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Paulo Casaca

AGRICULTURA BIOLÓGICA NO SIKKIM

Paulo Casaca

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PAULO CASACA AGRICULTURA BIOLÓGICA NO SIKKIM

 

Situado entre o Nepal, o Tibete, o Butão e a região indiana de Darjeeling num contraforte dos Himalaias, o Sikkim, um dos muitos Estados que subsistiu em semi-independência sob dominação britânica, aderiu em 1975 à União Indiana.

Tendo passado em menos de cinco décadas de 200.000 a quase 800.000 habitantes, consequência em larga medida da forte emigração, o Sikkim confronta-se com problemas de desenvolvimento comuns à generalidade das regiões e países vizinhos.

Dirigido há mais de duas décadas pelo mesmo presidente de governo, o Sikkim tem feito dos temas ambientais o nó górdio das suas políticas, seja na preservação das florestas, fortíssima limitação à caça e ao pastoreio, obrigatoriedade de educação ambiental nas escolas primárias e maciças campanhas de sanitização e de combate à deposição selvagem do lixo.

Em 2003, o Estado declarou como objectivo a sua conversão total à agricultura biológica, conversão certificada em 2016 e reconhecida como exemplar pelo Primeiro-ministro indiano Narandra Modi e por diversas instituições internacionais.

É a primeira vez que uma região inteira adere à agricultura biológica, sendo que, como me explicaram os responsáveis do Ministério da Agricultura com quem debati a questão, se trabalha agora na extensão dessa decisão à pecuária.

O impacto local, nacional e internacional desta medida tem sido notável, com outros Estados e regiões nos Himalaias a mostrar-se interessados em seguir o Sikkim, investimentos de empresas farmacêuticas para utilização de especiarias e contratos passados por empresas de países como a Coreia do Sul para abastecimento em hortícolas.

O maior e mais imediato impacto económico desta conversão total à agricultura biológica terá no entanto sido no turismo, com o número de turistas a ser multiplicado por três em pouco mais de dois anos.

A experiência do Sikkim não é naturalmente passível de simples transposição para o resto do mundo, e o Estado é ainda muito carente em numerosos domínios do desenvolvimento integrado, mas é uma experiência incontornável para todos, nomeadamente para a realidade agrícola europeia.

Ranipool, Sikkim, 2019-01-14
Paulo Casaca

Paulo Casaca

DO OUTRO LADO DO RIO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA DO OUTRO LADO DO RIO

 

Em Setembro, quando viajei de Chitagong até aos imensos campos de refugiados que se estendem ao longo da margem direita do rio Naf na fronteira do Bangladesh com a Birmânia, passando pela zona sob controlo militar tradicionalmente habitada pelos Chakma, logo pensei em ver a realidade da outra margem do rio.

Os intensos combates que se têm desenvolvido nos últimos dias na zona inviabilizaram a ideia, tendo eu no entanto aproveitado a minha presença em Myanmar, nome por que hoje é mais conhecida a Birmânia, para ouvir os pontos de vista de vários importantes actores birmaneses sobre o conflito.

Myanmar, depois do golpe militar de 1962, realizado em nome de um ‘socialismo’ que faz pensar na Venezuela dos nossos dias, tornou-se num dos mais despóticos e subdesenvolvidos países asiáticos, situação de que está agora apenas lentamente a emergir com um sistema político híbrido feito de equilíbrios entre militares e líderes eleitos.

Como frequentemente acontece nestes casos, os problemas têm raízes históricas profundas, mas a história é mais utilizada como instrumento para inviabilizar um futuro diferente do que como meio de perceber melhor que soluções existem para melhorar o presente.

O ponto de partida é que nem no vocabulário se consegue entendimento; preferindo uma parte o termo de Arakan, inspirado no Aracão utilizado pelos descobridores portugueses para designar a região e outra parte o Rhakine, inspirado no que se pensa ser a forma como seriam designados os primitivos habitantes da região; enquanto os refugiados no Bangladesh se consideram como rohingyas, mas são denominados de bengalis.

Na sociedade civil, há líderes religiosos que são parte do problema, talvez mesmo a parte essencial do problema, mas há outros que procuram soluções baseadas na santidade da vida humana, e é para estes últimos que agora viro as minhas intenções.

Creio que é tempo de os ouvir e de abrir novos caminhos para a forma de encontrar soluções sustentáveis para os tremendos problemas humanos que enfrentamos.

Yangon, 2019-02-13
Paulo Casaca

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REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

 

O Movimento para a ‘Vida Rural’ iniciado nos EUA no último quartel do século XIX deu lugar à ‘Comissão para a Vida Rural’ instaurada em 1908 pelo Presidente Theodore Roosevelt, comissão que pode ser considerada a primeira instituição moderna vocacionada para a promoção do desenvolvimento rural.

Depois dos EUA, tivemos a Índia e a Europa, e mais recentemente o movimento generalizou-se através do mundo, utilizando instrumentos muito diversos que mantiveram contudo a mesma preocupação central de permitir ao mundo rural níveis de desenvolvimento equiparáveis aos disponibilizados em meio urbano.

Na União Europeia, a política de desenvolvimento rural foi protagonizada pelo programa ‘Leader’ cuja primeira edição data de 1991 como uma forma mais eficaz de promover o rendimento da população rural do que a política de intervenção nos preços agrícolas.

Na sua proposta de orçamento plurianual para 2021-2027 o desenvolvimento rural é a grande rubrica orçamental que sofre os maiores cortes, com a Comissão a propor uma redução de 28%, que poderá ser parcialmente compensada com decisões dos Estados de alimentar esse orçamento diminuindo as subvenções directas à agricultura, possibilidade essa que me parece no entanto pouco realista.

Creio que a secundarização do mundo rural pelas instâncias europeias é um erro crasso que contribui mais ainda para o seu afastamento das preocupações dos cidadãos e não é alheio ao profundo descontentamento rural sentido em países como a França.

Curiosamente, o desenvolvimento rural que a União Europeia agora quer abandonar está a ser impulsionado com novas valências no Sul e sudeste asiático, com organizações de desenvolvimento rural do Nepal à Birmânia a equacioná-lo também como instrumento transfronteiriço de diálogo e de paz.

É talvez uma questão a ter em conta nas eleições europeias que se aproximam.

Bruxelas, 2019-02-06
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

PORTUGAL E A VENEZUELA

Paulo Casaca

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PAULO CASACA PORTUGAL E A VENEZUELA

 

A chegada de forças russas à Venezuela – que se juntam às da milícia do Hezbollah libanês e às forças cubanas que suportam o regime – pode mergulhar num banho de sangue a revolta popular contra a ditadura e pelo restabelecimento da democracia, e é naturalmente uma fonte maior de preocupação para todos nós, especialmente em Portugal que conta com uma larga comunidade de emigrantes nesse país.

À parte o PCP, que tem aqui como noutras matérias uma consonância de posições com Moscovo, e do Bloco de Esquerda que depois de uma sensata chamada de atenção de Francisco Louçã se afastou há já algum tempo de qualquer apoio à ditadura, o chamado arco do poder tem manifestado apoio à posição do parlamento venezuelano exigindo o afastamento de Maduro e a realização de eleições antecipadas, como se nada tivesse a ver com esse regime.

No entanto, ainda no passado dia 28, um jornal nacional noticiava na primeira página que a construtora portuguesa mais envolvida nos negócios venezuelanos tinha deixado uma herança incobrável de 62.5 milhões de euros no banco público nacional. De tudo o que sei, penso que se trata da ponta do iceberg das desventuras luso-venezuelanas que começaram como um projecto do Banco Espírito Santo e foram impulsionadas pelo arco governativo nacional.

Tem existido uma compreensível pressão da opinião pública para que sejam revelados os nomes dos grandes devedores à banca portuguesa à conta dos quais Portugal ganhou o triste galardão de país europeu que mais gastou com a banca.

Será no entanto um logro ficar por aqui e não olhar para as responsabilidades políticas de quem empurrou o país para negócios como os venezuelanos. Mais do que isso, interessa saber não só quem deu a cara mas também quem manobrou por trás, bem como a arquitectura geopolítica desses negócios ruinosos cujas consequências estão agora a cargo dos contribuintes.

Se tudo continuar a ser tratado como até aqui, com paninhos quentes, poderemos ter a certeza de que vamos confrontar-nos com as mesmas questões no futuro, pela simples razão de que nada se alterou nas razões que nos levaram a estes desastres no passado.

Bruxelas, 2019-01-29
Paulo Casaca

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