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Pedro Gomes

UMA IGREJA NO MUNDO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES UMA IGREJA NO MUNDO

 

Há 53 anos, em 8 de Dezembro de 1965, Paulo VI encerrava o Concílio Vaticano II, convocado por João XXI.

O Concílio alterou a atitude da Igreja Católica perante um mundo em mudança: o propósito era o de “abrir a Igreja ao Mundo”, fazendo com que os sacerdotes e as estruturas eclesiásticas estivessem mais próximos das pessoas e dos seus problemas.

No encerramento dos trabalhos do Concílio, o Papa Paulo VI afirmava que “toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas para isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades”.

O Concílio proclama o homem como medida da acção da Igreja, defendendo a sua integridade, como corpo e alma, coração, inteligência e vontade (Gaudium et Spes).

Passados mais de cinquenta anos, os documentos conciliares continuam a ter uma enorme actualidade, ao preconizarem uma Igreja mais moderna, mais despojada dos bens materiais, mais simples na forma de contactar com as pessoas. Uma Igreja peregrina, que vá ao encontro das periferias: geográficas, físicas, económicas ou espirituais.

Ao longo do seu pontificado, o Papa Francisco pede à Igreja que não seja apenas uma Igreja aberta ao mundo, mas que se torne numa Igreja no mundo.

As novas evangelizações que Francisco propõe, significam que a Igreja tem de ser a voz dos que não são ouvidos, a consciência do mundo, quando multidões de indesejados são esquecidas pelos líderes mundiais e ignoradas nos telejornais, afirmando a verdade universal de que o homem, com a sua dignidade, tem de ser a medida de toda a acção humana.

A Igreja no mundo só pode ser uma Igreja despida de preconceitos, que não hesita em acolher de braços abertos todos os homens e mulheres, independentemente do seu credo religioso.

A poucos dias do Natal, em que a febre consumista tomou conta de todos os espaços comerciais e da nossa vida, é bom lembrar o valor dos pequenos gestos, das pequenas coisas que não têm o poder de mudar o mundo, mas que podem fazer a diferença junto dos que nos estão próximos.

A misericórdia é a coragem de acreditarmos de que somos capazes.

Pedro Gomes
7DDZ2018 – 105 FM

Pedro Gomes

VIAJAR É VIVER

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES VIAJAR É VIVER

 

Abu Abdullah Muhammad Ibn Battuta, mais conhecido por Ibn Battuta é um dos maiores viajantes da história.

Nascido em Marrocos, no início do século XIV, Ibn Battuta, com 21 anos, decidiu cumprir o haji – um dos cinco pilares da fé muçulmana – e partir para a cidade sagrada de Meca, para a peregrinação ritual.

A viagem que deveria durar pouco tempo, prolongou-se durante quase de três décadas.

Ibn Battuta percorreu mais de cento e vinte mil quilómetros e visitou quarenta e quatro países, incluindo os lugares sagrados do Islão, desafiando as limitações impostas aos viajantes do século XIV.

Contemporâneo de Marco Polo, durante uma parte da sua vida, Ibn Battuta, percorreu uma distância superior à deste, sem que alguma vez se tivessem cruzado. Marco Polo era um mercador, sem educação formal que viajou para países com culturas diferentes da sua. Battuta era um homem da classe média-alta, cosmopolita, educado e versado em leis, que viajou até aos limites geográficos da influência muçulmana.

A duração temporal da viagem, o número de países visitados, a distância percorrida, os obstáculos geográficos, políticos e sociais que teve de vencer, as dificuldades impostas pelos meios disponíveis para percorrer grandes distâncias, as doenças que atormentavam os viajantes – a que ele não escapou – tornam a viagem de Battuta numa aventura épica, num tempo em que os viajantes eram peregrinos, mercadores ou militares.

Este notável viajante percorreu apenas países sob domínio muçulmano tendo trabalhado em muitos deles como juiz, já que estudara leis antes de partir.

Ao longo da viagem, anotou minuciosamente – com espírito de jurista – os usos e costumes de cada lugar, a organização social, o sistema político e de governação, num registo precioso que constitui um mosaico de influência muçulmana na Europa, África ou Ásia.

Quando Ibn Battuta regressa a Marrocos, cerca de 1350, é encarregue pelo sultão Abu Inan Faris de escrever o relato da sua viagem, que dá origem ao livro conhecido como “Rihla de Ibn Battuta”, que terá sido escrito por um terceiro a quem Battuta narrou a sua extraordinária viagem.

Seiscentos anos depois, continuamos a admirar o espírito deste viajante intrépido.

Pedro Gomes
16AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

NÓMADAS EM VIAGEM

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES NÓMADAS EM VIAGEM

 

No Verão todos somos Xerazade, no desejo absoluto das conversas que se prolongam, das histórias que trazemos da vida para a porta da amizade ou para um ocasional encontro de amigos, em que o tempo fica suspenso do que podemos contar e escutar.

No Verão, também todos somos Marco Polo, inspirados pela viagem que falta fazer e animados pela vontade de enfrentar o desconhecido, longe dos lugares que inundam os folhetos turísticos que prometem praias e lugares paradisíacos e que afinal são todos iguais, numa impúdica massificação do gosto.

O viajante não é um turista, na subtileza das suas escolhas, no desenho de uma geografia de lugares e pessoas muito pessoal. Cada viajante cartografa o mundo de acordo com um código pessoal que apenas ele conhece e que não pode ser replicado. Por isso mesmo, cada viagem é única e irrepetível, mesmo que outros possam seguir os seus passos.
Uma viagem pressupõe a descoberta de si próprio, num exercício de subjectividade que singulariza cada viajante: do que gosto? O que gostaria de ver? Que percursos vou escolher? Quem me vai acompanhar?
Viajar é traçar uma geografia íntima. Um percurso de aprendizagem e de conhecimento sobre os lugares e as gentes.

Na antiguidade grega, o conhecimento e a sabedoria estavam ligados à ideia de viagem, de peregrinação e de aprendizagem.

O filósofo francês, Michel Onfray escreveu um belíssimo ensaio – “Teoria da Viagem – Uma poética da geografia”- sobre a determinação de cada viajante, o prazer da fruição da viagem ou a poética de cada lugar escolhido.

Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira”, escreve o autor, que defende a ideia – para mim sempre sedutora – de que qualquer viagem começa numa biblioteca ou numa livraria, quando o olhar é seduzido por um lugar inesperado ou um animal exótico que salta de um romance, de um poema ou de um atlas.

Como são belos os atlas, na precisão minuciosa do recorte dos países e dos continentes, da imensidão da água que cobre a terra, dos nomes dos lugares que se sobrepõem em torvelinho, na confusão dos sentidos que nos causam, porque não conseguimos medir as distâncias com o olhar e afinal descobrimos que estamos a dar saltos de milhares de quilómetros; dizemos que o mundo é grande e os atltas – sempre verdadeiros e, simultaneamente mentirosos – parecem desmentir a geografia e a cartografia. Uma pura ilusão que nos atrai, como as sereias sempre fizeram aos marinheiros.

Uma viagem é sempre uma revelação.

Pedro Gomes
9AGO2019 – 105 FM

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Pedro Gomes

REZAR

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES REZAR

 

Todas as formas de rezar são suficientes. Todas as formas de rezar são insuficientes.

Rezamos como somos, com silêncio ou com as palavras a seguirem o rumo do coração.

Não há formas certas ou erradas para rezar, pois não se trata de um exercício da razão.

Rezar é como respirar, um mergulho de olhos abertos. Com simplicidade, Matsuo Bashô escreveu: “silêncio/ uma rã mergulha/ dentro de si”.

Talvez uma das formas mais complexas de rezar seja a da vida consagrada, dedicada à oração e ao silêncio, em clausura.

Nos conventos de clausura, o tempo tem outro ritmo. Deus é a quietude absoluta dos espaços imensos, da ausência das palavras, que se tornam irrelevantes. A oração não é uma pausa, um momento. Muito pelo contrário, todos os gestos – dos mais singelos aos mais elaborados – são uma oração, um agradecimento a Deus.

De coração aberto, os monges de clausura escutam o mundo de Deus, seguindo o ensinamento de São João Crisóstomo: “descobre a porta do teu coração e então poderás descobrir a porta do Reino de Deus”.

O único convento de clausura masculina em Portugal é o Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli (Escada do Céu), em Évora, que encerrará no dia 6 de Outubro, data em que a Ordem Cartusiana celebra a solenidade do seu fundador, São Bruno, que foi Arcebispo de Évora.

Neste dia, a cartuxa estará aberta aos fiéis, num momento raro, pois a regra da Ordem dos Cartuxos é feita de silêncio, oração e entrega a Deus.

Daniel Blaufuks, um dos grandes fotógrafos portugueses, registou a austeridade de vida, a simplicidade, o peso do silêncio, o despojamento e a centralidade de Deus na vida dos monges cartuxos, numa notável exposição intitulada “Prece Geral”, em 2015, que foi exibida em Ponta Delgada, no Museus Carlos Machado.

Os objectos de uso diário, os lugares despidos, o mobiliário simples e funcional, a sobriedade espartana do pequeno cemitério, de paredes caiadas de branco, convocam o silêncio comovente do mistério de Deus, que fica registado para sempre.

Com a partida dos últimos monges e o encerramento do Convento da Cartuxa, perde-se uma parte da memória religiosa de Portugal.

Pedro Gomes
02AGO2019 – 105 FM

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