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Paulo Casaca

A FRANÇA DO GASÓLEO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A FRANÇA DO GASÓLEO

 

Foi apenas há três anos que as autoridades federais americanas expuseram o ‘dieselgate’ e que se tornou público que os dados da indústria automóvel europeia sobre os supostos benefícios relativos dos motores a diesel para ‘as mudanças climáticas’ eram fruto de vastas fraudes cobertas por má legislação europeia.

Para o Presidente Macron, a solução para as ‘mudanças climáticas’ é óbvia: aumentar os impostos sobre os combustíveis e especialmente sobre o gasóleo. Acontece que uma grande parte da França, rural e suburbana, depende do gasóleo para ir trabalhar ou para o seu dia-a-dia. O convite do poder a que mudem para carros elétricos soa-lhes a uma reencarnação da célebre frase atribuída a Maria Antonieta a convidar os pobres a comer brioches perante a falta de pão.

É uma França do gasóleo que não entende por que razão se deve pagar couro e cabelo para o combustível dos seus automóveis quando nem aviões ou embarcações pagam o que quer que seja e, fatal das coincidências, o que o orçamento prevê cobrar a mais nos combustíveis corresponde ao que prevê cobrar a menos pelo fim do imposto sobre as fortunas.

E se os franceses tinham varrido do mapa o sistema político-partidário em benefício de quem lhes pareceu competente e moderado, resolveram agora esquecer sindicatos e corporações e mobilizar-se pelas redes sociais sob a sigla de ‘coletes amarelos’ em barricadas que conheceram um estonteante sucesso no dia 17. Aprestam-se agora, dia 24, a bloquear Paris, com uma retórica que recorda a da tomada da Bastilha.

Macron reage, denuncia a anarquia e contra quem nele vê um Luís XVI, aposta em repetir a vitória de De Gaulle sobre as barricadas de Maio de 1968.

A cruzada de Macron contra o populismo poderá conhecer sucessos pontuais, mas não creio que consiga salvar a França oligárquica das reformas de que tanto necessita.

Bruxelas, 2018-11-21
Paulo Casaca

Paulo Casaca

A JIHAD VARRE O LEVANTE

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A JIHAD VARRE O LEVANTE

 

O assassínio de Hervin Khalaf, secretária geral do ‘Partido da Síria do Futuro’, pelas forças turcas, ficará como símbolo desta nova invasão que tem por objectivo destruir a única parte do território do país que escapava ao controlo dos impérios jihadistas turco e iraniano e onde existia um relativo respeito pela vida humana.

Executada com mais oito pessoas pelas milícias islamistas que acompanham os invasores, o assassínio da jovem dirigente – tinha apenas 35 anos – de um partido que procura ultrapassar as rivalidades entre as duas etnias maioritárias daquela região, árabe e curda, foi registado pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos em Londres e celebrado como vitória pela imprensa oficial do regime de Erdogan.

A mais recente tragédia síria resulta do acordo estabelecido na cimeira de Ancara de 16 de Setembro que incluiu, para além do anfitrião turco, os líderes russo, Putin, e o Presidente do Irão, Rouhani.

Tal como tinha acontecido em Afrin, outro território de maioria curda, a invasão turca é secundada pela ocupação por grupos jihadistas sírios sob controlo turco e de uma retirada de forças ocidentais, nomeadamente as americanas, mas contrariamente a outros actos inqualificáveis de guerra na região pelos impérios jihadistas, esta invasão levantou finalmente uma onda de indignação no Ocidente.

Esta indignação ocidental é bem justificada mas não deve servir para esconder e distorcer as responsabilidades e as razões desta nova barbárie jihadista.

Dias antes desta invasão os iraquianos manifestaram-se no Centro e no Sul do país contra o poder das milícias pró-iranianas e a tutela iraniana sobre o Iraque, tendo as forças regulares e irregulares do regime (O Basij iraquiano, sob tutela dos guardas revolucionários islâmicos) respondido com brutalidade provocando numerosas vítimas.

Apesar de o Irão dominar o poder no Iraque – só as ‘forças de mobilização popular’ contarão com 85.000 homens armados – o regime iraniano anunciou a expedição de 7500 homens suplementares para a defesa dos locais de culto xiita, como se a quase totalidade dos iraquianos em revolta contra o Irão no Centro e Sul do país não fossem eles mesmos xiitas.

A hora exige acabar com os ridículos exercícios de retórica feitos de cegueira e demagogia, em entender porque naufragou esta ordem internacional e o que se pode fazer depois deste naufrágio.

Bruxelas, 2019-10-17
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

A GUERRA DO QUEIJO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A GUERRA DO QUEIJO

 

Ao fim de quinze anos, o processo lançado pelos Estados Unidos sob presidência de George W. Bush contra a União Europeia por subvenções ilegais à companhia Airbus chegou ao seu termo com a Organização Mundial de Comércio (OMC) a autorizar os EUA a impor tarifas alfandegárias sobre produtos europeus importados representando 7.5 biliões de dólares.

A penalização infligida à União Europeia pelo seu desrespeito pelas regras internacionais de comércio é a maior da história da organização.

A administração americana aplicou rapidamente a autorização que lhe foi dada pela OMC e anunciou para o final da próxima semana uma extensa lista de produtos sobre os quais recairá uma taxa alfandegária de 25% que é supostamente focada nas exportações dos quatro países envolvidos na construção do Airbus, mas que, com alguma surpresa, se constata atingir fortemente algumas produções de outros países, como o queijo.

Assinale-se que se trata de uma lista que pode ser modificada a qualquer momento e que as taxas aplicadas poderão subir de 25 para 100 pontos percentuais.

Os produtores italianos de queijo já reagiram exigindo às instituições europeias que assumam as responsabilidades pelas consequências de uma guerra para a qual nem a Itália nem em especial os produtores de queijo deram qualquer contribuição.

O que é irónico nesta guerra é que o Presidente Trump que acusou a arquitectura comercial internacional de não proteger os interesses americanos aparece agora, finalmente, a enquadrar a sua acção por ela, enquanto as instituições europeias que fazem do respeito das regras comerciais internacionais e da proibição dos auxílios de Estado o seu credo ignoram soberanamente os seus compromissos e obrigações ditados pela ordem internacional.

É mais um sinal de que a realidade é sempre mais complexa do que aquilo que se julga e que não devemos embarcar em juízos simplistas para encontrar bodes expiatórios.

Independentemente desta inversão de papeis, o que me parece necessário é que todas as vítimas colaterais dessa guerra – incluindo naturalmente o sector leiteiro dos Açores – saibam reclamar dos seus direitos junto de quem tem o poder exclusivo para repor a normalidade nesta matéria: as instituições europeias.

Lisboa, 2019-10-09
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Paulo Casaca

A EUTROFIZAÇÃO E AS EMISSÕES ATMOSFÉRICAS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A EUTROFIZAÇÃO E AS EMISSÕES ATMOSFÉRICAS

 

Uma das mensagens mais repetidas pela ‘climatocracia’ é a de que as contas das emissões de gases com efeitos de estufa – no jargão, o orçamento de carbono – estão feitas há décadas e são cristalinas.

A realidade, porém, é muito diferente, com permanentes avanços científicos – alguns aliás, reflectidos na documentação oficial – que nos vão revelando cada vez maior complexidade onde o pensamento único nos quer limitar a visão.

Um desses temas é o da eutrofização a que fizemos referência na semana passada, que, como vários outros, aparece no último relatório do painel do clima mais como efeito do que como causa das emissões de gases de estufa.

Um recente estudo sobre os efeitos da eutrofização nas emissões atmosféricas num dos grandes lagos do Continente Norte-americano, o lago Erie, serve para entendermos até que ponto essa visão se encontra afastada da realidade. O estudo estima a emissão anual de óxido nitroso e metano do lago como sendo equivalente a meio milhão de toneladas de dióxido de carbono, ou seja, uma emissão de gases com efeito de estufa maior que a registada pelos números oficiais de dezenas de países.

E se isso é assim com o lago Erie, podemos imaginar apenas o que se passará com massas de água de muito maior dimensão e em estado crítico mais óbvio como o seja o mar Báltico, uma realidade que, surpreendentemente, não parece mobilizar a opinião pública e os responsáveis políticos dos seus países ribeirinhos, como a Suécia, onde a repetição da vulgata climatológica fez eclipsar tudo o resto.

Os principais instrumentos impulsionados para fazer face à leitura unidimensional das mudanças climáticas – a energia nuclear, o sequestro de carbono e a geo-engenharia – têm todos eles ou efeitos ambientalmente negativos ou, na melhor das hipóteses, neutros, e é também por isso que esta leitura deve ser rejeitada.

A eutrofização é um tema que por razões óbvias – e algumas menos óbvias – não pode deixar de interessar os Açores, mas há na verdade um sem número de outras questões ambientais a que temos de prestar a maior atenção, não na lógica catastrofista, de estalinismo opinativo, do mediatismo que procura a comoção máxima por minuto e esquecimento quase instantâneo, mas de conhecimento, sensibilidade, responsabilidade e debate.

Bruxelas, 2019-10-02

Paulo Casaca

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