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Nuno Melo

LUGARES COMUNS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES LUGARES COMUNS

 

Como estou com a voz assim esta nota será mais curta e como a geringonça quer discutir a lei de bases da saúde nacional, aproveito para que seja sobre a saúde, essencialmente lugares comuns sobre a saúde. Dizem que a saúde não tem preço. É verdade, especialmente para quem não pode pagar os tratamentos para as suas maleitas, mas também porque a saúde escapa mesmo aos ricos. Mas lá por não ter preço não quer dizer que não tenha custos.

Ou melhor, lá por não se conseguir pôr um preço na saúde, como não se consegue pôr numa vida, não quer dizer que não se consiga pôr preço nos tratamentos e medicamentos que melhoram a saúde e prolongam a vida, pois estes tiveram custos de desenvolvimento e custos de produção e custos de formação do pessoal especializado.

Por isso a saúde não tem preço, mas os sistemas de saúde têm. Têm custos, e esses custos são elevados e geralmente conhecidos, mesmo quando politicamente se decide que a saúde não tem preço para o utente dos serviços de saúde e se inscreve na Constituição que a saúde (entenda-se os cuidados de saúde) é gratuita.

É por isso, por a saúde não ter preço mas o seu cuidado ter custos elevadíssimos, que os sistemas públicos de saúde tendem a falhar. Não conseguem equilibrar as receitas com os custos, e acabam por degradar a qualidade dos serviços prestados. E começam a ter a necessidade de reduzir custos, para fazer face à insuficiência de receitas, o que pode levar a mais degradação na prestação do serviço.

A saúde, de facto, não tem preço. Mas isso não pode ser o lema de um serviço público de saúde, sob pena de falhar e possivelmente falir, ou, absorver uma quantidade enorme, quase impossível, de recursos públicos.

Espero que a geringonça consiga libertar-se das amarras ideológicas e procurar um melhor modelo de saúde pública, devidamente financiado e estruturado. E que até pode ser gratuito para o utente. Não pode é continuar a ser financiado, subfinanciado, da mesma maneira, nem organizado, desorganizado, da mesma maneira: já se viu que não funciona.

Até para a semana, quando espero já ter recuperado a voz.

29/01/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

BUROCRACIAS E SUFOCO DO ESTADO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES BUROCRACIAS E SUFOCO DO ESTADO

 

A recente confirmação que as Finanças têm, efetivamente, uma equipa até agora mantida secreta, que vigia os contribuintes suspeitos de crime fiscal, vem revelar aquilo que cada vez mais se sente. O Estado português, cada vez mais envolve os cidadãos numa teia de procedimentos e burocracias, e de sufoco fiscalizador, penalizando a atividade económica e, por vezes, agindo de formas que podem estar fora da lei.

Este caso, da equipa formada na Direção de Finanças do Porto, para espiar os contribuintes, e o caso recente da operação stop destinada a encontrar devedores ao fisco, são casos de abusos de poder. Só falta um cidadão ser parado aleatoriamente na rua e ter que ali, perante as autoridades, fazer prova de que tem tudo regularizado.
Se, por um lado, a evolução tecnológica permitiu a desmaterialização de alguns procedimentos, isso não fez com exista menos burocracia: apenas mudou a forma como é concretizada e como o cidadão lida com o Estado. O caso mais emblemático é a obrigação dos cidadãos terem de entregar o IRS pela internet. Sendo uma medida interessante, porque facilitadora, torna-se numa medida opressiva pela obrigação quanto à forma.

Muitas das imposições burocráticas vêm da União Europeia. Hoje em dia, devido aos problemas ocorridos na banca, e devido ao aumento exponencial, e excessivo, a meu ver, de medidas de controlo sobre branqueamento de capitais, sobre os clientes politicamente expostos, etc., os bancos já tiveram que criar departamentos centrais para puderem cumprir com todas as complexas e morosas exigências. As pessoas e as empresas sofrem com isso, pois os serviços bancários ficam mais caros, porque aumenta a burocracia e complexidade dos processos, e também porque perdem muito mais tempo com o seu tratamento.

Ao mesmo tempo, a fiscalização e controlo tornam-se mais difíceis, complexas e caras. E, ironicamente, eu suspeito que, se calhar, também são menos eficazes.

A questão que se levanta, é de saber porque é que o Estado, que tem ao seu dispor meios enormes, que tem acesso à justiça, que tem meios desequilibrados perante os contribuintes e perante quem comete infrações contra o Estado, sente que ainda tem que ir mais longe e recorrer a métodos persecutórios. É a descrença no funcionamento das suas instituições? É porque chegou à conclusão que não consegue fazer cumprir a lei? É porque a máquina administrativa do Estado entende que o cidadão é que serve o Estado e não contrário? É porque o Estado entende que existem demasiados entraves ao funcionar da justiça?

O absurdo disto é que o Estado, através dos seus órgãos políticos, pode e deve mudar. Será que os órgãos políticos não conseguem ver que estão a transformar o Estado numa máquina de processos “kafkianos”?

25/06/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

AINDA AS MÁS PROPOSTAS DE VASCO CORDEIRO PARA COMBATER A ABSTENÇÃO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES AINDA AS MÁS PROPOSTAS DE VASCO CORDEIRO PARA COMBATER A ABSTENÇÃO

 

Já apontei as razões da minha discordância em relação a algumas das propostas feitas pelo Presidente do Governo Regional para reduzir a abstenção. Como disse, não gostei de nenhuma delas, por diversas razões. Contudo, há uma que poderia ser interessante, à primeira vista, e que é a de envolver as escolas e os alunos na formação cívica e dessa forma contribuir para que no futuro sejam cidadãos mais participativos e eleitores que votam.

Vasco Cordeiro propõe uma comissão para criar conteúdos para levar aos alunos do 10º ao 12º ano e ensino profissional. Propõe ainda que os partidos com assento parlamentar participem nessa campanha de divulgação do voto e que, passo a citar “Indo a todas as escolas, recorrendo a meios tecnológicos apelativos, persistente no tempo e consistente nos conteúdos, uma campanha que, na prática, inculque, nesta fase decisiva da formação pessoal de cada jovem, valores democráticos e cívicos que se possam refletir, no futuro, em cidadãos mais participativos e esclarecidos.” Fim de citação.

Ou seja, o Presidente do Governo Regional quer que essa comissão e os partidos se metam terra dentro nas escolas, interrompendo o normal funcionamento letivo e evangelizando os jovens ao voto e a valores que são os dos políticos e dos partidos, sendo supostamente democráticos.

Caso haja alguém distraído, os Açores definem o currículo regional dado nas escolas. Seria preferível a todos os níveis, e começando mais cedo do que os anos ora propostos, criar-se uma disciplina de formação política institucional, cujos conteúdos seriam em parte ciência política e em parte o ensinar e dar a conhecer o funcionamento institucional dos mecanismos de governação nacionais e regionais. A meu ver, uma disciplina desta natureza deveria até ser obrigatória a nível nacional.

Só conhecendo, pelo menos minimamente, os processos políticos e eleitorais é que se podem retirar as falsas ilusões aos eleitores e desmitificar as falsas mensagens dos políticos, e desde logo a maior mentira de todas nos Açores: a de que alguém se candidata a presidente do governo regional. Formar, sem influenciar partidariamente, dando a conhecer as instituições, para que os futuros cidadãos adultos saibam o verdadeiro alcance do seu voto e também possam saber reivindicar as mudanças de sistema que possam querer. Formar e ensinar, sem impor valores ou julgar.

Na primeira das notas que escrevi sobre a abstenção defendi que o desconhecimento sobre o sistema político e eleitoral é um dos principais fatores de desilusão dos eleitores, que criam expectativas erradas e acabam a por ser manipulados pelos políticos. A formação em ciência política concreta ajuda a evitar isso, tal com saber matemática ajuda a evitar serem enganados nas contas.

Se o Presidente do Governo Regional tivesse proposto este tipo de formação escolar, sem envolver os partidos ou elementos externos à escola, teria o meu apoio. Estas medidas parecem apenas formas de enganar, manipular e desviar a atenção dos verdadeiros problemas. Em suma, parecem medidas desesperadas dos políticas a tentarem justificar a sua existência e importância aos mais jovens, sem qualquer pudor ou neutralidade.

Assim sendo, antes a abstenção que estas medidas de coerção e manipulação. A democracia é demasiado importante para se desrespeitar e descredibilizar a abstenção.

18/06/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

AS MÁS PROPOSTAS DE VASCO CORDEIRO PARA COMBATER A ABSTENÇÃO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES ABSTENÇÃO E CASO PRÁTICO DAS EUROPEIAS...

 

Ontem, no decorrer das comemorações do Dia da Região Autónoma dos Açores, e na esteira da elevada abstenção nas eleições europeias, o Presidente do Governo Regional decidiu avançar com propostas para reduzir a abstenção. Não gostei de nenhuma delas, por diversas razões. Desde logo, porque parecem ignorar as principais conclusões do estudo recente sobre a abstenção, que demonstram que 90% dos eleitores culpam os políticos, ao pôr-se o ónus da abstenção nos eleitores que não votam e não nos políticos.

Vasco Cordeiro diz que não propõe castigos para quem não vota, mas benefícios para quem tiver um “histórico de participação eleitoral”. A valorização dos cidadãos com bom histórico eleitoral “pode acontecer nas mais variadas componentes de intervenção do Estado ou dos serviços que o mesmo presta, desde a área fiscal à área social”, propôs o Presidente do Governo Regional. Esquece-se, porém, que quando se discrimina positivamente alguém está-se a discriminar negativamente os outros, que não cumprem este critério. Por isso, está-se efetivamente e na prática, a punir a abstenção, que é um direito tão legítimo quanto o voto.

A terceira razão contra esta proposta, é que fica a centímetros de indicar o sentido de voto: primeiro, vem o indicar que deve votar; depois a fiscalização do cumprimento dessa “obrigação”. Falta pouco para dar a indicação de voto também. Até parece que já não existem cunhas partidárias demasiadas, para que o Estado dê mais benesses a alguns, mesmo que sejam para premiar “a relevância de um histórico de participação cívica na vida democrática pelo cumprimento do dever de votar”, como disse Vasco Cordeiro. Votar não é um dever, é um direito. A quarta razão pela qual eu desconfio desta proposta é que, ao contrário do que disse durante a sua epifania o Presidente Vasco Cordeiro, pode existir um histórico de “participação cívica” sem ser na vida política, e pode haver um histórico de participação na vida democrática que não se mede apenas ou tão pouco pela votação. Um membro da junta da sua freguesia que vota nulo ou branco em quase todas as eleições, tem menos participação cívica que alguém que, como um cordeirinho, vai por a cruz sempre no seu partido, mesmo sem conhecer os candidatos?

Estas questões são muito mais complexas do que apenas obrigar a votar, por castigos ou incentivos. Como também são mais complexas do que ir pelo discurso fácil e corrosivo de se culpar os políticos por tudo e por nada. Compete, porém, aos políticos, que têm ambas as mãos no poder (e, infelizmente, às vezes o poder no bolso) perceber onde estão os problemas ou erros de perceção dos eleitores, que levam a que 90% culpem os políticos pela abstenção. Assim, compete aos políticos perceber o que vai mal no sistema eleitoral, no afastamento das pessoas e encontrar as soluções que invertam isso. É um mau serviço à democracia fazer o oposto: fingir que o problema está no Povo – que é o Soberano – para esconder que o Povo não se revê no sistema político ou nos políticos que o representam.

Outra péssima proposta feita por Vasco Cordeiro é a de colocar todas as propostas de decreto regional ou regulamentar regional a audição pública generalizada. Esta proposta é má por duas razões. Primeiro, um governo legitimado para governar, não tem que ser micro-gerido pelos seus eleitores: ou bem que se sente politicamente legitimado pela votação ou então não deveria lá estar. Querer legitimar as propostas, de um governo no qual o Povo não se revê, com a consulta pública não faz sentido, mesmo sendo uma obrigação legal. Segundo, a obrigação legal das propostas serem precedidas de consulta pública ou pareceres de interessados é descrebilizadora dos votos concretizados, na medida em que pode suceder que a consulta pública aponte um rumo diferente daquele que o candidato apresentou em campanha e que levou a que fosse eleito.

Infelizmente, parece que os políticos nada aprenderam com os resultados do estudo sobre a abstenção: persistem no mesmo erro de culpar os cidadãos eleitores pela abstenção, fingindo que a culpa não está noutro lado.

11/06/2019
Nuno Melo Alves

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