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Paulo Casaca

Memórias e tradições da ilha do Corvo

Paulo Casaca

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PAULO CASACA Memórias e tradições da ilha do Corvo

 

Chegou-me este Verão a Bruxelas o livro “As Memórias e Tradições da ilha do Corvo”, da autoria de Fernando Pimentel. É a ocasião para eu abraçar as memórias de quem lá vive, casá-las com as minhas, recordar e sonhar com a próxima viagem, reencontro e alargamento às gerações futuras de algo que é tão profundamente parte de mim.

Como o autor nos descreve, o Corvo é o Espírito Santo, esse monumento a tudo o que de melhor já vi a religião conceber, com surpreendentes marcas singulares de identidade que nos ajudam a entender um pouco mais do percurso do culto que simboliza os Açores.

A construção política corvina, ‘a democracia cristã de lavradores’ de que nos falou Raul Brandão, é aqui explicada como a comunidade dominada pelo Outeiro e os seus mecanismos de decisão e comunicação, conjugando o comunitário e o privado na gestão do baldio, organizando o dia da lã ou a partilha do porco.

Não se trata da receita universal para a harmonia que proscreve o conflito, como o autor nos exemplifica com a eclosão de filarmónicas rivais que se confrontam duramente, influenciadas por conflitos de gerações e por lógicas políticas, antes de encontrarem uma solução de consenso.

Passa-se em revista a preciosa monografia da produção e uso da lã, do vocabulário local, da moagem, da culinária, das práticas agrícolas, da pequena e da grande história que fazem a história e a identidade do Corvo.
Muitos parabéns ao autor e um convite a todos que nos ouvem para a leitura do texto e contemplação das expressivas fotografias das ‘Memórias e tradições da ilha do Corvo’.

Bruxelas, 2018-08-02
Paulo Casaca

Paulo Casaca

O PREÇO DOS NEGÓCIOS POLÍTICOS VENEZUELANOS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O PREÇO DOS NEGÓCIOS POLÍTICOS VENEZUELANOS

 

Embora frequentemente nos falem dos custos do nosso país com a educação ou a saúde, fala-se bastante menos do domínio em que Portugal é o campeão europeu: o pagamento pelo contribuinte dos maus negócios bancários.

Mas quando se fala do tema é por regra para dizer que a culpa é do senhor A do partido X ou da senhora B do partido Y ou ainda da personalidade mediática C amiga de Z, mas raras vezes se fala das lógicas e razões que nos levaram a este estado de coisas.

Apenas por mero acaso – Maduro queixou-se publicamente – se soube pela imprensa portuguesa que o Novo Banco tinha conseguido arrestar 1200 milhões de dólares que o regime de Maduro tentava transferir para o Uruguai.

E neste país assoberbado com a magna questão de saber da lista dos grandes devedores à banca – e por via disso, ao contribuinte português – ninguém se terá colocado a questão de saber como foi que esse devedor de pelo menos 1200 milhões de dólares, e seguramente muito mais, terá escapado às primeiras páginas da imprensa.

Assisto com espanto ao desfile mediático de figuras políticas de proa que agrilhoaram o contribuinte português a obscuras operações financeiras mascaradas de oportunidades de negócio para as empresas portuguesas na Venezuela à denúncia do regime de Maduro, figuras que só podem sentir-se confortadas com o apoio ao ditador vindo da esquerda comunista e companheiros de percurso.

Vejo na imprensa ou nas redes sociais um debate sobre os volatilizados milhões da banca feito como se toda a opinião pública se resumisse a revistas de sociedade sem ninguém equacionar o exponencial endividamento externo português como fruto da endogamia do nosso sistema político-financeiro e da falta de escrúpulos com que os seus representantes se envolveram em negócios com os menos recomendáveis protagonistas internacionais.

Não creio que seja difícil fazer uma auditoria político-financeira a este estado de coisas se porventura alguém tiver a sensatez e a coragem política para o fazer.

Bruxelas, 2019-02-20
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

DO OUTRO LADO DO RIO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA DO OUTRO LADO DO RIO

 

Em Setembro, quando viajei de Chitagong até aos imensos campos de refugiados que se estendem ao longo da margem direita do rio Naf na fronteira do Bangladesh com a Birmânia, passando pela zona sob controlo militar tradicionalmente habitada pelos Chakma, logo pensei em ver a realidade da outra margem do rio.

Os intensos combates que se têm desenvolvido nos últimos dias na zona inviabilizaram a ideia, tendo eu no entanto aproveitado a minha presença em Myanmar, nome por que hoje é mais conhecida a Birmânia, para ouvir os pontos de vista de vários importantes actores birmaneses sobre o conflito.

Myanmar, depois do golpe militar de 1962, realizado em nome de um ‘socialismo’ que faz pensar na Venezuela dos nossos dias, tornou-se num dos mais despóticos e subdesenvolvidos países asiáticos, situação de que está agora apenas lentamente a emergir com um sistema político híbrido feito de equilíbrios entre militares e líderes eleitos.

Como frequentemente acontece nestes casos, os problemas têm raízes históricas profundas, mas a história é mais utilizada como instrumento para inviabilizar um futuro diferente do que como meio de perceber melhor que soluções existem para melhorar o presente.

O ponto de partida é que nem no vocabulário se consegue entendimento; preferindo uma parte o termo de Arakan, inspirado no Aracão utilizado pelos descobridores portugueses para designar a região e outra parte o Rhakine, inspirado no que se pensa ser a forma como seriam designados os primitivos habitantes da região; enquanto os refugiados no Bangladesh se consideram como rohingyas, mas são denominados de bengalis.

Na sociedade civil, há líderes religiosos que são parte do problema, talvez mesmo a parte essencial do problema, mas há outros que procuram soluções baseadas na santidade da vida humana, e é para estes últimos que agora viro as minhas intenções.

Creio que é tempo de os ouvir e de abrir novos caminhos para a forma de encontrar soluções sustentáveis para os tremendos problemas humanos que enfrentamos.

Yangon, 2019-02-13
Paulo Casaca

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Paulo Casaca

REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

Paulo Casaca

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PAULO CASACA REPENSAR O DESENVOLVIMENTO RURAL

 

O Movimento para a ‘Vida Rural’ iniciado nos EUA no último quartel do século XIX deu lugar à ‘Comissão para a Vida Rural’ instaurada em 1908 pelo Presidente Theodore Roosevelt, comissão que pode ser considerada a primeira instituição moderna vocacionada para a promoção do desenvolvimento rural.

Depois dos EUA, tivemos a Índia e a Europa, e mais recentemente o movimento generalizou-se através do mundo, utilizando instrumentos muito diversos que mantiveram contudo a mesma preocupação central de permitir ao mundo rural níveis de desenvolvimento equiparáveis aos disponibilizados em meio urbano.

Na União Europeia, a política de desenvolvimento rural foi protagonizada pelo programa ‘Leader’ cuja primeira edição data de 1991 como uma forma mais eficaz de promover o rendimento da população rural do que a política de intervenção nos preços agrícolas.

Na sua proposta de orçamento plurianual para 2021-2027 o desenvolvimento rural é a grande rubrica orçamental que sofre os maiores cortes, com a Comissão a propor uma redução de 28%, que poderá ser parcialmente compensada com decisões dos Estados de alimentar esse orçamento diminuindo as subvenções directas à agricultura, possibilidade essa que me parece no entanto pouco realista.

Creio que a secundarização do mundo rural pelas instâncias europeias é um erro crasso que contribui mais ainda para o seu afastamento das preocupações dos cidadãos e não é alheio ao profundo descontentamento rural sentido em países como a França.

Curiosamente, o desenvolvimento rural que a União Europeia agora quer abandonar está a ser impulsionado com novas valências no Sul e sudeste asiático, com organizações de desenvolvimento rural do Nepal à Birmânia a equacioná-lo também como instrumento transfronteiriço de diálogo e de paz.

É talvez uma questão a ter em conta nas eleições europeias que se aproximam.

Bruxelas, 2019-02-06
Paulo Casaca

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