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Opinião

O DESASTRE SÍRIO

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES O DESASTRE SÍRIO

 

A 7 de Abril, em Douma, nos arredores de Damasco, capital da Síria, ocorreu um ataque com armas químicas, cuja autoria é atribuída às forças fiéis a Bashar-al Assad e no qual morreram várias dezenas de pessoas.

As imagens deste ataque correram mundo e provocam reacções na comunidade internacional, muito embora não haja unanimidade sobre o que aconteceu.

Rússia e Irão – aliados de Assad – negam o ataque. Os Estados Unidos e Israel confirmam a utilização de armas químicas na guerra civil que devasta a Síria e provocou milhares de mortos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas não condena o ataque, já que a Rússia usou o seu direito de veto para bloquear a votação.

A zona em que o ataque ocorreu era controlada pelo grupo Jaysh al-Islam (o Exército do Islão, literalmente), um grupo jihadista que pretende derrubar o Presidente sírio, e é financiado pelas potências sunitas da região – Arábia Saudita, Turquia e Qatar.

A verdade é que este não foi o primeiro ataque com armas químicas na Síria, cuja utilização é recorrente.
O cenário é de guerra de guerrilha, em que as forças governamentais, apoiadas pela Rússia e Irão têm grandes responsabilidades na destruição de povoações inteiras e na morte de civis.

Mas, também há responsabilidades dos grupos de adversários do regime de Bashar-al Assad e dos seus financiadores – Arábia Saudita, Turquia e Qatar.

A guerra da Síria é um dos cenários mais complexos do mundo, em que se cruzam os interesses geoestratégicos das grandes potências, com os interesses das potências regionais. Nada é simples, nem nada parece o que é.

A reacção dos Estados Unidos da América, com ameaça de bombardeamento da Síria, com mísseis disparados a partir de navios no Mediterrâneo, esbarra em dois problemas: em primeiro lugar, este ataque – que as declarações de Donald Trump parecem indiciar -enfrenta a falta de legitimidade internacional, conferida por uma Resolução do Conselho de Segurança da ONU; em segundo lugar, um ataque americano apenas com mísseis é insuficiente para conter a progressão da guerra. Uma intervenção militar consistente só seria possível com “boothsontheground”, isto é, com a colocação de tropas no terreno, num cenário que parece afastado.

Perante a indecisão da comunidade internacional, a guerra vai arrastar-se com um preço terrível: vão continuar a morrer milhares de civis homens, mulheres e crianças – mesmo diante dos nossos olhos.

A geoestratégia pesa mais do que as vidas de gente anónima.

Pedro Gomes
13ABR2018 – 105 FM

Paulo Casaca

A OTAN AOS SETENTA ANOS

Paulo Casaca

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PAULO CASACA A OTAN AOS SETENTA ANOS

 

Celebraram-se esta semana os setenta anos do Tratado do Atlântico Norte, tratado do qual Portugal é membro fundador. Aliança surgida na esteira da ‘Carta do Atlântico’ negociada entre Churchill e Roosevelt ao largo da Terra Nova em 1941, a OTAN é a organização de defesa melhor sucedida da história contemporânea.

Se a carta do Atlântico foi pensada no quadro do confronto com o expansionismo nazi-fascista – havia mesmo então a esperança de poder vir a contar com a presença nesta da União Soviética – a OTAN iria claramente ter como alvo o expansionismo soviético, lógica que continuou a prosseguir mesmo quando o quadro geopolítico se alterou profundamente com o colapso soviético e a revolução islâmica que catapultou o fascismo islâmico, ou jihadismo, como principal força expansionista e anti-humanista.

Pessoalmente estou em crer que Gorbachev foi uma janela de oportunidade para a paz, daquelas que são raríssimas na história, e que não foi devidamente compreendido e apoiado pelo ocidente que deixou que a situação se deteriorasse na Rússia até aparecer um novo ditador disposto a recriar o império soviético.

Por outro lado, a lógica do inimigo do meu inimigo ser meu amigo levou a uma enorme complacência com o jihadismo que sobreviveu não só ao fim da União Soviética como mesmo ao 11 de Setembro, mostrando como a desinformação se tornou hoje mais do que em qualquer época do passado um elemento estratégico essencial.

O novo imperialismo russo mostra como ele é também capaz de utilizar a mesma lógica de alianças cruzadas, cimentando uma aliança estratégica com a teocracia iraniana com a qual reconquistou a Síria, apoiando no seu território um emirato na Chechénia, aliando-se aos Taliban e sabotando agora a Aliança Atlântica através de uma espúria aliança com o jihadismo turco.

O grande desafio da Aliança Atlântica é agora o de conseguir responder a um quadro geopolítico muito mais complexo, marcado pela desafio global da China, a tentativa de reemergência do imperialismo russo e a ameaça jihadista que tem no fascismo teocrático iraniano o seu principal protagonista, mas na qual não é possível esquecer a Turquia, enquanto tem de gerir as tensões internas provocadas pelo neogaullismo de Macron.

É um desafio muito complexo mas apaixonante que espero venha a encontrar protagonistas à altura.

Bruxelas, 2019-12-04
Paulo Casaca

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Nuno Melo

MODAS E PROTAGONISMOS

Nuno Melo

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NUNO MELO ALVES MODAS E PROTAGONISMOS

 

É impossível ficar indiferente à ocorrência da COP25, a cimeira das Nações Unidas sobre o clima. É também impossível, infelizmente, dissociar as preocupações com o clima dos excessos das soluções radicais, sem equilíbrio, e, muitas vezes, sem fundamento científico quanto à sua eficácia ou relevância. E é, ainda, difícil focar apenas nas questões climáticas, mediante tantos outros problemas ambientais, como a poluição do meio marítimo com plásticos e outros detritos.

Existem outros problemas, que têm sido identificados e estudados, que decorrem das alterações climáticas e do aumento de poluição, mas também de outras causas, e cuja solução exige uma resposta mais transversal. Um grupo financeiro japonês prevê uma crise humanitária, em que metade da população mundial pode vir a ser afetada por aumentos de preços brutais dos alimentos, provocados pelas alterações climáticas. Acontece que a pressão nos preços dos alimentos também está a ocorrer devido ao aumento da procura, que resulta de, pelo menos, duas coisas: por um lado, as melhorias qualitativas na alimentação nos países mais desenvolvidos, e, por outro, do aumento exponencial da população mundial nos últimos séculos.

Uma das fórmulas da moda para reduzir a pegada ambiental da produção alimentar tem sido substituir a produção intensiva por processos biológicos e naturais mais amigos do ambiente, mas, objetivamente, menos eficazes na quantidade produzida. Esta solução não reduz a pressão que provoca o aumento de preços dos alimentos. No entanto, soluções como o uso de alimentos geneticamente modificados são apressadamente condenadas por alguns dogmáticos que pretendem limitar ou proibir o seu uso, quando, precisamente pelas suas características especificamente desenvolvidas, podem ser a solução para aumentar a oferta alimentar e diminuir a pressão sobre o ambiente. Ou seja, em áreas menores e salvaguardando as florestas e os habitats, é possível produzir mais, o que parece ser uma solução mais favorável à conservação do que propriamente a produção natural.

Quanto ao consumo energético, os combustíveis fósseis são poluentes, e a pressão para se encontrarem alternativas tem levado a um excessivo e desmesurado entusiasmo com as soluções de mobilidade elétrica baseadas nas baterias, cuja pegada ecológica é grande e cuja tecnologia necessita de minérios escassos. A segurança destas soluções ainda não é um dado adquirido e alguns produtos com baterias já estão proibidos de serem transportados como carga aérea. Há que insistir no desenvolvimento de soluções eventualmente melhores, como o hidrogénio ou o gás natural liquefeito, sem cair na cegueira atual que está impor a solução elétrica a baterias à base no lítio.

A questão de fundo é que, infelizmente, tem havido muito ruído, muito alarmismo e alguma precipitação em relação às soluções a adotar ou a rejeitar, como por exemplo, nos casos referidos. Cada vez parece mais óbvio que as soluções para estes problemas de escala global têm que passar por repostas cientificamente fundadas, por mecanismos que não sejam piores que os problemas que tentam resolver, e cada vez menos por entusiasmos com protagonistas e modas que se transformam em soluções políticas, muitas vezes caras mas irrelevantes. A conservação do planeta assim o exige.

03/12/2019
Nuno Melo Alves

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Paulo Casaca

O BANHO DE SANGUE IRANIANO

Paulo Casaca

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PAULO CASACA O BANHO DE SANGUE IRANIANO

 

Finalmente, quase dez dias depois do início dos confrontos ‘Le Monde’ fala-nos de um banho de sangue no Irão. De acordo com a informação produzida pelo ‘Conselho Nacional da Resistência Iraniana’ datada de dia 26, o número de vítimas mortais aproxima-se do meio milhar, os feridos ultrapassam os quatro milhares e os presos são mais de dez mil.

Sobre tudo isto o parlamento português fez um silêncio total decidindo antes solidarizar-se com a ‘Jihad Islâmica’ alvo de um ataque de Israel no dia 11 de Novembro, num texto onde a realidade é profundamente distorcida. A Jihad Islâmica, como o nome indica, partilha da mesma ideologia que as congéneres da Al Qaeda, ou do Estado Islâmico e partilha também dos seus métodos com muitos ataques terroristas sobre a população civil que causaram inúmeras vítimas mortais.

Apoiar ou desculpar uns e condenar outros apenas porque uns se especializam a matar judeus e outros visam também ocidentais é humanamente inaceitável e só é compreensível à luz de preconceitos antissemitas.
Em qualquer movimento militar é essencial preservar tanto quanto possível a via humana, e por isso mesmo, me insurgi perante os bombardeamentos indiscriminados feitos sobre as cidades sírias pelas forças russo-iranianas, como também me insurgi sobre a forma como as forças regulares iraquianas e milícias dirigidas pelo Irão com cobertura aérea americana conquistaram Mossul ao Estado Islâmico provocando muitos milhares de vítimas civis.

Posto isto, quem olhar de forma equilibrada e imparcial para os factos tem de concluir que Israel é, em toda a região, o país com a força militar que mais atenção dá à minimização das vítimas civis e que toma mais medidas disciplinares em caso de abuso.

A ‘Jihad Islâmica’ há muitos anos que é comandada pela teocracia iraniana que a financia e forneceu os cerca de quinhentos mísseis que disparou este mês sobre Israel a partir de Gaza. Que o PCP apoiado pelo BE lance assim esta manobra de diversão sobre o banho de sangue iraniano é algo de esperar por parte das forças políticas que no Parlamento Europeu se recusaram a condenar as violações dos direitos humanos no Irão numa moção votada massivamente por este.

Que o PS apoie esta descarada manipulação iraniana da realidade, isso é indesculpável e inaceitável.

Olhão, 2019-11-27
Paulo Casaca

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