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Paulo Casaca

No rescaldo da censura europeia à Hungria

Paulo Casaca

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PAULO CASACA No rescaldo da censura europeia à Hungria

 

A condenação formal da Hungria, no Parlamento Europeu, por violação dos valores europeus fundamentais, fez explodir o seu maior partido, o Partido Popular Europeu, e torna improvável a sobrevivência do ‘centrão’ feito de uma coligação de partidos à esquerda e à direita que sempre dominou a construção europeia.

Tudo aponta para que o líder húngaro Viktor Orban tenha recusado qualquer cedência na gestão política do seu país, cedência essa indispensável para manter um compromisso com o seu partido, e aposte agora em liderar, mesmo que informalmente, o bloco dito ‘populista’ em formação, infligindo uma pesada derrota à chanceler Angela Merkel que tudo fez para manter o compromisso.

A derrocada do principal partido do centrão é uma vitória para Emmanuel Macron, que tem multiplicado nos últimos dias os passos para constituir a sua ‘aliança progressista’ que pretende fazer na Europa o que fez com tanto sucesso em França: pulverizar o sistema partidário tradicional, confrontar e estancar o populismo antieuropeu e aparecer como a alternativa jovem e moderna aos velhos ritos e partidos.

O principal trunfo da ‘aliança progressista’ – a esmagadora vitória de Macron em França – é também o seu principal óbice, porque já serviu para evidenciar que a agenda progressista de sociedade convive com a agenda político-financeira de todos os grandes interesses e com uma ausência de capacidade estratégica de enfrentar os desafios europeus.

No imediato, a nova aliança ameaça tanto o PPE como os socialistas, que em numerosos casos dão indicações de estar inclinados a integrá-la, como mesmo os liberais, que tinham conseguido manter alguma autonomia estratégica europeia.

Numa bipolarização entre a difusa frente macronista e aquilo que eu chamei de ‘fusão’ – o largo espectro de forças da direita à esquerda de tendência nacionalista, populista e pró-russa – é incerto saber quem ganha, mas é certo que enfrentaremos a partir de Maio de 2019 uma Europa com um visual marcadamente diverso daquele que tivemos até hoje.

Bruxelas, 2018-08-28
Paulo Casaca

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O ARMISTÍCIO E O ‘EXÉRCITO EUROPEU’

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O ARMISTÍCIO E O ‘EXÉRCITO EUROPEU’

 

O chefe de Estado francês escolheu as celebrações do centenário do armistício para invectivar ‘o nacionalismo e o populismo’, após ter colocado no centro da opinião pública o projecto de ‘Exército Europeu’ destinado, como explicou, a defender a Europa ‘da Rússia, da China e dos Estados Unidos da América’ e de ter ainda ensaiado a reabilitação do principal colaborador francês de Hitler, o marechal Pétain.

Sendo certo que o tema não é novo nas instituições europeias, é esta a primeira vez em que ele surge na primeira linha da opinião pública e que lhe são apontados objectivos concretos, num contexto pré-eleitoral.

Há tempo para tudo, e seria bom que os cem anos do armistício tivessem antes sido usados para homenagear os caídos; todos os caídos, não esquecendo ninguém; tão pouco os inúmeros chineses trazidos para a frente de guerra que foram dizimados em operações logísticas na foz do rio Somme e que repousam hoje no cemitério de ‘La Nolette’, o maior cemitério chinês na Europa. E falo dos chineses, como poderia falar dos portugueses, dos sérvios, dos russos ou dos indianos, todos seres humanos que não podem ser esquecidos.

E quando se tratar de defesa, seria também essencial que se soubesse identificar com clareza o que se pretende defender, sendo patética a identificação do país que assegura o essencial da defesa europeia como inimigo.

A chanceler alemã veio ao Parlamento Europeu dois dias depois reafirmar o seu apoio ao ‘exército europeu’ e transformá-lo no centro incontornável das próximas eleições europeias. Pela minha parte, que fique claro que me parece impossível passar um cheque em branco à proposta surgida em termos que reputo serem inaceitáveis.

Ponta Delgada, 2018-11-14

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A SAGA DE ASIA BIBI

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A SAGA DE ASIA BIBI

 

Asia Bibi, cristã paquistanesa, teve a ousadia de beber água pelo copo reservado a muçulmanos e, pior ainda, quando confrontada com o crime, ousou formular a pergunta que lhe valeu a sentença de morte: ‘Não somos todos humanos?’

Assistimos no Paquistão ao endurecimento de um sistema de perseguição às minorias religiosas, a que o Fórum Democrático da Ásia do Sul dedicou há alguns meses atrás um estudo sintético mas exaustivo. O sistema assenta na lei supostamente destinada a punir blasfémias e em grupos jihadistas que a aplicam à margem do sistema judicial e que já fizeram centenas de vítimas.

Asia Bibi foi presa em Junho de 2009 e condenada à morte em 2010. Quem ousou levantar a voz por ela, como o Governador da Província do Punjab ou o Ministro das Minorias, foi assassinado. O Supremo Tribunal Federal do Paquistão inocentou-a finalmente a 31 de Outubro, mas o actual Primeiro-ministro acordou com o principal grupo jihadista paquistanês não a deixar fugir do país, o que equivale a uma condenação à morte.

Perante isto, as Nações Unidas, que elegeram recentemente o Paquistão para a sua Comissão de Direitos Humanos, e a União Europeia, que, em nome desses mesmos direitos humanos, faz ao Paquistão as maiores concessões comerciais, limitaram-se, até agora, a aconselhar o advogado de Asia Bibi a fugir do país se não quisesse ser morto.

Pela minha parte, gostaria de redirigir aos nossos líderes a pergunta que valeu a Asia Bibi a condenação à morte por blasfémia: não somos todos humanos? Por que razão então se silenciam os crimes do Jihadismo?

Bruxelas, 7 de Novembro de 2018

Paulo Casaca

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FRAUDE FISCAL BANCÁRIA NA EUROPA

Paulo Casaca

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PAULO CASACA FRAUDE FISCAL BANCÁRIA NA EUROPA

 

Uma equipa de 38 jornalistas de 18 organismos de comunicação social de doze países europeus – liderada pela ‘Correctiv’, uma organização alemã sem fins lucrativos – concluiu e divulgou em Outubro o resultado de uma investigação de dois anos a sistemas europeus de reembolso de impostos que nunca foram pagos e que, desde 2001 até ao ano passado, terão lesado o contribuinte europeu em, pelo menos, cinquenta e cinco mil milhões de euros.
https://cumex-files.com/en/
Os esquemas, só na Alemanha, terão envolvido uma centena de bancos e inúmeros gabinetes de advogados e peritos financeiros, e terão sido iniciados por um alto funcionário do fisco que transitou para o sector privado.

O essencial da notícia é que estes sistemas que supostamente teriam terminado em 2016 – as autoridades alemãs anunciaram o ano passado a detecção de 12 mil milhões de euros em fraudes – continuam a ser praticados, aumentando o grau de sofisticação em resposta às medidas das administrações fiscais.

Como afirmam os autores do relatório, na base do negócio estão a ética do dinheiro acima de tudo; os códigos fiscais tão complexos que nem os seus autores os conseguem entender; o princípio sagrado do segredo fiscal e a óbvia complacência ou mesmo cumplicidade das administrações e dos seus responsáveis políticos por este estado de coisas.

Este escândalo – sobre o qual a imprensa portuguesa tem mantido uma notável discrição – é provavelmente o maior de sempre, e leva-nos naturalmente a duvidar das repetidas garantias de que tinham sido tomado medidas para evitar a repetição do desastre financeiro de há dez anos atrás.

Bruxelas, 2018-10-31
Paulo Casaca

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