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Paulo Casaca

REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

 

O Movimento para a ‘Vida Rural’ iniciado nos EUA no último quartel do século XIX deu lugar à ‘Comissão para a Vida Rural’ instaurada em 1908 pelo Presidente Theodore Roosevelt, comissão que pode ser considerada a primeira instituição moderna vocacionada para a promoção do desenvolvimento rural.

Depois dos EUA, tivemos a Índia e a Europa, e mais recentemente o movimento generalizou-se através do mundo, utilizando instrumentos muito diversos que mantiveram contudo a mesma preocupação central de permitir ao mundo rural níveis de desenvolvimento equiparáveis aos disponibilizados em meio urbano.

Na União Europeia, a política de desenvolvimento rural foi protagonizada pelo programa ‘Leader’ cuja primeira edição data de 1991 como uma forma mais eficaz de promover o rendimento da população rural do que a política de intervenção nos preços agrícolas.

Na sua proposta de orçamento plurianual para 2021-2027 o desenvolvimento rural é a grande rubrica orçamental que sofre os maiores cortes, com a Comissão a propor uma redução de 28%, que poderá ser parcialmente compensada com decisões dos Estados de alimentar esse orçamento diminuindo as subvenções directas à agricultura, possibilidade essa que me parece no entanto pouco realista.

Creio que a secundarização do mundo rural pelas instâncias europeias é um erro crasso que contribui mais ainda para o seu afastamento das preocupações dos cidadãos e não é alheio ao profundo descontentamento rural sentido em países como a França.

Curiosamente, o desenvolvimento rural que a União Europeia agora quer abandonar está a ser impulsionado com novas valências no Sul e sudeste asiático, com organizações de desenvolvimento rural do Nepal à Birmânia a equacioná-lo também como instrumento transfronteiriço de diálogo e de paz.

É talvez uma questão a ter em conta nas eleições europeias que se aproximam.

Bruxelas, 2019-02-06
Paulo Casaca

Paulo Casaca

JIHAD NO CEILÃO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA JIHAD NO CEILÃO

 

O Sri Lanka, moderno Ceilão, é talvez o país da Ásia do Sul onde os traços da presença portuguesa são mais salientes, tanto na onomástica como na religião católica que tem aqui como noutras situações uma componente etnográfica.

O Ceilão foi vítima de uma guerra civil que só terminou em 2009 depois do esmagamento dos Tigres Tamil, grupo terrorista que tinha adaptado as mais sanguinárias táticas do jihadismo a um movimento secular.

Ainda antes de terminada a guerra civil, e no contexto da ajuda humanitária aos muçulmanos da costa oriental do Ceilão por ocasião do Tsunami de 2004, tinham dado entrada no país as principais organizações nominalmente humanitárias que actuam concertadamente com organizações jihadistas que operam a partir do Paquistão.

De lá para cá avolumaram-se quer os trabalhos académicos quer os relatórios divulgados na imprensa sobre o recrutamento e doutrinação jihadista tanto no Sri Lanka como nas Maldivas, com envio de importantes contingentes para os teatros de guerra do Médio Oriente e o crescimento da ameaça à Índia.

Nesse contexto, a principal surpresa do grande ataque de Domingo de Páscoa, que custou a vida a várias centenas de pessoas, foi o de não se ter dirigido contra a Índia, mas ter antes a comunidade cristã como alvo.

É uma surpresa que confirma contudo o carácter global da ameaça jihadista e a impossibilidade de a conter em lógicas ou disputas locais ou regionais e que mostra, uma vez mais, a desatenção das autoridades.

Os serviços de segurança do Sri Lanka naturalmente que erraram ao alertar unicamente as autoridades indianas de ataque terrorista eminente, mas são os responsáveis políticos ocidentais que continuam a não querer ver o que há muito lhes deveria ter entrado pelos olhos dentro.

Nesta Páscoa ensanguentada, os meus pensamentos vão para as autoridades e para o povo do Sri Lanka e muito em particular a sua comunidade cristã.

Ponta Delgada, 2019-04-23

Paulo Casaca

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Paulo Casaca

AS REFORMAS EM DEBATE

Paulo Casaca

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PAULO CASACA AS REFORMAS EM DEBATE

 

A Fundação da família acionista de referência de uma importante cadeia portuguesa de supermercados registada nos Países Baixos editou um estudo sobre a ‘sustentabilidade do sistema de pensões português’ que preconiza um adiamento da idade de reforma.

Aparentemente, não terá ocorrido à referida fundação a ideia de conseguir essa sustentabilidade fazendo com que, por exemplo, a referida cadeia de supermercados se registe em Portugal, contribuindo assim para a sustentabilidade da segurança social através da equidade no pagamento de impostos, em vez de recorrer a mais tempo de trabalho por parte dos trabalhadores portugueses.

A reforçar essa proposta, surgiu uns dias depois uma entrevista de um líder partidário reformado que, nas vésperas de completar as suas oito décadas de idade, veio preconizar um adiamento das reformas para essa idade.

O debate das reformas surge assim inquinado pelo da ‘sustentabilidade’, ou seja, pela preocupação daqueles que não pagam os seus impostos em Portugal ou foram privilegiados com uma ou mais reformas continuando activos, em assegurar que são sempre os mesmos, que não eles, que sustentam a despesa pública em Portugal.

Contudo, creio que seria essencial fazermos um debate menos interessado e mais ponderado desta matéria, tendo em conta as profundas mutações do trabalho, da inserção social e, naturalmente, da esperança de vida.

A vida é mais longa, o tipo de trabalho é em qualquer altura diverso, muda e mudará mais com o tempo, e a sociedade está em plena mutação, pelo que o conceito da reforma tal como começou a ser aplicado nos finais do século XIX precisa de ser profundamente repensado.

Provavelmente teremos de conceber não uma reforma, mas antes um sistema de pequenas e maiores reformas, que terão muito a ver com o tipo de actividade desenvolvida, com a inserção social, bem como com a evolução das capacidades de cada um, num debate não contaminado pelos pequenos interesses de quem se habituou a tudo receber e nada pagar e que se aflige com a perspectiva de ver os seus privilégios questionados.

Bruxelas, 2019-04-17

Paulo Casaca

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A PEREGRINA IDEIA DO CENSO ÉTNICO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A PEREGRINA IDEIA DO CENSO ÉTNICO

 

‘Identidades assassinas’ é o título de uma obra de referência de Amin Malouf que explica como a psicose identitária transformou pacíficos cidadãos em fanáticos jihadistas.

Mas a psicose identitária que permitiu a criação desses monstros que assombram a nossa existência está igualmente a corroer as democracias do nosso planeta, a começar pela americana, transformada numa lamentável colecção de seres que passaram a ser ‘caucasianos’ ou ‘afro-americanos’, a ser designados por presumidas orientações sexuais, religiões professadas ou opiniões.

A busca de identidade é um fenómeno humano e, com conta, peso e medida, é algo de positivo, seja sob a forma de pertença a um clube, a um bairro, a uma cidade, a uma língua, a um dialecto ou uma pronúncia, a uma região, a uma ilha, uma nação, um continente ou mesmo a uma religião.

O problema está quando a identidade se transforma em obsessão, fazendo crer que ser do clube A implica odiar os membros do clube B, à imagem do arquétipo jihadista segundo o qual quem não partilha da mesma visão fanática da religião é cafre e deve ser morto.

A crer no que se lê na imprensa, as autoridades portuguesas estão a pensar em introduzir no ‘Censos 2021’ as mesmas trágicas questões identitárias usadas nos EUA com o potencial de multiplicar entre nós problemas e enredos onde eles por enquanto não existem.

À peregrina ideia se têm oposto com veemência os representantes da comunidade cigana no grupo de trabalho governamental nomeado para estudar a questão, numa nota de bom senso da parte de quem melhor do que ninguém sabe pela história o desastre que essas ideias podem trazer.

Saber da origem e evolução étnica do comum dos mortais é hoje algo que a evolução da genética tornou banal, e existem já entre nós estudos mostrando por exemplo a importância das origens judaicas ou da África subsaariana da generalidade dos portugueses, não tendo sido preciso para isso elaborar qualquer censo.

O que as autoridades portuguesas precisam nesta matéria não é de questionário étnico no censo, precisam apenas de bom senso.

Bruxelas, 2019-04-10
Paulo Casaca

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