo da República – aliás, de vários governos da república ao longo dos anos – em não quererem compreender a especificidade regional da Universidade dos Açores, dotando-a dos meios necessários para fazer jus a sua natureza, a Região e os órgãos da própria Universidade não podem desistir desta solução. Fazê-lo seria reconhecer que esta Universidade pode ser tratada como as outras, quando efetivamente não pode.

14/01/2020
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

NEM COM AS RENAS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES NEM COM AS RENAS

 

O Natal é já amanhã. E normalmente esta altura do ano traz alegria, harmonia e o pensar mais nos outros. No nosso hemisfério também traz alguns incómodos, provocados pelo estado do tempo. As ligações aéreas, que são cruciais para os Açorianos, têm falhado, devido ao vento e chuva, cá e no Continente, deixando muita gente desesperada sem conseguir chegar a casa para celebrar o Natal com a família. Mas não só. A greve dos técnicos de manutenção da SATA veio ampliar os problemas provocados pelo mau tempo.

A greve é um direito, como todos sabemos, e não vale a pena discutir isso. Nem sequer vale a pena discutir a justeza da greve dos técnicos de manutenção, pois as opiniões dividem-se e isso não muda a situação. Nem é preciso lembrar que os trabalhadores em greve não recebem durante esse tempo. Esses assuntos levariam a uma discussão diferente, sobre a relação laboral, sobre os direitos e deveres, sobre contratualizações laborais, e sobre um conjunto de outras coisas que não cabem aqui.

Há, no entanto, duas observações que não posso deixar de fazer: as consequências da greve da SATA, como em qualquer outra empresa pública, como um hospital ou uma escola, são só para os clientes e utentes, e para os funcionários grevistas, que deixam de receber. Nunca afetam os governantes e os deputados, que são quem executa as políticas, quem aprova os planos e orçamentos e quem define as linhas estratégicas de atuação das empresas públicas ou abrangidas por decisões públicas. E este caso não foi diferente. Como não é quando os profissionais de educação fazem greve nas escolas públicas, como não é quando os profissionais de saúde fazem greve nos serviços públicos de saúde, como não é quando os profissionais da justiça fazem greve.

A segunda consideração é que as greves à sexta-feira, na véspera de feriados e aquelas que são marcadas em datas que prejudicam mais as pessoas – como forma de exercer pressão sobre os governantes e deputados – tem sido cada vez menos compreendidas pelos utentes dos serviços públicos e pelos clientes das empresas públicas. Sobretudo durante estes anos da geringonça, em que ao contrário do que seria de esperar com um governo de esquerdas, permeável às pressões sindicais, a contestação laboral cresceu, e com essa reforçada contestação, também se registaram vários episódios de intolerância dos utentes e clientes prejudicados, em relação às greves e às suas reivindicações. E, no caso desta greve dos técnicos de manutenção da SATA, parece ter acontecido isso, a julgar pelas notícias: a companhia aérea tem estado sob enorme pressão e crítica, mas os passageiros não parecem estar a simpatizar com a greve.

Pessoalmente, penso que a greve poderia ter sido alterada, atendendo ao acréscimo de problemas provocados pelo mau tempo, situação imprevista aquando da sua convocação. E por isso, o anúncio feito pelo sindicato de que haveria disponibilidade para suspender a greve, por forma a que as pessoas pudessem chegar a casa antes do Natal, foi um bom sinal, de que ainda assim, há preocupação com as consequências para os passageiros e que há boa vontade da parte dos trabalhadores. É que assim, a frustração e irritação sentida pelos passageiros sem ligações devido à greve, poderá ser atenuada e o Natal que, para muitos poderia estar estragado, afinal poderá ser salvo.

Oxalá que sim, que a SATA, com a colaboração dos trabalhadores que tinham aderido à greve, consiga compor a situação: é que se a SATA não conseguir, nem à boleia do trenó e das renas do Pai Natal os passageiros chegarão a casa a tempo da festa.

A todos, os meus Votos de um Santo Natal.

24/12/2019
Nuno Melo Alves

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