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Nuno Melo

A INTERNET COMO ÚLTIMA FRONTEIRA DA LIBERDADE

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES A INTERNET COMO ÚLTIMA FRONTEIRA DA LIBERDADE

 

Não há dúvida que a internet foi e ainda é um lugar por domesticar. Lentamente foi-se tornando mais mainstream, com as redes sociais a incentivarem discretamente a transparência através da identificação real dos utilizadores e a tentarem combater os falsos perfis.

Apesar de tudo, mesmo a internet mais mainstream ainda é um espaço bastante desregrado. É um espaço de liberdade (e de asneira, pois a liberdade só existe com equivalente grau de responsabilidade) e, em muitos países, era a forma de contornar e ultrapassar os regimes políticos opressivos.

Lenta-, mas seguramente, a internet tem vindo a ser domesticada. Nalguns países é pura e simplesmente censurada, sendo determinados conteúdos ou programas bloqueados. Mesmo nas ditas democracias, pelo facto da internet ser aquilo que cada individuo lá põe ou de lá retira, é um espaço desconfortável para o poder, na medida em que foge à razão e às motivações mais tradicionais. É caótica, e ao sê-lo, é incómoda. Por isso, o poder económico das empresas de distribuição de conteúdos tem tentando, com algum sucesso, impor as suas regras e impor limitações à internet. E o poder político, na ansia de proteger os cidadãos incautos, tem dado alguns tiros nos pés.

O primeiro, foi com o chamado direito ao esquecimento imposto pela União Europeia à Google, para que as pesquisas do motor de busca deixem de referenciar aquilo que um cidadão queira proteger de seu. Foi um erro, que permite que uma informação desfavorável a alguém possa ser ocultada, apenas porque essa pessoa entende que sim. Acaba por ser censura, imposta pelos utilizadores.

O segundo, foi com o Regulamento Geral de Proteção de Dados. Este regulamento visava proteger os cidadãos contra o uso dos seus dados sem seu conhecimento e tinha como propósito evitar que as empresas como o Facebook, a Google, etc. vendessem os dados pessoais a terceiros, sem consentimento. Ora, como toda a gente quer usar esses serviços, consentem na mesma à transmissão de dados, mesmo que sem vontade. Até alguns fabricantes de automóveis já recebem dados referentes ao uso do carro, diretamente da viatura, sem intervenção do dono do carro. De quem são esses dados? São do dono do carro ou do fabricante? E se o carro não poder circular sem que esses dados sejam enviados ao fabricante? Se a compra e uso do carro pressupõe o envio de dados, então o RGPD da União Europeia só veio criar mais burocracias e mais complicações para as pequenas e médias empresas e continua a ser ineficaz na proteção de dados, uma vez que apenas banalizou o procedimento de autorização do uso de dados. É que uma pessoa, sendo confrontada com o não uso do carro (ou do telemóvel ou seja de que bem for), acaba por autorizar o que for necessário. Para ser eficaz, o RGPD teria que proibir a retransmissão dos dados, com ou sem consentimento.

O terceiro tiro no pé ainda está em estudo. Trata-se do famoso art.º 13º da diretiva sobre direitos de autor, em estudo na U.E. Não será o fim da internet, mas será o fim desta internet, ao mudar drasticamente a forma com a usamos. Desde logo, porque ao obrigar a cada post, ou tweet, ou email ou upload seja verificado para impedir a publicação de conteúdos protegidos por direitos de autor, vai matar a instantaneidade da rede. Para que isso não aconteça, as publicações e os uploads terão que ser verificados de forma automática, por filtros e tecnologia que permita analisar o conteúdo. Por outras palavras, a U.E. quer que essas empresas, detentoras das redes sociais, desenvolvam e aperfeiçoem ferramentas que, a qualquer hora, poderão ser usadas para censurar e calar vozes discordantes. A mesma tecnologia que saberá verificar se os conteúdos estão protegidos, também poderá verificar se os conteúdos são permitidos.

Este sim, é um risco sério para internet e para democracia: obrigar as empresas a desenvolver software de censura altamente sofisticado e eficaz.

15/01/2019
Nuno Melo Alves

Nuno Melo

PEIXE NO MAR

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES PEIXE NO MAR

 

Como dizia na semana passada, é preciso ir além das questões das modas na proteção do ambiente. E nesse sentido, até houve notícias positivas há pouco tempo, concretamente a proibição de pesca em dois bancos nos mares dos Açores. O objetivo do Governo Regional com essa proibição de pesca é dar tempo às espécies de peixe para aumentarem a sua população, situação benéfica a vários níveis. Por um lado, a médio e longo prazo trará melhores condições para a pesca, por outro lado, impede que as espécies e o restante ecossistema marítimo que delas depende desapareçam.

O biólogo marinho e professor da Universidade dos Açores, João Pedro Barreiros, há vários anos que defende a aplicação de restrições nalguns bancos de pesca como forma de permitir a reposição do stock de peixe nos Açores. Durante estes anos tem apelado e feito alertas, de forma constante, para os perigos da sobrepesca e para a necessidade de se permitir o aumento do número de exemplares das espécies como forma de tornar a pesca sustentável e viável. Em 2018 avisava que o mar dos Açores estava à beira do colapso, arriscando a tonar-se em “desertos marinhos” e avisando que “as pessoas que quiserem comer peixe terão que o importar”, isto se nada fosse feito, concretamente se não se criarem áreas marinhas protegidas integrais, fechadas à pesca, para permitir o repovoamento das espécies marinhas.

Há um ano era notícia que os pescadores da Terceira queixavam-se da diminuição acentuada de algumas espécies marinhas, que apareciam em muito menores quantidades. Ora, essa diminuição foi vista por João Pedro Barreiros como sendo já a consequência da falta de uma rede eficaz de reservas marinhas e da sobrepesca. Há poucos dias a Associação dos Operadores Marítimos dos Açores pediu ao Ministro do Mar – ultrapassando o Governo Regional dos Açores – a criação de áreas protegidas e a proteção de tubarões. A Associação também alertava apara o “abrupto decréscimo dos recursos marinhos existentes nas águas da Região Autónoma dos Açores” e para a necessidade de se criarem “Áreas Marinhas Protegidas eficazes em todas as ilhas dos Açores”. Os operadores turísticos confirmam aquilo que os pescadores sentem, que o peixe está a desaparecer dos mar dos Açores e que é preciso agir para reverter essa situação.

As restrições à pesca bem aplicadas em zonas cientificamente selecionadas produzem efeitos positivos dentro de três a quatro anos (como se viu no caso do Banco Condor), sendo perfeitamente possível articular as atividades de pesca com a preservação dos recursos marinhos. Por isso, o encerramento temporário de dois bancos submarinos é uma notícia positiva, ou pelo menos, parece ser um bom começo. Não sou cientista nessa área, por isso não sei avaliar se é suficiente ou se será necessário criar mais zonas destas em rede, para que sejam eficazes no repovoamento das espécies marinhas. Desconfio que isto seja apenas um começo e que seja necessário alargar a rede, mas se assim for, terá que ser, pois não podemos ficar sem peixe.

A questão é que, simultaneamente, durante estes períodos de aplicação de restrições à pesca cria-se um problema aos profissionais do sector que possivelmente ficarão privados do seu sustento económico. Para se garantir a reposição das espécies, os pescadores têm forçosamente que estar empenhados e comprometidos com as zonas de proteção, sendo por isso, necessário criarem-se mecanismos de proteção ao rendimento daqueles que são diretamente afetados pelas restrições.

Parece que esta situação ainda não está acautelada. Mas é urgente que esteja, para bem do peixe no mar.

10/12/2019
Nuno Melo Alves

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MODAS E PROTAGONISMOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES MODAS E PROTAGONISMOS

 

É impossível ficar indiferente à ocorrência da COP25, a cimeira das Nações Unidas sobre o clima. É também impossível, infelizmente, dissociar as preocupações com o clima dos excessos das soluções radicais, sem equilíbrio, e, muitas vezes, sem fundamento científico quanto à sua eficácia ou relevância. E é, ainda, difícil focar apenas nas questões climáticas, mediante tantos outros problemas ambientais, como a poluição do meio marítimo com plásticos e outros detritos.

Existem outros problemas, que têm sido identificados e estudados, que decorrem das alterações climáticas e do aumento de poluição, mas também de outras causas, e cuja solução exige uma resposta mais transversal. Um grupo financeiro japonês prevê uma crise humanitária, em que metade da população mundial pode vir a ser afetada por aumentos de preços brutais dos alimentos, provocados pelas alterações climáticas. Acontece que a pressão nos preços dos alimentos também está a ocorrer devido ao aumento da procura, que resulta de, pelo menos, duas coisas: por um lado, as melhorias qualitativas na alimentação nos países mais desenvolvidos, e, por outro, do aumento exponencial da população mundial nos últimos séculos.

Uma das fórmulas da moda para reduzir a pegada ambiental da produção alimentar tem sido substituir a produção intensiva por processos biológicos e naturais mais amigos do ambiente, mas, objetivamente, menos eficazes na quantidade produzida. Esta solução não reduz a pressão que provoca o aumento de preços dos alimentos. No entanto, soluções como o uso de alimentos geneticamente modificados são apressadamente condenadas por alguns dogmáticos que pretendem limitar ou proibir o seu uso, quando, precisamente pelas suas características especificamente desenvolvidas, podem ser a solução para aumentar a oferta alimentar e diminuir a pressão sobre o ambiente. Ou seja, em áreas menores e salvaguardando as florestas e os habitats, é possível produzir mais, o que parece ser uma solução mais favorável à conservação do que propriamente a produção natural.

Quanto ao consumo energético, os combustíveis fósseis são poluentes, e a pressão para se encontrarem alternativas tem levado a um excessivo e desmesurado entusiasmo com as soluções de mobilidade elétrica baseadas nas baterias, cuja pegada ecológica é grande e cuja tecnologia necessita de minérios escassos. A segurança destas soluções ainda não é um dado adquirido e alguns produtos com baterias já estão proibidos de serem transportados como carga aérea. Há que insistir no desenvolvimento de soluções eventualmente melhores, como o hidrogénio ou o gás natural liquefeito, sem cair na cegueira atual que está impor a solução elétrica a baterias à base no lítio.

A questão de fundo é que, infelizmente, tem havido muito ruído, muito alarmismo e alguma precipitação em relação às soluções a adotar ou a rejeitar, como por exemplo, nos casos referidos. Cada vez parece mais óbvio que as soluções para estes problemas de escala global têm que passar por repostas cientificamente fundadas, por mecanismos que não sejam piores que os problemas que tentam resolver, e cada vez menos por entusiasmos com protagonistas e modas que se transformam em soluções políticas, muitas vezes caras mas irrelevantes. A conservação do planeta assim o exige.

03/12/2019
Nuno Melo Alves

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A TAXA DAS DISFUNCIONALIDADES

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES A TAXA DAS DISFUNCIONALIDADES

 

As taxas turísticas parecem estar na moda. Surgiram primeiro em Lisboa em 2016, tendo-se gradualmente alargado a algumas outras localidades: Porto, Gaia, Óbidos, Mafra, Cascais e Vila Real de Santo António, entre outras, já adotaram esta medida. E agora, a Ilha de São Miguel também terá uma taxa turística. Devo dizer que acho que as taxas turísticas são um aproveitamento político absurdo e que revelam problemas graves subjacentes ao sector turístico.

Em primeiro lugar porque os desgastes provocados pelos turistas, nas estradas, nos monumentos, etc., já são pagos nos impostos e taxas que incidem sobre a atividade económica em geral. As viaturas de aluguer e os transportes turísticos pagam imposto de circulação e sobre o consumo de combustível, sobre as receitas e sobre as despesas, nestes últimos casos em função da quantidade. Nos outros consumos, os turistas pagam IVA nos preços que lhes são cobrados e taxas específicas. E nos monumentos públicos e privados, pagam o preço dos bilhetes de entrada.

Em segundo lugar, porque as taxas turísticas são um imposto, portanto uma receita pública, e não dos operadores privados. O normal seria, perante excesso de procura, os privados aumentarem os seus preços, até que a procura se equilibrasse à oferta, ou, até haver uma expansão da oferta turística no destino. O aumento de preços é igualmente exequível nos sítios e monumentos públicos, mas até pode ser possível que, por razões de índole cultural, não se queira fazer isso. Mas nesse caso, pode-se sempre recorrer a outras formas de controlar o número excessivo de visitantes aos sítios e monumentos, mediante a aplicação de restrições ao número de visitantes e com recurso a esquemas de marcação e reserva de visitas. O que não é normal é que surja um imposto adicional para onerar ainda mais os preços de um destino, ficando os operadores turísticos a perder.

Terceiro, em sítios como Lisboa, Porto, Coimbra, Ponta Delgada, Angra e Horta, localidades onde existem unidades de saúde para onde são encaminhados doentes, é absurdo cobrar a taxa turística a que lá se desloca por motivos de saúde ou visita a familiares que estejam numa dessas situações. O mesmo raciocínio se aplica às cidades que têm universidades, para onde se deslocam estudantes e onde os seus familiares os visitam. Eu diria mais: não é aceitável que sejam cobradas taxas turísticas aos cidadãos portugueses e com residência em Portugal, pois já pagam impostos pelos serviços públicos, sendo até sujeitos a uma tripla tributação: quando pagam impostos, quando usam serviços que pagam impostos e quando lhes é cobrada a taxa turística.

Finalmente, porque quando as taxas turísticas são introduzidas por excesso de procura de uma localidade, isso quase sempre revela mau funcionamento do destino turístico no geral. O caso das taxas turísticas de Lisboa, Porto e outras cidades grandes é um flagrante exemplo da má gestão do turismo feita no País. É óbvio que não se pode contrariar as preferências dos turistas mas pode-se criar condições melhores para incentivá-los a procurar outros destinos no País, através da inteligente gestão e aeroportos, transportes, eventos, etc..

No caso dos Açores, a aplicação de uma taxa turística em S. Miguel, acordada pelos seis municípios, é a confirmação do sucesso do turismo naquela ilha, mas a outra face da moeda é que é igualmente a confirmação do fracasso do turismo nas restantes. Ou seja, há excesso de turismo em S. Miguel, faltando nas outras ilhas. Tendo em conta que os governos Regional e da República, além de serem reguladores, também são operadores, ao gerirem aeroportos e serem donos de companhias aéreas, têm responsabilidade nas disfuncionalidades do sector de turismo. E em vez de as resolverem, levam a que seja criada uma taxa turística em S. Miguel.

Não sou só eu que digo que existem disfuncionalidades no turismo: também as seis Câmaras de São Miguel o dizem.

26/11/2019
Nuno Melo Alves

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