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Nuno Melo

CONSUMO RECREATIVO… E O TRÁFICO?

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES CONSUMO RECREATIVO… E O TRÁFICO?

 

Esteve em discussão na Assembleia da República a liberalização do consumo recreativo de canábis. A proposta acabou por ser reprovada, mas é um assunto que está na ordem do dia em vários países, sendo que o Canadá aprovou recentemente uma medida deste âmbito, seguindo o que já tinha acontecido no Uruguai.

Ao mesmo tempo que a Assembleia da República se preparava para discutir esta matéria, eram publicados os relatórios do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências) relativamente ao ano de 2017. Os Açores continuam a ter níveis de consumo de drogas e álcool muito elevados, sendo nalguns casos os mais altos do País. Concretamente, no consumo de canábis, álcool, novas substâncias psicoativas, ecstasy e cocaína os Açores lideram ou estão na linha da frente dos consumos.

Há muitos anos que sou da opinião que, se não se liberalizar o consumo, este deve ser penalizado. Nalguns países o combate aos consumos não se tem feito, sendo a batalha contra as drogas focada na prevenção do consumo e no combate ao tráfico. Portugal enquadra-se nestes países, ao ter descriminalizado o consumo de canábis. O problema do consumo de drogas, legais ou não, é que a procura serve de estímulo à oferta, mas a inovação também estimula a procura. E enquanto a procura for elevada, a oferta vai arranjar traficantes, armas e logística para fazer a droga chegar ao seu destino. Além disso, o consumo de drogas não é estanque: ao consumir-se uma, pode-se facilmente passar para outra.

Em tempos, o argumento contra o tráfico de droga e contra os traficantes era um dos principais para sustentar as teses da liberalização do consumo recreativo. Os últimos 20 anos têm, no entanto, revelado uma realidade diferente. Apesar das aproximações à liberalização do uso recreativo da canábis, e das mais amplas liberalizações do seu uso para fins medicinais, o tráfico de droga não diminuiu, nem os consumos de outras drogas diminuíram, tendo até surgido novas drogas alternativas. As redes de tráfico e produção de droga que existem não ficam paradas a lamentar a perda de mercado: criam novas drogas, quer derivadas de produtos naturais ou puramente sintéticas e altamente concentradas.

O problema é que a máquina produtiva e logística da droga já revelou várias vezes que não tenciona desaparecer e tem procurado e encontrado novas substâncias para traficar e com as quais lucrar, o que em última análise significa uma de duas coisas. Ou a liberalização como forma de combater o tráfico será sempre ineficaz, pois por cada droga legalizada aparecerá outra nova ilegal para concorrer e redirecionar o consumo para as novas drogas; ou efetivamente o fim do tráfico chegará quando se regular e permitir o consumo de um conjunto mais vasto de drogas para que, dessa forma, se evite que as novidades criadas pelos traficantes sejam apelativas.

E neste caso, as questões a resolver passariam a ser: 1 – quais a drogas a legalizar; 2 – como evitar que as novidades sejam mais interessantes que as legais, da mesma forma que as atuais drogas ilegais são mais interessantes que o álcool e tabaco; 3 – e como impedir que as redes logísticas montadas para o tráfico de droga se virem para outros “produtos”, como as armas, o tráfico humano, etc. etc.,.

A liberalização da canábis até poderá acontecer em muitos mais países, por se chegar á conclusão que não é pior para a saúde que o álcool; contudo, o permitir o consumo recreativo de algumas drogas nunca pode ser visto como uma solução para inverter os elevados consumos (os dados do SICAD demonstram isso na comparação entre o álcool e as drogas) e muito menos como uma forma de acabar com o tráfico e com a violência associada.

05/02/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

E A AUTONOMIA COMO FICA?

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES E A AUTONOMIA COMO FICA?

 

A Assembleia da República recomendou ao Governo da República que incluísse no Plano Nacional de Investimentos em infraestruturas (a concretizar no período de 2021 a 2030) cinco investimentos nos Açores. Os investimentos nos Açores são a substituição dos cabos de fibra ótica, que ligam Açores, Madeira e Continente, a ampliação da pista do aeroporto da Horta, a ampliação da placa de estacionamento C no aeroporto das Lajes, a construção do terminal de passageiros no porto de São Roque do Pico e a construção de um cais para graneis sólidos no porto de Ponta Delgada.

Há, desde logo, um investimento neste lote que não pode ser visto como um investimento de os Açores ou para os Açores: a ligação de fibra ótica é um acesso básico de comunicações que o Estado português não pode deixar de fazer, para manter o país ligado e com um mínimo de coesão. A ligação de fibra ótica já existe, aliás, e já funciona há anos, entre Açores e Continente e Madeira, e entre as ilhas dos Açores, sendo que a sua vida útil está a chegar ao fim (os prazos de vida útil desta ligações começam a acabar em 2023), pelo que este é um investimento de manutenção e não uma coisa nova. Por essa razão, é aproveitamento político e claramente abusivo anunciar isso como um investimento novo, quando efetivamente já se sabia que a renovação dos cabos teria quer ser feita, como no passado se fazia a renovação de outros meios de comunicação.

Quanto aos outros investimentos, são referidos como importantes por serem reclamados há muito por diversos sectores da economia e da política regional, o que é verdade. Também é verdade que outros investimentos, e exemplificarei com três, que são a plataforma logística e a instalação de um bunker de GNL (gás natural liquefeito) no porto da Praia da Vitória, e a nova cadeia de Ponta Delgada, são ignorados neste rol de recomendações da Assembleia ao Governo da República. Isto significa que houve opções e escolhas feitas na Assembleia da República em relação aos investimentos prioritários para a Região, o que faz com que a lista fique ainda mais estranha, na medida em que este Governo da República veio aos Açores anunciar o investimento no armazenamento e distribuição de GNL na Praia da Vitória a e nova cadeia de Ponta Delgada.

Apesar de considerar que estes investimentos são, efetivamente, importantes, não se percebe bem quais os critérios da Assembleia da República para os definir. Houve algum entendimento multi-partidário? Foram os cinco deputados eleitos pelos Açores que tomaram este em assunto em mãos? Foi o parlamento regional que aconselhou a Assembleia da República? Obviamente que existiram consultas, como foi referido nas notícias sobre esta recomendação, às câmaras municipais locais e ao Governo Regional, mas há uma questão mais profunda que necessita de clarificação.

Estes investimentos são aquilo que a Republica vê como prioritário para os Açores ou são as prioridades que os Açores querem ver financiadas pela República? Ou são um misto de ambos, onde, com algum oportunismo, se misturam a manutenção e substituição de investimentos já feitos com alguns novos?

A Autonomia não isenta o Estado, através dos órgãos da República, de investir e prestar serviços aos cidadãos nos Açores – o cabo de fibra ótica é um desses exemplos. Contudo, outros investimentos, mais relacionados com competências da Autonomia dos Açores – como os investimentos nos portos de São Roque e de Ponta Delgada – não podem ser forçados como prioridade para os Açores, se não são efetivamente prioridades da Região, definidas claramente como tal pelos seus órgãos políticos competentes.

É que, sendo o investimento bem-vindo, não pode deixar a Autonomia numa situação ambígua ou fragilizada, em que os investimentos são propostos e impostos pela República.

Aproveito para informar os ouvintes da 105fm que irei interromper estas opiniões durante uns dias, esperando estar de volta na vossa companhia em outubro.

27/08/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

CADA VEZ MAIS UM CENTRO DO AR

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES CADA VEZ MAIS UM CENTRO DO AR

 

O Air Centre prometia muito. Prometia, desde logo uma tarefa quiçá ingrata, mas que estaria na base da sua génese. Quando foi anunciado, estava destinado a ser uma das grandes medidas para compensar os efeitos na economia terceirense (e açoriana) da redução efetivo militar americano nas Lajes. Começou por se chamar Air Center, com a palavra Center escrita na grafia do Inglês dos Estados Unidos. Mas rapidamente, antes até de funcionar, o nome foi mudado para Air Centre (adotando a grafia do Inglês Europeu), gesto que só pode ter uma leitura: foi para quebrar a anunciada ligação entre este centro de investigação e as quebras económicas provocada pela redução nas Lajes, pois até a embaixada dos EUA em Lisboa se referiu ao AIR Center como contrapartida pela redução. Até o discurso oficial sobre o mesmo mudou: começou por ser algo que iria beneficiar a Terceira, evoluindo para algo que iria beneficiar os Açores e agora é algo para o País.

Sem abrir portas na Terceira, o Air Centre valeu logo à cabeça 64 milhões de euros e um supercomputador. O computador, com todos os técnicos para usá-lo e mantê-lo em funcionamento, foi para universidade do Minho. Os 64 milhões foram divididos entre os pobres e necessitados centros de investigação das universidades de MIT, Carnegie Melon e Texas Univesity, nos Estados Unidos, e o centro de supercomputação de Barcelona e a Sociedade Fraunhofer na Europa. Para os Açores ficou a promessa de eventualmente alguns administrativos, na sede a localizar na Terceira, nalgum espaço cedido pela Câmara da Praia da Vitória.

Agora, ainda sem dar qualquer fruto conhecido nos Açores, e muito menos na Terceira, o Air Centre vai abrir dois polos no Brasil: um no Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, e outro no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, em Salvador.

Esta expansão é sinal que o Air Centre está a funcionar e fazer o seu percurso. E é isso que é preocupante, porque quando foi anunciado era para ser a chave para acabar com os males da economia da Terceira provocados pela redução das tropas americanas nas Lajes.

Este projeto até pode vir a ser algo de muito útil, para o País e para a Região. Não pode é ser aceite nem anunciado como contrapartida do impacto na economia da redução militar da Base das Lajes (são cerca de 100 milhões de euros por ano a menos que entram na economia da Terceira e dos Açores). E ao ser anunciado como tal, pelo ex-embaixador norte-americano em Portugal, criou expectativas (e exigências) em relação ao seu funcionamento, às contrapartidas, aos impactos económicos e sociais imediatos e de longo prazo, às suas valências e aos locais aonde ficarão instaladas essas valências. O que hoje se percebe é que nenhuma das expectativas criadas será cumprida.

Eventualmente, poderão existir alguns benefícios novos trazidos à região, nas áreas científicas, por este Air Centre. Até agora, os potenciais benefícios anunciados resultam apenas da agregação no Air Centre de outros programas de investigação científicos, ou seja, de se englobar neste centro outras coisas em curso e que iriam ocorrer na mesma sem o Air Centre.

Já o disse, mas repito: por si só, este Air Centre até poderá ser algo interessante a médio e longo prazo, se, e sublinho se, começar a criar algo nos Açores e a deixar cá conhecimento, o que até agora não aconteceu.

Como alegada contrapartida pela redução nas Lajes e como um benefício direto à economia dos Açores, mesmo num horizonte de 10 anos, infelizmente cada vez mais se confirma a suspeita que é apenas um Centro de Ar: porque só fica cá o ar quente, das conversas e das promessas ocas.

20/08/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

DESCREDIBILIZAR A LEI

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES DESCREDIBILIZAR A LEI

 

A dificuldade em lidar com contrariedades é já uma imagem de marca do Governo de geringonça. Tem-se visto isso em diversos momentos negros da governação de António Costa. Nos incêndios fatais a negação foi a palavra de ordem: o Governo entrou em negação, recusando-se a acreditar que os problemas surgidos no combate aos incêndios eram causados pela má organização e má administração, insistindo que resultavam apenas de má sorte. Mas os anos seguintes comprovaram, novamente, que o caos no combate aos incêndios não era devido má sorte, mas a má governação.

É escandaloso que, nalgumas situações, o Governo tente encontrar desculpas, desvios e outras formas de contornar a lei. Nas últimas semanas o Governo da geringonça teve o descaramento de tentar contornar a lei por duas vezes, em casos altamente mediáticos e à vista de todos.

O primeiro caso foi perante as incompatibilidades detetadas, por causa de empresas que fizeram negócio com o estado, estando ligadas ou a titulares de cargos políticos ou a parentes próximos deles. A lei é bem clara no que proíbe: as empresas do próprio, cônjuge, ascendentes e descendentes em qualquer grau e colaterais até ao 2º grau estão impedidas de fornecer ao “Estado e demais pessoas colectivas públicas.” Ora isto significa que se alguém tiver um parente próximo nas posições de poder do Estado, definidas na lei, a sua empresa também fica impedida de fazer negócios com o Estado todo, incluindo universidades, organismos autónomas, autarquias, etc..

Mesmo sendo ridícula esta premissa da lei, (as pessoas não são corruptas só por serem parentes e sobretudo em áreas públicas nas quais não têm qualquer interferência) o facto é que está em vigor desde 1993 e já foi sujeita a várias alterações. O primeiro-ministro António Costa terá mexido na lei em 1996 sem alterar este preceito. Por isso, não pode agora vir pedir aos tribunais ou ao ministério público que altere ou interprete o sentido do legislador, quando o legislador nunca quis dar outra letra à lei. Não pode agora o Governo da Gerigonça vir pedir pareceres e decisões para justificar desobedecer à lei. Que peça à Assembleia para alterar a lei.

Atitude semelhante tem tido o Governo do PS em relação à greve dos motoristas de matérias perigosas. Legitimamente tem pressionado os grevistas com o uso da lei: concretamente com os serviços mínimos decretados e com a possibilidade da requisição civil. Contudo, o tom da pressão que tem exercido e até os meios não são compatíveis com quem respeita a greve, na teoria e na prática. O tipo de agressividade com que o Governo da gerigonça se atira à greve e aos grevistas espanta, por ser de um partido de esquerda, que tradicionalmente tem uma visão dogmática do direito à greve e que está amarrado aos aliados da extrema-esquerda, especialmente o PCP, que, como é sabido, tem muita influência na frente sindical. O discurso anti-greve não espantaria nos partidos mais à direita, que sempre tiveram uma visão mais pragmática e mais flexível em relação ao direito à greve, e, especialmente, em relação à necessidade de se equilibrar esse direito com outros do lado das entidades patronais.

Mais uma vez, este comportamento é inaceitável, pois se a lei da greve está como está, isso deve-se, efetivamente, ao PS, por não se alinhar com os partidos à direita para alterar a legislação.

Ora, não é nem credível nem aceitável que um Governo tente por meios paralelos desvirtuar a letra da lei, com interpretações descabidas, ou com pareceres ou decisões, quando sempre teve tudo na mão para, por iniciativa própria ou pedindo à Assembleia da República, alterar a lei em causa.

Estas atitudes são um atentado ao Estado de direito, agravado por vir da entidade que mais deveria fazer para o proteger.

13/08/2019
Nuno Melo Alves

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