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Aníbal Pires

OS (IRA)DOS

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES OS (IRA)DOS



Hoje trago-lhe um assunto que não é de fácil abordagem, mas que merece alguma atenção e reflexão pelo significado que tem e, sobretudo, pelos fenómenos que está a criar em Portugal e no Mundo.

Trata-se da proteção dos animais e de alguns grupos de pressão organizados, até num partido político com assento parlamentar na Assembleia da República, cuja agenda política gira e se alimenta à volta dos direitos e do bem-estar animal.

Causa que, não sendo da nossa contemporaneidade, pois, no limiar do século XIX a Inglaterra tinha aprovado algumas leis de proteção dos animais, ganhou nos últimos anos pela tomada de consciência ambiental e humanista apoios crescentes significativos.

Antes de mais, e para que não surjam dúvidas ao longo desta nossa conversa, reafirmo a minha posição de total concordância com o articulado da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, Documento de caráter normativo e que foi proclamado e promulgado pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 27 de Janeiro de 1978.

Esta declaração de princípios destina-se aos ouvintes menos atentos pois, quem acompanha a vida política regional sabe que fui autor, enquanto deputado do PCP na ALRAA, do articulado original do diploma que proíbe o abate de animais errantes e de companhia.

Para quem quiser informar-se sobre a sua tramitação pode sempre consultar a base de dados da ALRAA, ou se apenas quiser conhecer o seu conteúdo pode procurar no Jornal Oficial o Decreto Legislativo Regional n.º 12 /2016/A, de 8 de Julho.

As notícias vindas a público, mesmo com as reservas que tenho sob a forma como foram tratadas jornalisticamente, colocam algumas apreensões às quais devemos dar atenção pois configuram um modus operandi e uma linguagem que nos fazem lembrar os grupos neonazis que proliferam como cogumelos por todo o Mundo.

E este fenómeno é tanto mais preocupante quanto sabemos que na primeira metade do Século XX a Alemanha de Hitler, logo após a chegada ao poder em 1933, fez aprovar um conjunto de leis de proteção dos animais que, eventualmente alguns desses militantes (IRA)dos, gostariam de ver em vigor no nosso país e no Mundo.

Como, por exemplo a execução, por fuzilamento, de quem infligisse a morte a um animal por maus tratos. As leis de proteção aos animais atualmente na Alemanha, expurgadas dos excessos da criminalização e da penalização, são nos seus princípios as que foram criadas por Hitler.

Se posso e devo apoiar e defender os direitos dos animais e o seu bem-estar, não posso, porém, esquecer-me de que quem produziu, digamos, a legislação mais avançada para a proteção dos animais tivesse sido responsável por milhões de mortes, quer nos campos de batalha da II Guerra Mundial, quer nos campos de concentração.

Não pretendo rotular ninguém, mas por vezes é bom ir à história para perceber o presente.

Mas no presente existem, para além da questão ideológica, porque o era durante a chancelaria de Hitler e depois com o III Reich, outras questões mais pragmáticas e que se prendem com o negócio que gira à volta dos animais de estimação.

Eu já o fiz publicamente, mas ainda não dei conta de nenhum ativista da defesa dos direitos e do bem-estar animal propor a proibição da venda de animais de estimação e companhia enquanto nos canis e gatis municipais houver animais para adoção. Pois é. Talvez este princípio, a vir a ser adotado com força de lei, fosse um grande contributo para a proteção e o bem-estar animal.

Mau para o negócio. Bom para os animais.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Novembro de 2018

Aníbal Pires

AS ONDAS DA MODERNIDADE

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES AS ONDAS DA MODERNIDADE

 

Os espaços públicos na proximidade do mar têm valor em si mesmo. Ou melhor, os espaços naturais não necessitam de adereços para serem atrativos, o seu valor é inerente à sua condição. Há quem prefira a proximidade do mar e há quem prefira passear pelos matizes de verde.

Venha dai comigo hoje vamos até à beira mar.

Procuramos a praia para usufruir de um banho de mar, de um pouco de Sol, de uma esplanada pela manhã, ao fim da tarde, à noite.

O encanto da beira-mar reside no que é natural, mormente, nos sons.

Como muitos outros cidadãos procuro junto ao mar alguns momentos de serenidade e de fruição do que a natureza tem para oferecer, e, diga-se que por estas latitudes ela foi bem pródiga.

Há algum tempo um visitante expressava todo o encantamento que sentiu, após uns dias de estadia nos Açores, desta forma singela: – “Deus passou por aqui”. Esta expressão diz bem como os Açores foram bafejados por um património natural invejável e singular.

Um destes dias fui à procura do sossego do fim de tarde num espaço público junto ao mar. Como companhia um livro e determinado com o enorme desejo de fruir da luz aprazível do crepúsculo, da suavidade do marulhar das ondas espraiando-se de encontro à ilha.

Ia preparado para outros sons, sons de conversas sussurradas a entrecortar as toadas do entardecer de um dia de Verão.

Não ia era preparado para os ruídos que brotavam de um equipamento de difusão de música instalado naquele espaço que, julgava eu, não necessitaria mais do que a sua própria e privilegiada localização para atrair pessoas (clientes).

Olhei ao redor e não me pareceu, na expressão de quem por ali estava, que a “música” que nos era oferecida fosse do agrado de alguém, não pela “música” em si mesmo, mas por que “aquilo” estava a mais e feria de morte os naturais ruídos de um fim de tarde à beira mar.

As ondas da modernidade bacoca que varrem a Região aculturam as gentes, moldam os comportamentos e deformam a paisagem da qual os sons também são parte.

Mas isto sou eu que digo, que costumo remar contra a maré.

Não é fácil, mas eu continuo a insistir que pode ser diferente, muito diferente, e, sobretudo, um permanente desafio do qual não penso abdicar. É porque é muito mais interessante.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Fevereiro de 2019

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Aníbal Pires

UM ARQUIPÉLAGO DENTRO DA ILHA – OS AÇORES EM SANTA CATARINA

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES UM ARQUIPÉLAGO DENTRO DA ILHA – OS AÇORES EM SANTA CATARINA

 

Os migrantes carregam na sua bagagem imaterial a cultura e tradições da sua origem. Nos percursos migratórios vão assimilando outras culturas, outras formas de ver o Mundo, mas tendo sempre como referencial a sua matriz cultural que procuram recriar nos lugares onde se fixam.

Entrar em algumas das Casas dos Açores espalhadas pelas Américas do Norte e do Sul é como viajar no tempo e no espaço, e retornar à origem.

As primeiras gerações de imigrantes, em particular os homens, têm tendência a recriar os espaços e os hábitos do seu território de origem, ou seja, a cristalizarem a sua matriz cultural e a estabelecer uma barreira à influência da cultura, ou culturas, que coexistem nos lugares de acolhimento. De uma forma mais ou menos consciente esta atitude de recusa da assimilação relaciona-se diretamente com a ideia do regresso, que nem sempre acontece, mas também com a procura de equilíbrios que lhes permitam suavizar a saudade.

O tempo encarrega-se de romper barreiras e a miscigenação cultural, naturalmente, acontece. As festas do Divino Espírito Santo, quer na América do Norte, quer no Brasil, foram-se apropriando de outros elementos culturais. Mantendo a matriz original recriaram-se e adaptaram-se aos territórios de acolhimento. Também no território de origem se registam alterações aos ancestrais rituais sem que essas mudanças alterem a génese e objeto da celebração e da devoção do Divino.

As migrações açorianas estão recheadas de estórias que são parte da nossa história, mas são os sinais da cultura açoriana, que se manifestam nas mais diversas geografias, e que têm sido objeto da atenção de académicos e de mote para a criação artística a que me quero referir nesta breve conversa de hoje.

Na ilha de Santa Catarina, no Sul do Brasil, a presença de açorianos e dos seus descendentes data de há mais de 2 centenas e meia de anos. As marcas e símbolos da sua presença encontram-se na arquitetura, culinária, tradições, lendas, histórias, modo de falar, religião, de entre outras manifestações culturais que viajaram com os casais açorianos que povoaram Santa Catarina a partir dos meados do século XVIII.

As localidades de Santo António de Lisboa, Lagoa da Conceição e o Ribeirão da Ilha são das mais antigas da ilha de Santa Catarina e onde as marcas do povoamento açoriano serão mais evidentes.

E foi na Costa da Lagoa da Conceição, um dos redutos catarinenses dos descendentes açorianos, que foi rodado o filme “A Antropóloga”, do cineasta Zeca Nunes Pires. Não sei qual a ligação de Zeca Pires aos Açores, mas para um catarinense as marcas e símbolos de origem açoriana não serão, de todo, indiferentes.

Não se poderá dizer que a temática e a trama do filme seja açoriana, mas em boa verdade é sobre os aspetos mágico-religiosos da cultura açoriana transmutados para outras geografias que trata esta história de uma investigadora que vai para a Costa da Lagoa e da sua relação com a comunidade local. Não sendo, como já disse, um filme de temática açoriana, as referências aos Açores são uma constante. O filme abre com imagens de arquivo da erupção dos Capelinhos, e, a primeira cena decorre num espaço tipicamente açoriano. A linguagem e as constantes referências aos Açores acompanham toda a estória desta cientista que se envolve, talvez mais profundamente do que desejaria, com alguns aspetos místicos da cultura popular da Costa da Lagoa, na Ilha de Santa Catarina, mas que têm a sua génese nas crenças e sabedoria popular açoriana.

A “Antropóloga”, ao que sei, nunca passou nas salas de cinema, nem nos cineclubes açorianos, embora, ao que me informaram tenha tido algum apoio do Governo Regional, através da Direção Regional das Comunidades. Mas, no fundo, nem é disso que se trata: retorno do investimento público à produção cultural. Em boa verdade trata-se de conhecer um produto cultural produzido no sul do Brasil cuja inspiração está ancorada nos costumes ancestrais do povo açoriano.

Fica o desafio para que o filme e o cineasta possam vir aos Açores no quadro das pontes que se têm construído entre a Região e as comunidades da nossa diáspora e que se destinam à circulação, nos dois sentidos, dos produtos culturais de inspiração açoriana.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Fevereiro de 2019

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Aníbal Pires

COM TEMPO E ATENTO

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES COM TEMPO E ATENTO

 

Tenho por hábito diário, nem sempre à mesma hora, percorrer os títulos noticiosos e, em função dos meus interesses pessoais, mas também para perceber o que se vai dizendo, pensando e fazendo por esse Mundo fora, mergulho nos textos que dão corpo às manchetes. Procuro estar o melhor informado que posso, tarefa aparentemente fácil, mas não é, só parece.

A quantidade de lixo informativo é imensa e não provém apenas das redes sociais, a comunicação social instituída e que a maioria dos cidadãos tem como referência é, igualmente, responsável por muito do lixo informativo impresso, mas também difundido pelas rádios e televisões, bem assim como pelo recurso às plataformas digitais disponíveis que servem, também de suporte, às redes sociais. Ou seja, para estar informado, bem informado é preciso despender tempo e, sobretudo, estar atento.

Não estou a exagerar. A difusão de informação confere poder à comunicação social de massas. Poder que nem sempre é utilizado para informar, aliás é-o quase sempre para formar e modelar as consciências. Porquê, Pois bem, porque o poder da comunicação social, mesmo o setor público, está submetido aos interesses do poder económico e financeiro. Poder a quem interessa ter uma mole imensa de cidadãos a pensar e a consumir dentro de parâmetros pré-estabelecidos e que servem para beneficiar o tal poder económico e financeiro.

Se argumentar que no setor público não será bem assim, não vou contra-argumentar, embora não esteja seguro de que o não seja, por outro lado dir-me-á que o setor público está liberto das imposições do mercado e não existe motivo para que a informação e os conteúdos produzidos sejam condicionados a interesses alheios ao interesse público. E eu direi, Assim deveria ser, mas não é o que realidade nos demonstra diariamente. De facto, e, ao invés do que seria desejável e expetável, os critérios editoriais e os conteúdos pouco, ou nada, se diferenciam das abordagens feitas pelo setor privado, claro que estou a referir-me, em particular, à radio e à televisão, mas não só.

Com a massificação do acesso à internet e, por conseguinte, à utilização de diferentes redes sociais e plataformas de comunicação tem vindo a colocar-se aos jornais, às rádios e às televisões novos desafios. Um desses desafios tem sido o de encontrar um espaço que até há bem pouco tempo era um exclusivo seu. Desafio que em Portugal está longe de ter tido, em minha opinião, as respostas adequadas pois, o que se constata é uma tentativa de acompanhar o imediatismo da difusão de informação ao ritmo e com a superficialidade que carateriza e populariza as redes sociais. Não me aprece ser esse o melhor caminho para a sobrevivência da informação impressa e da informação audiovisual, digamos, da informação tradicional. Esta é apenas uma opinião, a minha opinião. Opinião que fui construindo com base na necessidade de me manter informado e na procura de fontes alternativas de informação.

A opinião constrói-se com base na informação disponível, mas também da forma como a conseguimos descodificar e entender. E, o que não falta por aí é manipulação da informação com base no pressuposto que a generalização da estupidificação já foi conseguida. E, em boa parte esse objetivo, dos “donos disto tudo”, já foi conseguido com o beneplácito do poder político que lhe é submisso.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.

Aníbal C. Pires

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