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Opinião

A TAUROMAQUIA NÃO É UMA HERANÇA CULTURAL

Pedro Neves

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PEDRO NEVES A TAUROMAQUIA NÃO É UMA HERANÇA CULTURAL

 

No dia 6 de Julho, o PAN, apresentou o Projecto de Lei que determinava a abolição de corridas de touros em Portugal.

Num acto de “bravura”, e mesmo sabendo que quase todos os deputados ou eram contra ou não tinham liberdade de voto, o deputado do PAN interveio de forma trovosa num plenário excepcionalmente ruidoso.

Nós sabíamos de antemão da dificuldade que nos esperava e que a aprovação desta iniciativa seria um conceito tão admirável como remoto, pelo seu contraste proporcional. Era previsto, em nome de uma consciência plena e da democracia representativa, que os partidos caucionassem a liberdade de voto aos seus deputados, conferindo assim a vontade expressa e individual de cada pessoa que se senta numa cadeira com competência legislativa e soberana.

Os partidos, ao retirarem esse poder de quem representa uma assembleia, blindaram e desvirtuaram a noção inicial de quem queria ou não promover uma actividade disfarçada de herança cultural.

Essa herança cultural e a cultura são argumentos frequentemente utilizados na hora de justificar a existência de espectáculos tauromáquicosa pretexto de uma pretensa manifestação de expressão artística e a coberto da dignidade constitucional do direito à cultura, com total desconsideração pelo conhecimento científico que reconhece os animais como seres sencientes dotados de consciência e ignorando por completo os ecos de modernidade que, um pouco por toda a parte, reivindicam mais e melhor protecção para os animais não-humanos.

Perante as características desumanas da prática, que não respeita os direitos básicos humanos e por inerência, os não humanos fundamentais, não consigo vislumbrar enquadramento para incluir uma prática com a qual apenas uma pequena parcela da comunidade se identifica e deseja ver reconhecida com expressão cultural, funcionando como um lobby que se opõe a uma certa evolução das mentalidades e em nada abona a favor de um desenvolvimento sustentável.

Esta iniciativa desencadeada pelo PAN, não foi nem uma acção eleitoralista nem populista, já que remonta do tempo da sua própria génese, aquando a criação do partido em 2009. Logo a seguir, em 2010, o partido entregou ao antigo presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, uma Petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura (CNC), que reuniu 8.000 assinaturas em menos de dois meses.

Uma coisa é certa, vamos continuar a lutar pela abolição das touradas, abolição essa que será certa.

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Paulo Casaca

EUTANÁSIA E ENQUADRAMENTO POLÍTICO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA EUTANÁSIA E ENQUADRAMENTO POLÍTICO

 

Não acho o debate sobre a despenalização da eutanásia muito motivante, não só porque me parecem claras as razões pelas quais ela se pode justificar, como pela grande maioria que parece existir no país sobre o tema – confirmada pelas sondagens – como ainda pelo tom demagógico da maior parte dos contra-argumentos.

Como muitas outras coisas, é uma prática que precisa de ser bem controlada, bem compreendida e que pode ser manipulada para fins inconfessáveis, mas isso depende mais da maturidade e transparência da sociedade e da letra e aplicação da lei do que de uma discussão filosófica.

Embora não tanto como na questão da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, não partilho do entusiasmo de muitos dos seus proponentes, porque vejo estas práticas, na melhor das hipóteses, como males menores, e nunca como positivas. Respeito por outro lado todos os que se empenham no debate por convicção moral ou religiosa.

Posto isto, não atribuo grande importância tão pouco à fronda desencadeada pela ala cavaquista-passista nesta matéria, que parece mais motivada pela vontade de combater a liderança de Rio, e, de forma mais óbvia, quando vejo o posicionamento do PCP noto que Moscovo tem das legislações proibitivas mais intransigentes nesta matéria.

Penso no entanto que o debate é importante de outro ponto de vista: o de quebrar a visão tradicional que continua a inquinar o nosso debate político; o que tudo deve ser visto como balizado por critérios políticos de direita e esquerda tal como esses conceitos foram entendidos há mais de um século.

Com efeito, não só temos a hierarquia da igreja católica a comungar de argumentos e pontos de vista com os dirigentes comunistas, como temos uma grande divisão nos partidos do centro do espectro político.

E isso, por paradoxal que possa parecer, é a chave para sairmos do beco do debate político em que nos encontramos. Definir a Esquerda pelo autoritarismo russo, pelo fascismo religioso da teocracia iraniana ou da Irmandade Muçulmana, pelo maoísmo reconstruído da China ou pelas visões mais ou menos folclóricas do Bolivarismo sul americano, que pretendem fazer uma salada de tudo isto, só pode ser uma forma de tornar obrigatória a opção pela Direita que, apesar de tudo, é mais moderada na restrição das liberdades, no desrespeito pela vida humana, na lógica do dinheiro sem limites ou em matéria de desigualdade.

A esquerda e direita traduzem-se apenas no pluralismo que é inerente a qualquer sistema democrático, mas não são conceitos imutáveis e menos ainda abrangendo a totalidade do posicionamento político do cidadão.

Creio que é nesta base que podemos reerguer a esquerda no mundo em que vivemos.

Bruxelas, 2020-02-19
Paulo Casaca

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Nuno Melo

DIA MUNDIAL DA RÁDIO

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES DIA MUNDIAL DA RÁDIO

 

Celebrou-se no dia 13 de fevereiro o Dia Mundial da Rádio. É verdade que há dias para tudo o que ridiculariza um pouco a boa intenção de se ter um dia para celebrar ou homenagear algo ou alguém. Até há um dia da Nutella, o que é absurdo, dado ser uma marca comercial. A proliferação e banalização dos “dias de” quase nos faz esquecer que existem algumas coisas que são verdadeiramente merecedoras de serem lembradas, homenageadas ou protegidas. E a rádio é uma delas.

Nos tempos que correm, marcados pela música em distribuição via “streaming”, é fácil esquecer que nem sempre foi assim e que a rádio não se resume penas ou tão só à música. Já a canção dizia que “Video Killed the Radio Star” numa alusão aos riscos da rádio perante o surgimento da televisão e de outros meios de comunicação e transmissão. A rádio, de alguma forma como a televisão, é fonte de emissão perante espetadores passivos: ou seja, alguém que procura ser surpreendido, ser entretido, ter companhia, mas sem ter que dar de si mais do que apenas a sua recetividade. Talvez essa é uma das razões de que o modelo de se escolher o fim do filme, da canção ou da estória não tem tido sucesso. E essa é a magia da rádio: de dar sem exigir a participação, mas sem excluir essa possibilidade, nas votações das melhores músicas, nos programas do tipo que quer ouvir e nalguns concursos e surpresas que organiza para os ouvintes.

Apesar da evolução que a rádio tem tido, nos meios técnicos e nos meios de distribuição – já não se limita apenas às ondas de hertzianas – a sua essência mantém-se, como um meio de fazer companhia aos ouvintes: com música, com informação e com os locutores. Contudo, a verdade é que a facilidade técnica permite que hoje existam e coexistam estações de rádio com realidades muito distintas, concretamente em termos de número de profissionais, de instalações, de equipamentos, etc…

Apesar de, ao longo de muitos desenvolvimentos tecnológicos ter sido vaticinado o fim da rádio, a verdade é que resiste e persiste. E ainda bem que assim é, pois a rádio é muito mais que uma aplicação de “streaming”, que nos faz chegar apenas aquilo que mais gostamos. Por não ser um algoritmo, mas feita por gente, por pessoas que sentem, que opinam, que sofrem, que têm alegrias, permite uma pluralidade e uma diversidade que são o seu principal trunfo. E também na informação essa pluralidade é importante).

É por isso que, apoios públicos às rádios em particular e aos média em geral, são, muitas vezes necessários. Não como forma de controlar as notícias e as opiniões, ou como meio de censura, mas precisamente pelas razões opostas: como forma de ajudar a concorrência e de permitir espaço à diversidade de pensamento, de gostos e de cultura, algo que, nos dias de hoje, é cada vez mais difícil.

E o dia mundial da rádio serve precisamente para nos relembrar disto.

18/02/2020
Nuno Melo Alves

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Paulo Casaca

AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E O POVO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E O POVO

 

Estamos a menos de um ano das eleições presidenciais em Portugal e, embora estas eleições não tenham a popularidade das americanas, os protagonistas começam a alinhar-se. No sistema semipresidencialista português, a figura de Presidente tem flutuado entre o perfil de um monarca distante e a de um conspirador político, ambas protagonizadas pelo primeiro Presidente eleito por sufrágio universal em duas fases diferentes da sua presidência.

Com as presidências abertas, Mário Soares tornou o cargo popular, mantendo embora uma distância aristocrática que, com o actual presidente, rei das ‘selfies’, do fato de banho e do comentário futebolístico, se perdeu completamente.

Este novo figurino presidencial português tornou-se tão forte que condiciona o dos rivais, sendo que a primeira candidata potencial anunciada é uma personagem televisiva; o segundo ergueu-se na política a partir do comentário futebolístico, e a terceira alguém que se afirma contra o clube do segundo e que lhe pretende roubar o palmarés no campeonato do justicialismo.

Dir-me-ão que o actual Presidente apenas não declarou a sua recandidatura para manter o suspense e que os eleitores obviamente preferirão o original às cópias.

Aqui há que ter em conta que ninguém é imortal nem imune à doença real ou presumida. Mais importante do que isso, o país sente a necessidade de reforma política, reforma que certamente não surgirá do arco governativo, sendo muito mais fácil pensá-la a partir de uma Presidência com contornos de poder fluidos.

O nosso primeiro Presidente, no seu segundo mandato, inventou um novo partido, o PRD, que abalou o sistema político português, o segundo, ensaiou o mesmo plano que a custo foi interrompido por Guterres e Sampaio; Sampaio, não deixou de marcar profundamente o seu segundo mandato com a demissão de Santana Lopes, enquanto Cavaco Silva, mais comedido, se ficou pela tentativa de manter um governo sem apoio parlamentar.

Rebelo de Sousa, a ser reeleito, não irá certamente privar-se de marcar a governação, marca que vai depender das condições políticas mas que, a ter lugar, creio se irá inspirar mais numa nova força governativa do que num mero peso em favor do seu partido de origem, uma espécie de PRD modernizado, mais parecido com o partido de Macron.
Mas independentemente destes cenários, creio que vamos ter entre nós uma era política marcada pelo populismo e que todos vamos ter de nos saber adaptar a ela.

Bruxelas, 2020-02-12
Paulo Casaca

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