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Nuno Melo

RECURSOS HIDIRÍCOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES RECURSOS HIDIRÍCOS




As festas da Serreta são um marco por diversas razões. Além das razões intrínsecas à festa, são uma espécie de encerramento do verão e de abertura do outono. É por esta altura do ano que se começa a sentir um arrepio à noite e se nota, a par com os dias mais curtos, um subtil mas claro baixar da temperatura. Este ano, o fim-de-semana das festas de Nossa Senhora dos Milagres da Serreta decorreu sob um céu azul despido da habitual nebulosidade, e com o mesmo calor intenso que caracterizou a maior parte do verão açoriano.

Diz-se que uma andorinha não faz a primavera. Portanto, este verão anormalmente bom, e que vem na esteira de um verão de 2017 que também foi muito quente, não deve ser por si só, um sinal das badaladas mudanças climáticas. Mas existem outros sinais: várias ilhas dos Açores estão a atravessar uma seca que dura desde março.

Vários cientistas da Universidade dos Açores têm alertado que a mudança dos ciclos de pluviosidade nos Açores já configura uma mudança climática. A chuva está a concentrar-se em menos meses do ano e está a perder-se precipitação nas zonas abaixo dos 400 metros de altitude. Isto significa que terão que haver ajustes na gestão dos recursos hídricos.

A seca foi mais notória na agro-pecuária e na maior parte das ilhas não afetou o consumo normal das populações, mas isso não significa que se possa ficar descansado em relação ao futuro. O Governo regional não tem sabido lidar com esta questão, preferindo apoiar a lavoura com subsídios para combater os efeitos da seca, pois assim consegue manter o setor dependente, do que investir na prevenção da falta de água. As câmaras municipais, regra geral, têm seguido o mesmo rumo. Contudo, recentemente o Governo Regional, pela voz do Diretor Regional do Ambiente, indicou que o consumo de água nos Acores representa apenas 5,7% da disponibilidade deste recurso e que ter-se-á que investir mais nos sistemas de captação, investimento e abastecimento. As palavras do diretor regional são sábias, mas até agora nem governo, nem câmaras, têm feito o necessário.

A organização económica e social criou novos consumos de água. Não podem as câmaras e governo, perante as situações mais frequentes de seca, pedir às populações comportamentos contrários aos que têm incentivado durante anos: que se passe sede, que se reduza na higiene, que se regresse a um tipo e estilo de vida há muito abandonado. Também não se pode pedir à lavoura que procure outra forma de produção, que consuma menos água, até porque o turismo aumenta o consumo de água. E não se pode considerar como desperdício ou nefastas práticas que já fazem parte do bem-estar da sociedade. Não se pode querer aumentar a população e ao mesmo tempo baixar o consumo de água. Há coisas que são incompatíveis.

Há muito que pode ser feito, desde logo evitar o desperdício, sobretudo as perdas no circuito da captura, armazenamento, tratamento e distribuição dos recursos hídricos. Mas existem outras soluções, como a plantação de certas espécies que capturaram água da humidade do ar, devolvendo-a ao solo e recarregando as nascentes, ou como o aproveitamento da água das ribeiras que despejam no mar.

Está mais que na altura das câmaras e governo regional planearem e concretizarem soluções para esta alteração climática. A falta de água é um problema nos Açores e continuará a ser, se as autoridades não começarem a tratar do assunto. Do ponto de vista do ambiente, isso é muito mais importante, do que gastar dinheiro público em carrinhos elétricos, embora não ganhe tantos votos.

11/09/2018
Nuno Melo Alves

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TURISMO AOS BOCHECHOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES TURISMO AOS BOCHECHOS




Durante muitos anos reclamou-se da falta de melhores condições para o desenvolvimento do turismo na Região. Reclamou-se das ruinas dos hotéis inacabados ou abandonados, alguns dos quais apenas agora começam a ter solução. Reclamou-se das más ligações aéreas e marítimas, devido aos preços elevados e à falta de ligações. Hoje reclama-se dos erros cometidos pela SATA Internacional, que se empenhou em mercados supostamente de turismo, tendo tido prejuízos que condicionam a sua actividade; reclama-se da falta de condições para a Air Açores fazer reencaminhamentos e o transporte regular de açorianos entre as diversas ilhas. Hoje, com o novo modelo de transporte aéreo, que inclui uma forma de liberalização das ligações aéreas, reclama-se dos preços ainda mais elevados que há três anos e da falta de ligações em várias ilhas, bem como de sua maior dependência a um único operador aéreo.

Há uns anos reclamava-se da falta de oferta de alojamentos condignos para ao turismo, em diversas ilhas; hoje, levantam-se vozes contra o excesso de alojamentos e a Região debate-se com um problema de unidades ilegais. Durante anos debateu-se, sem se chegar a qualquer conclusão, muito menos uma conclusão definitiva, se o turismo deveria ser de massas ou de luxo. Hoje, lamenta-se, nalgumas ilhas, o excesso de turistas, querendo-se limitar o acesso a algumas das maravilhas naturais dos Açores, mas em simultâneo, noutras ilhas, quer-se impedir modelos de turismo de resorts de luxo, supostamente menos propícios a permitir excesso de turismo.

O destaque a estes aparentes contra-sensos não é uma forma de criticar algum suposto estado de espírito dos açorianos, caracterizado por ser do contra ou por nunca estarem satisfeitos com as soluções encontradas. São, antes, constatações que resultam das várias opções, por vezes contraditórias, que têm vindo a ser implementadas no sector turístico regional. Há alguma falta de coerência nas políticas sectoriais envolvidas directamente no turismo e há um excesso de visão Regional no diagnóstico e nas soluções para o sector.

E há, infelizmente, um lastro grande de medidas e projectos fracassados. Recorde-se os casos dos milhares de euros pagos aos operadores para levar os turistas nórdicos que chegavam a S. Miguel à Ilha Terceira. Ou o caso do chamado Hotel dos Franceses, também na Terceira, empreendimento que contaria com o abastecimento de hóspedes garantido por operações diretas entre a França e a aquela Ilha, mas que culminou com o encerramento desta unidade pouco tempo depois de abrir e com elevados prejuízos para a Região devido aos apoios investidos no projeto. Estes fracassos devem ter deixado lições que importam incorporar numa estratégia regional de turismo; tal como os anos desde a construção das Portas do Mar e desde a liberalização dos aeroportos da Terceira e de S. Miguel.

As diferentes realidades, endógenas e exógenas, de cada uma das ilhas, exigem respostas mais personalizadas e não regras feitas para o global da Região. O turismo tem condições para crescer de forma diferentes nas diferentes ilhas, com alguns nichos diferenciados e com produtos diferenciados e possivelmente complementares. As repostas do sector devem ser ajustadas às realidades, pese embora sempre balizadas por padrões de qualidade e excelência.

As entidades responsáveis pelo turismo, concretamente os operadores nas diversas ilhas e as câmaras de comércio que os representam, bem como o Governo Regional pelas responsabilidades políticas que tem, devem retomar uma reflexão sobre a estratégia de desenvolvimento do turismo nos Açores. Naturalmente que essa estratégia deve ser integrada com os transportes e deve debruçar-se sobre o negócio turístico, em todas as suas vertentes.

Se isso não acontecer, continuaremos a ter um desenvolvimento da actividade aos bochechos, sem nexo e com enormes riscos económicos e ambientais; e com impacto económico relevante apenas nalgumas parcelas dos Açores.

25/09/2018
Nuno Melo Alves

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MOBILIDADE LABORAL

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES MOBILIDADE LABORAL




O Presidente do PS Açores, que também é Presidente do Governo Regional, anunciou no Congresso Regional daquele partido que decorreu durante o fim-de-semana, algumas medidas que, suponho, serão implementadas pelo Governo Regional. Uma medida deixou-me curioso. Chama-se MOVE Emprego e visa, passo a citar “apoiar os açorianos e as empresas a contratarem trabalhadores ou a procurar ofertas de emprego noutra ilha, em setores e ilhas carenciadas desses recursos, apoiando a mobilidade regional interna para setores carenciados de recursos humanos ou ilhas com redução demográfica”.

Estou muito curioso, por várias razões. Desde logo, porque os portugueses não têm uma cultura de mobilidade. Ao contrário, por exemplo, dos EUA, onde as famílias mudam de casa com frequência, atravessando o País à procura de empregos melhores, em Portugal não há essa tradição de mobilidade, na frequência e na intensidade. É verdade que os portugueses sempre emigraram. E é verdade que sempre saíram do interior rural para o litoral urbano. Como é verdade que os açorianos saíam e saem das suas ilhas para estudarem e para trabalharem. A diferença para a cultura de mobilidade americana é que normalmente estas mudanças ocorrem poucas vezes ao longo da vida e tendem a tornar-se permanentes, enquanto nos EUA é um fenómeno muito mais dinâmico e menos permanente. A estabilidade é mais valorizada que o desassossego de procurar de melhorar.

Nos EUA, um quarto da população muda de casa de cinco em cinco anos. Alguns dados não oficiais indicam que cada americano muda de casa, em média, mais de 11 vezes na sua vida, enquanto na Europa esse valor desce para 4 vezes e em Portugal para 3 vezes. Em Portugal cultiva-se mais a posse da casa do que nos EUA e os mercados e arrendamento habitacional são muito condicionados; nos EUA, o arrendamento habitacional é muito dinâmico e a posse imobiliária é muitas vezes vista como temporária, até se encontrarem melhores oportunidades de trabalho ou de vida.

Apesar das facilidades que a desmaterialização trouxe aos serviços públicos em Portugal, ainda persistem algumas burocracias com custos exagerados.

A menor mobilidade (ou maior estabilidade) é muitas vezes tida como um fator que não optimiza a economia, na medida em que não permite que a pessoa certa vá para o trabalho certo. Mesmo com o crescimento económico e o impulso à mobilidade que a União Europeia provocou, ainda é claro que a mentalidade predominante em Portugal não mudou.

No caso dos Açores, existem uma agravante específica que penaliza a mobilidade: a descontinuidade territorial.
A descontinuidade territorial é o maior desafio da Autonomia: na economia, na vida social, na cultura, no bem-estar, na educação, nos tratamentos médicos, etc… Encontrar formas de ultrapassar essa descontinuidade territorial é a principal ferramenta necessária ao desenvolvimento dos Açores, mas por si só pode não ser suficiente. E obviamente que uma rede de transportes eficaz será a melhor ferramenta para reduzir os efeitos a descontinuidade.

Esta pode ser uma medida útil e importante por reconhecer a utilidade da mobilidade laboral para o desenvolvimento económico e social – e até poderá contribuir para concretizar a tal rede eficaz de transportes que ainda está longe de completa. Se resultar, poderá ainda ajudar o mercado interno.

Por tudo isto, pelo contexto em que surge e pelos impactes positivos que pode ter, tenho enorme curiosidade em saber quais as respostas que o MOVE Emprego trará e como se irá materializar em termos práticos.

18/09/2018
Nuno Melo Alves

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EXTREMA-ESQUERDA ESPECULATIVA

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES EXTREMA-ESQUERDA ESPECULATIVA




O episódio que rodeia o vereador do Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa veio expor alguns dos podres daquele Partido. Ricardo Robles acabou por demitir-se de vereador ontem, devido a este caso, que por si só não tem nada de mal, pois ao que se sabe o ex-vereador do BE nem sequer se aproveitou da sua posição política na Câmara de Lisboa para acelerar licenças ou outras coisas. Limitou-se a fazer em algo que se faz em todo o lado: investiu no sector imobiliário para ganhar dinheiro. Comprou barato e agora está a tentar vender caro, o que é, ao fim ao cabo, a primeira (senão a única) lição de negócios e de empreendedorismo.

O ex-vereador do BE na Câmara de Lisboa comprou, em 2012, um prédio em Alfama, zona de Lisboa muito na moda e cara. O prédio foi posto à venda pela Segurança Social e, para os mais esquecidos, o ano de 2012 foi um dos anos de choque e recessão económica. Em 2012 o País atravessava o auge da crise causada pelo excesso de dívida e também pelo impacto das medidas correctivas impostas pelo resgate financeiro e pela Troika, e os organismos públicos vendiam edifícios, um dos quais foi comprado pelo dirigente do BE.

O que ele fez foi igual ao que outros investidores com dinheiro para aplicar fizeram: recuperou o edifício, limpou com alguns inquilinos e a outros aumentou a renda, e depois de ter requalificado e recuperado o prédio, com recurso a crédito bancário, colocou-o à venda, numa altura em que o mercado imobiliário está em alta, na esperança de obter uma mais-valia superior a 4 milhões de euros. Sem qualquer ironia, isto é efectivamente um negócio de sucesso e foi um investimento inteligente. O ex-vereador do BE foi inteligente na sua visão de negócios.

O problema é que o Bloco de Esquerda e o seu dirigente Ricardo Robles, consideram que, quando outros fazem um negócio assim, se trata de especulação imobiliária e que isso é algo a ser travado e combatido, sendo uma espécie de crime lesa-universo. O próprio vereador do BE, dizia há pouco tempo estar do lado dos moradores contra a especulação imobiliária, ao mesmo tempo que praticava aquilo que o Bloco considera ser precisamente especulação imobiliária. Ou seja, este bloquista prega uma coisa, mas faz o seu oposto.

Não há dúvida sobre a legalidade do que Ricardo Robles fez, tal como não há dúvida da dualidade política de fazer para seu benefício aquilo que tão empenhada e activamente tenta combater que outros façam. O assunto poderia ter morrido por aqui: poderia ter ficado reduzido a um excesso de um militante que não cumpre com a ideologia e com os princípios que professa.

Só que a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, deve achar que o seu partido está acima de escrutínio e que quem se junta ao seu clubezito político pode dizer uma coisa, e fazer outra; pode mandar proibir que se ganhe dinheiro na especulação imobiliária, abrindo uma excepção apenas aos bloquistas. A líder do BE deve achar que o seu Partido pode propor leis para limitar aquilo que os portugueses fazem, mas sem aplicar as proibições aos seus camaradas do Bloco.

E isto não pode ser. O que era apenas um caso de um dirigente político do Bloco de Esquerda que não cumpre com a cartilha que prega – e tem todo o direito de o fazer – passou a ser um caso em que o Bloco está comprometido e que fere as suas próprias políticas ao aceitar e proteger politicamente o comportamento de Ricardo Robles.

O Bloco de Esquerda fere-se a si próprio e confirma que realmente lhe assenta bem o mimo de ser esquerda-caviar. O BE, com a forma como tem lidado mal com este caso, perdeu toda a autoridade que tinha para falar de especulação imobiliária e de abusos por grandes grupos económicos. É que a especulação imobiliária não pode ser uma coisa boa apenas quando beneficia a extrema-esquerda.

31/07/2018
Nuno Melo Alves 



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