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Nuno Melo

AZORES AIRLINES: O DESAFIO DA MOBILIDADE

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES AZORES AIRLINES: O DESAFIO DA MOBILIDADE




O processo de privatização de 49% do capital da Azores Airlines foi interrompido, tendo o Governo Regional dado indicações à empresa para cancelar o actual concurso e lançar um novo. O Governo Regional alega que uma fuga de informação que revelava as exigências do potencial comprador põe em causa a privatização neste concurso. A verdade é que este concurso já há muito parecia comprometido, pelo facto da Icelandair, único concorrente pré-qualificado, nunca ter cumprido os prazos para apresentar uma proposta concreta e ter forçado um processo negocial direto.

Circulam várias informações na imprensa sobre este concurso, mas também sobre a Icelandair: soube-se, há poucos dias, que aquela empresa adquiriu duas outras companhias aéreas, concretamente a WOW e 51% da Cabo Verde Airlines. A localização geográfica de Cabo Verde, no atlântico sul, a menos de 4 horas de voo do continente sul-americano, faz com que aquele arquipélago possa ser um concorrente dos Açores em termos de captar algumas rotas transatlânticas, para rentabilizar as companhias aéreas localmente sedeadas.

As exigências feitas pela Icelandair para eventualmente adquirir 49% da Azores Airlines, uma posição minoritária, não são descabidas: passavam por fazer uma espécie de test-drive à empresa durante seis meses, com um administrador da sua confiança, e depois propor um plano de negócios, que, caso fosse aprovado, resultaria na compra de 49% do capital. Caso não fosse aprovado esse plano de negócios, a compra do capital ficaria sem efeito, sem lugar a pagamento de qualquer compensação ou indemnização.

Não considero descabidas estas exigências do ponto de vista do comprador, devido às exigências do caderno de encargos, que prevêem a manutenção de rotas de serviço público entre Lisboa e Horta, Lisboa e Pico, Lisboa e Santa Maria, Ponta Delgada e Funchal, bem como a ligação de Ponta Delgada com Frankfurt, e das rotas a partir da Terceira e Ponta Delgada com Boston, Oakland, e Toronto. Por outras palavras, há no caderno de encargos obrigações de serviço público para manter a mobilidade dos açorianos.

A existência da Azores Airlines, do ponto de vista dos Açores, só pode justificar-se pela necessidade de se assegurar a mobilidade dos açorianos (e desse ponto de vista, a rota de Frankfurt para Ponta Delgada, não deveria ser uma exigência). Apesar disso, não seria aceitável que o Governo Regional considerasse a venda parcial da Azores Airlines sem manter as exigências de serviço público, com o resto do território nacional e com a diáspora. Se não o fizesse, seria melhor estratégia de venda alienar o total do capital, sem restrições, e tentar criar uma nova companhia aérea (ou adquirir outra ou forjar parcerias de longo prazo com companhias aéreas existentes), para assegurar a mobilidade dos açorianos. Já todos percebemos os riscos da mobilidade dos açorianos ficar entregue apenas a companhias com interesse exclusivamente comercial ou a low-cost: as oscilações de mercado poderão ditar o isolamento, por um lado, e o encarecimento das ligações dos Açores, por outro.

Sendo as obrigações de serviço público de mobilidade um aspeto essencial a manter, obviamente que a Icelandair quererá avaliar o resto para perceber onde poderá ir buscar o retorno que deseja deste investimento e com isso apresentar um valor de compra. Pode a Icelandair ter ainda um objectivo mais obscuro e mais grave: propor no plano de negócios o fim das rotas de serviço público…

O principal risco deste processo é o Governo Regional assustar-se com a falta de interesse de compradoras na Azores Airlines, e abdicar das exigências de serviço público. Caso isso aconteça, seria além de uma gravíssima irresponsabilidade política, um retrocesso civilizacional de quatro ou cinco décadas nas ligações aéreas de e para a Região, ficando os açorianos com menos ligações do que antes da existência da Autonomia, mas agora sem qualquer outra alternativa, uma vez que já nem existem as ligações marítimas.

A Azores Airlines não pode ser encarada apenas como negócio: tem que assegurar a mobilidade dos açorianos, mesmo que isso dê prejuízo. É óbvio que tem que ser bem gerida e o ideal seria obter lucros em rotas rentáveis para compensar os prejuízos no serviço público. O que nunca pode acontecer é deixar-se cair a mobilidade dos açorianos como objecto central da Azores Airlines (e, já agora, da Air Açores também).

13/11/2018
Nuno Melo Alves

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ESTUDO SOBRE MOTIVOS DA ABSTENÇÃO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES ESTUDO SOBRE MOTIVOS DA ABSTENÇÃO

 

Foi realizado um estudo a pedido da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), com o propósito de tentar encontrar as causas da elevada abstenção na Região, que é a mais alta do País. Apesar do nível da abstenção ser diferente conforme a eleição, nos Açores os resultados são sistematicamente mais altos que no resto do País. O estudo foi feito pela Universidade dos Açores e revela algumas coisas que devem ser aprofundadas para serem melhor compreendidas, sob pena de se agravar a situação em vez de a solucionar.

Os resultados do estudo revelam que, grosso modo, as pessoas culpam os governantes, os partidos políticos e os deputados pela abstenção. Esta situação é curiosa e perigosa. Curiosa, porque a maneira de mudar os políticos e os partidos é mudando o sentido de voto, portanto esta desconfiança pode ser causada por desconhecimento dos processos democráticos ou por algo mais profundo, como a aceitação dos clichés antipolíticos como sendo verdades universais e absolutas. Perigosa porque quando a única arma que os eleitores têm é abandonada, a governação corre livre e desinibida, o que também é motivo de preocupação.

É importantíssimo aprofundar e perceber as razões de os eleitores culparam os políticos, os partidos e os deputados pela abstenção, ou seja, de culparem outros pelo seu desinteresse. É que podem existir inúmeras razões. Desde logo, incompreensão em relação sistema eleitoral e aos arranjos que os sistemas parlamentar ou semi-presidencial permitem: em Portugal e nos Açores elegem-se órgãos legislativos, não executivos. Nunca, desde o 25 de Abril, houve um voto num primeiro-ministro ou num presidente de governo regional: só se votou em deputados à Assembleia da República e à Assembleia dos Açores. Mas a confusão prejudica, pois interfere com as expectativas e com as apreciações de desempenho.

Por outro lado, a falta de conhecimento (devido a algum excesso de complexidade orgânica na organização política) também pode levar a que as expectativas dos eleitores sejam defraudadas. A falta de linearidade entre o eleito e o eleitor desresponsabiliza ambos, mas permite ao primeiro mais rédea solta e provoca no segundo a sensação de alguma de impotência. Depois, há que perceber se as expectativas dos eleitores são legítimas ou inflacionadas, pelo seu imaginário ou pelas promessas ventiladas pelos políticos e pelos partidos, que assim contribuem para a sua própria descredibilização.

Em democracia, o processo democrático é tão importante quanto a liberdade de voto. É precisamente a consistência processual que permite que o voto seja livre e eficaz. As democracias portuguesa e açoriana, sendo processualmente sólidas, estruturalmente afastam os eleitores dos governantes, pela sua natureza parlamentar. O sistema parlamentar não é o único democrático e se calhar há que ter abertura suficiente para, em sede de revisão constitucional, alterar o sistema político português e o açoriano.

Por fim, há uma coisa que ainda é preciso perceber nos eleitores: é preciso saber se sabem perder. Ou seja, saber se sabem respeitar a decisão maioritária de outros. Na democracia portuguesa temos péssimos exemplos de mau perder, sobretudo na extrema-esquerda, que, aceita mal ser contrariada pela maioria que não lhe confere o voto. A questão é de saber se, além dos políticos sofrerem de partidite aguda, se também os eleitores não sofrem do mesmo mal. Dizer que a democracia não funciona por não se estar agradado ou de acordo com as decisões legitimamente tomadas também não é democrático. E é importante que se perceba este aspeto na opinião dos eleitores: se desconfiam dos governantes, dos partidos e dos deputados por não concordarem com as decisões por elas tomadas. É que a democracia também não se pode transformar num arraial de populismo, em que vale de tudo (mesmo falir o País) só para sacar o voto.

Este primeiro estudo deu umas boas pistas, sendo uma iniciativa louvável, mas ainda se está longe de se poder tomar decisões.

21/05/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

O FRACASSO E O SUCESSO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES O FRACASSO E O SUCESSO

 

O empreendedorismo tem sido umas das palavras mais na moda na boca do Governo da República e especialmente, do Governo Regional, nos últimos anos. O Governo Regional tem promovido várias iniciativas e apoiado o lançamento de empresas novas, através de incubadoras, de encontros que visam juntar financiadores com projetos empresariais, tem apostado em business parks – embora de forma muito concentrada em S. Miguel e mais recentemente na Terceira. Até têm sido criados cursos sobre o empreendedorismo e como se ser empreendedor.

Estas iniciativas são quase todas positivas e são formas de se dar uma mão ou uma ajuda a empresas no seu arranque. Isso é saudável na economia, desde que não crie concorrência desleal às empresas já existentes. Mexer na economia ou com a economia é sempre difícil. Em teoria, por si só, a economia atinge sempre os equilíbrios que tem que atingir. Na prática isso verifica-se também, mas apenas na medida em que o Estado, através dos impostos e da regulação, o permite. A regulação e tributação da economia alteram os equilíbrios, o que em muitos casos é razoável, justo e necessário, mas infelizmente, muitas vezes, por bem intencionadas que sejam, as intervenções do Estado na economia são caras e contraproducentes.

O entusiasmo do Governo Regional com o empreendedorismo é, em parte, o reconhecimento das limitações e lacunas da intervenção pública na economia, na medida em que fomenta a que sejam os privados a tomar as rédeas e o Estado ficar apenas a apoiar e ajudar. Como referi, este aspeto é positivo, mas pode-se ir mais longe.

A aposta no empreendedorismo não passa apenas pela formação e pela criação de apoios. Há uma condição fundamental para a que a economia funcione e que em Portugal ainda não está assegurada: a rapidez na resolução dos fracassos. Ou seja, as falências não podem ser processos de anos, mas de meses ou semanas; por outro lado, as falências não devem ser um impedimento a que um empreendedor abarque outros projetos.

Ao contrário da gestão e da economia, o empreendedorismo não se ensina. Há quem seja empreendedor e há quem não seja. Os empreendedores têm um perfil de aptidão para o risco económico que os não empreendedores não têm. A maior parte dos empreendedores de sucesso, à escala mundial, nacional ou local, têm vários fracassos acumulados até atingirem o sucesso. O que importa é não criar estigmas à volta do fracasso pontual e, sobretudo, impedimentos. É um lugar-comum dizer-se que não faz mal cair-se, desde que se levante a seguir e que o mal é não se levantar depois de uma queda, mas é um lugar-comum que é essencial no empreendedorismo. Esta é precisamente uma das facetas do perfil de empreendedor, que não se ensina nos cursos de economia ou gestão: como se levantar, como persistir, como encontrar outro rumo até ao sucesso.

Tão importante como ajudar os empreendedores no caminho para o sucesso é não impedir que os que falham possam ter sucesso noutra iniciativa. É que os empreendedores, por natureza, já são poucos na sociedade; reduzir ainda mais o número criando entravas aos que que falham numa primeira tentativa, é um erro.

14/05/2019
Nuno Melo Alves

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Nuno Melo

O COMBATE AOS PLÁSTICOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES O COMBATE AOS PLÁSTICOS

 

Já aqui abordei a cegueira com que se tenta, por vezes, concretizar as boas intenções. Um exemplo disso foi a diabolização feita aos sacos de plástico nas superfícies comerciais, que culminaram na aplicação de taxas pelo seu uso e pela sua substituição por sacos de plástico mais grosso (portanto, reutilizáveis) ou por sacos de outros materiais, como o algodão.

Há cerca de um ano foram notícia dois estudos, um efetuado pela Agência de Proteção Ambiental da Dinamarca e outro pelo Governo do Quebeque, no Canadá, que indicam que os simples sacos de plástico têm menor pegada ambiental que os sacos de plástico reforçado, de polipropileno, polyester ou de algodão. Foi uma bofetada (ou pelo menos deveria ter sido) em muitas medidas ambientais feitas à pressa e sem ponderação, que visavam controlar a “praga” dos sacos de plástico, mesmo sem ter em conta que existem sacos de plástico mais fininhos, reutilizáveis e biodegradáveis, que nada têm a ver com os plásticos nocivos para o ambiente.

Este ano, o PS-Açores, com o apoio do Governo Regional, lançou-se numa campanha contra os plásticos descartáveis, sobretudo dirigida ao sector da hotelaria e restauração. Não sei se as tascas das festas tradicionais dos Açores foram esquecidas ou se são incluídas no sector, mas talvez o PS-Açores queira pensar melhor a sua proposta.

A proposta, na prática, impedirá que os restaurantes e hotéis e demais estabelecimentos definidos do conceito de hotelaria e restauração, de vender garrafas de águas ou de sumo feitas de plástico e de servirem refeições com talheres e pratos de plástico, ou até de vender ou comercializar qualquer produto em embalagens de plástico, mesmo que comprem esse produtos aos fornecedores em embalagens de plástico. O principal problema do abuso dos plásticos não biodegradáveis nas embalagens não está na hotelaria e na restauração, nem no consumidor: está nos fabricantes ou nos distribuidores que empacotam os seus produtos em plástico.

É comum irmos ao supermercado e vermos um produto biológico numa embalagem de plástico; os queijos dos Açores estão quase sempre embrulhados em plástico… Os produtos de higiene doméstica são embalados em plástico, tal como as comidas, os óleos industriais, os químicos agrícolas, os produtos de higiene e cuidados pessoais, os alimentos dos animais, etc. etc. Existem inúmeras gamas de produtos que recorrem ao plástico para embalagens, para não falar dos rolos de plástico impermeável que são utilizados para selar as paletes de transportes de mercadoria ou para fazer silagem nas pastagens.

Por outras palavras, as medidas propostas pelo PS Açores com o apoio do Governo Regional parecem ridículas, porque ao que tudo indica, apenas criarão dificuldades ao sector de hotelaria e restauração, aumentando os custos desta atividade, mas permitindo que toda a restante atividade económica possa continuar a usar embalagens de plástico.

Seria mais sensato e eficaz tentar fomentar a imagem verde dos açores através da gradual obrigação dos produtos fabricados ou transformados na Região serem acondicionados em embalagens biodegradáveis. Mas este objetivo nunca poderia ser uma medida avulso. Teria que ser precedido pelo apoio a investimentos na fabricação de embalagens alternativas, como uma que a Universidade dos Açores desenvolveu no Pólo da Terceira. Os professores e cientistas da UAç. desenvolveram uma película, biodegradável e comestível, para substituir o uso de plásticos na proteção de queijos. Isto é precisamente o tipo de embalagem que tem todo o interesse e valorizaria a imagem do queijo dos Açores e sendo uma invenção regional poderia ser importante para impulsionar a economia terceirense e açoriana.

Mas não, também neste caso, como no hidrogénio, o PS-Açores e o Governo Regional mostram que não sabem aproveitar e apoiar os recursos tecnológicos e intelectuais da Região, – e se fizessem, aí sim estariam a criar uma cadeia de valor económico -, mas antes optam por medidas simplistas, penalizadoras da economia açoriana e de eficácia muito limitada, como a proibição do uso de plásticos descartáveis na restauração e hotelaria…

07/05/2019
Nuno Melo Alves

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