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Pedro Gomes

UM PAÍS, DOIS PRESIDENTES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES UM PAÍS, DOIS PRESIDENTES

 

Na Venezuela, a crise política juntou-se à crise económica.

As últimas eleições, de Maio de 2018, que reelegeram Maduro, não foram reconhecidas pela União Europeia nem pela generalidade dos países da comunidade internacional.

A deriva autoritária na Venezuela arrastou o país para o declínio económico, para a pobreza generalizada e para um crescente antagonismo entre Nicolás Maduro e a oposição democrática, que venceu as eleições para a Assembleia Nacional, progressivamente esvaziada de poderes pelo regime, que a substituiu por uma Assembleia Nacional Constituinte, de partido único, que assumiu funções legislativas.

Sim, é preciso recordar com todas as letras que a Venezuela já não é – há vários anos – um Estado democrático, mas uma ditadura.

Juan Guaidó, Presidente da Assembleia Nacional, proclamou-se Presidente da Venezuela, desafiando abertamente o regime ditatorial, num acto político que leva mais longe a luta de toda a aposição democrática, que reclama a realização de eleições livres.

O imediato reconhecimento de Guaidó como Presidente da Venezuela, por parte dos Estados Unidos da América, Brasil, Canadá, a maior parte dos países da América Latina ou da pela União Europeia, demonstra o crescente isolamento internacional de Nicolás Maduro, internamente apoiado pelas forças armadas, que já lhe declararam lealdade.

O perigo de uma guerra civil é muito elevado, pois o regime não hesitará em recorrer à força das armas para conter o movimento oposicionista que exige eleições livres, tal como a generalidade da comunidade internacional.

Os venezuelanos têm direito à realização de eleições livres que lhes permitam escolher um presidente e um governo que garanta a protecção dos direitos fundamentais dos cidadãos e arranque o país de uma perigosa espiral de pobreza, acentuada desde que Maduro sucedeu a Hugo Chávez.

Pedro Gomes
26JAN2019 – 105 FM

Pedro Gomes

FALAR DE LIBERDADE, OLHAR O FUTURO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES FALAR DE LIBERDADE, OLHAR O FUTURO

 

Quarenta e cinco anos depois daquele dia em que a democracia e a liberdade foram devolvidas aos portugueses pelos militares de Abril, celebramos a consolidação do regime democrático e das suas instituições.

Em quase meio século, a sociedade portuguesa mudou muito em todos os aspectos: Portugal abriu-se ao mundo, modernizou-se, cresceu económica e socialmente. O país é menos pobre, mais coeso e solidário do que era em 1974, muito embora estejamos longe de atingir um grau de desenvolvimento que nos coloque na linha da frente dos outros membros da União Europeia.

Os desejos, ambições e aspirações dos portugueses são hoje diferentes do que eram há quarenta e cinco anos atrás e os partidos políticos, a classe política e o Governo, têm de dar novas respostas a estes novos desejos que marcam o tempo em que vivemos.

O século XXI – com toda a complexidade nas relações entre Estados que alteram a ordem internacional, com os novos problemas suscitados pelo fracasso de um certo tipo de capitalismo que provoca crises económicas e sociais de carácter pandémico, com a desvalorização da dignidade do trabalho e da pessoa humana – coloca novos desafios, para os quais os partidos tradicionais e os quadros de análise habituais já não dão resposta.

Celebrar o espírito refundador do 25 de Abril de 1974, agora no século XXI, passa por compreender estes novos fenómenos, encontrar as respostas adequadas, especialmente as destinadas à geração mais jovem, mais qualificada do que outras gerações, com dificuldade em encontrar um emprego adequado, mais preocupada com o ambiente, mais solidária nas relações com os outros, mais exigente na avaliação dos comportamentos dos políticos e das instituições políticas.

Responder bem aos mais jovens, ir de encontro às suas preocupações e motivações, exige uma mudança de atitude da classe política e uma reforma dos partidos políticos tradicionais.

Não há democracia sem partidos, mas nem sempre a forma dos partidos responderem às pretensões dos cidadãos é a mais adequada a cada tempo.

Vivemos um tempo em que os sinais de que as respostas que os partidos tradicionais dão, já são insatisfatórias para os cidadãos, especialmente para os jovens, que são a faixa mais dinâmica da sociedade.

Garantir a liberdade e fortalecer a democracia exige uma mudança de conduta política.

Pedro Gomes
26ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

TEMPO DOS LILASES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES TEMPO DOS LILASES

 

Estamos no tempo de vésperas, em Sexta-Feira Santa.

No mês da Páscoa, o tempo tem outro sentido.

A morte e ressurreição de Jesus Cristo tem o significado de compromisso com os homens de boa vontade, crentes ou não crentes.

Nas celebrações da Páscoa, que se repetem há dois mil anos, os rituais renovam-se a cada ano. Mudamos com o tempo e a nossa relação com a vida também se altera. Como ensinou Heraclito, nunca nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio.

O tempo pascal é um tempo de passagem. Não apenas da passagem da morte à vida, mas da renovação da vida.
Renovação dos gestos, das atitudes, do desejo e da vontade.

A celebração da morte do Senhor, com a igreja em silêncio, os altares despidos, o despojamento, convida ao recolhimento interior.

Na sua vida, Jesus manteve sempre o contacto com o povo: crianças e idosos, ricos ou pobres, proscritos e poderosos, todos foram recebidos.

Na cruz em que morre, Jesus continua a atrair: o centurião, ladrões, verónicas.

Para todos, o filho de Deus tem uma palavra de acolhimento, de ternura, de compaixão. Ninguém é excluído. Ninguém fica para trás. Ninguém é insignificante.

Numa época de relativismo dos valores, do abandono de princípios em favor do utilitarismo, da desvalorização do homem e da sua condição humana, de descrença generalizada, a mensagem de Jesus mantém-se actual. Amar continua a ser o mandamento essencial. Pelo amor, tudo muda, tudo se transforma.

O amor incondicional, sem barreiras, sem constrangimentos. O amor que acolhe, aceita e perdoa. O amor que é sinónimo de misericórdia.

Nos versos de Juan Vicente Piqueras, “não fujas do que sentes. Não permitas/ que a vida se perca no vazio,/que a morte ao chegar encontre/já feito o seu trabalho”.

É quanto baste.
Uma Santa Páscoa.

Pedro Gomes
19ABR2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

A LUZ QUE SE ESCONDE

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES A LUZ QUE SE ESCONDE

 

O mundo viu, pela primeira vez, imagens de um buraco negro supermaciço, no centro da galáxia M87. Os nossos olhos espantados contemplaram, esta semana, fotografias inesquecíveis: um objecto cósmico, com uma massa enorme, a 54 milhões de anos-luz do nosso planeta, estava ali, desafiando os sentidos.

Os buracos negros apaixonam a opinião pública desde sempre, convocando a imaginação e contrariando o senso comum.

Um buraco negro forma-se quando a matéria entra em colapso sobre si mesma. A sua densidade é tão elevada, que atrai a matéria e a luz para o seu interior. Como escreveu Carl Sagan, no seu livro Cosmos, “quando a gravidade for suficientemente elevada, nada, nem sequer a luz consegue sair. A um sítio como esse chama-se buraco negro”.

A presença dum buraco negro afecta tudo à sua volta, alterando a dimensão espaço-tempo. Um buraco negro é uma espécie de abismo no espaço, que não conseguimos observar, pois não emite luz, muito embora a sua sombra possa ser vista, como a fotografia do Event Horizon Telescope revela.

A fotografia é espantosa: um radioso anel de luz a expulsar o negrume do aparente vazio. A imagem desperta sentimentos contraditórios: atraídos pela luz, quase nos esquecemos da força poderosa do buraco negro. Diante de nós, está o indizível, que apenas pertencia ao mundo imaginado e às conjecturas dos astrónomos.

Como disse Sheperd Doeleman, Director do projecto Event Horizon Telescope, “vimos o que se pensava ser invisível”.

Os buracos negros estão muito longe da terra. Não passam de pontos no espaço, que nem conseguimos identificar a olho nu, mas o seu mistério é imenso. No imaginário do espaço e da astronomia, os buracos negros são uma viagem para Ítaca.

A primeira fotografia de um buraco negro prova que as capacidades humanas vencem todos os obstáculos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis. Depois, de há três anos, termos podido escutar sons dos buracos negros, agora temos o privilégio de ver um. A dimensão dos buracos negros e o que ainda não sabemos sobre a sua existência recorda a nossa pequenez na vastidão cósmica e a inquietude sobre o nosso lugar no universo: seremos únicos e especiais?

Não sabemos.

Pedro Gomes
12ABR2019 – 105 FM

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