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Opinião

ESPAMOS E DEAMBULAÇÕES

Pedro Neves

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PEDRO NEVES ESPAMOS E DEAMBULAÇÕES

 

Quantos ouvintes não têm arroubos de pensamento numa altura em que o foco é primordial para o vosso projecto seguinte?

Faço-vos uma confidência, a minha mente assola-me com pensamentos, sejam eles pouco prioritários ou mesmo inúteis, ou entre rasgos de luzimento inconstante, sem temporalidade nem corporização aparente. São puro devaneio em alturas onde o foco e objectividade são necessários e deviam ser os meus melhores amigos.

Mas tenho truques para acalmar os meus pensamentos peregrinos que divagam entre o éter do ser e do saber.

Escrevo, escrevo muito, de forma rabiscada sem ornato nem guião, mas com um equilíbrio harmonioso entre a estrutura funcional e a estratégia vitoriosa. Porque, ao escrever, de forma impermanente, toda a minha deambulação fica imbuída no papel, dando espaço a uma mente focada para concretizar o objectivo…a escrita coerente e isenta, tão precisa para o meu trabalho.

Os vocábulos esses, têm que ter a conduta da destruição para concluir a metáfora pretendida. Tudo o que escrevo de forma decomposta, se for digital não gravo, se for gravitada no papel, lixo com ele. Isto porque a vida consiste e revolve na impermanência, como as coisas e a própria vida, vida essa que se dissolve com a inevitabilidade crua e dura: – Estamos aqui por breves instantes e mesmo não sendo escravos da nossa própria carne, iremos morrer.

E quando meto a caneta no papel pela primeira vez, estou a criar duas coisas, vida formada e com a tinta sorvida no papel, estou também a criar um novo objecto, uma nova coisa inconsciente. Marco a hora do nascimento, dou-lhe corpo e reacção involuntária e deixo-a viver no seu espaço corpóreo, no seu universo novinho em folha, pronto para ser apurado no sabor e cheiro, numa vida própria sem fios limitativos e liberdade absoluta…cheia de fulgor como qualquer vida deve ser.

Mas se vai para o lixo, não sentirei eu um deus tirano que deu a vida absoluta a um novo objecto mas retiro a centelha à existência da mesma forma que tiro uma ficha da tomada? Não, essa vida não desaparece, apenas é mutável de um papel direito e limpo para um rasgo embrulhado no meio de tantos outros no cesto de papéis. Como a energia, ela não desaparece, apenas transmuta-se para outra forma, deslumbrante ou tosca, mas continua viva.

Não é esse o nosso destino? Fulgor imaculado e inocente no primórdio para ser de imediato rasgado pela realidade cruel da vida? E o que fazemos a seguir depois de rasgados ao meio no cesto do lixo? Enxotamos o pó, passamos a ferro as rugas e voltamos à luta no carrossel impermanente a que chamamos vida.

Depois de tanto espasmo onde é que eu ia? Já me lembro, ia rasgar o papel.

Aníbal Pires

NÃO SE DEMITA

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES NÃO SE DEMITA

 

Estamos a uma semana das eleições para o Parlamento Europeu e, como tem vindo a ser hábito, espera-se uma elevada abstenção. O que é, digo eu, lamentável pois, mais que em Ponta Delgada, na Horta ou em Lisboa as grandes decisões políticas são tomadas nas instâncias da União Europeia e o Parlamento Europeu é o único órgão eleito diretamente pelos cidadãos.

Os motivos que levam os eleitores a absterem-se, sendo legítimos, não deixam de ser um ato de demissão, mesmo quando o que lhe está na origem é uma razão de ordem política, ou seja, a opção por não ir votar pretende demonstrar uma posição de total discordância perante os projetos políticos que se submetem a sufrágio, ou retirar legitimidade à representatividade dos eleitos. Nem um nem outro dos motivos que sustentam esta posição tem qualquer efeito prático, no primeiro caso porque existem opções eleitorais alternativas para manifestar o desacordo, no segundo caso, como é sabido, trata-se de um mito. A abstenção para o PE, em 2009, rondou os 63%, sendo que nos Açores a abstenção ultrapassou os 80%, valores sem dúvida muito elevados, mas, ainda assim, nunca foi colocada em causa a representatividade dos eleitos portugueses.

Quando comparamos os valores da abstenção verificamos que o seu aumento se relaciona diretamente com a proximidade dos cidadãos órgão político objeto do ato eleitoral, como se pode apurar olhando para os diferentes resultados eleitorais que se apuraram nos Açores: PE (2014), abstenção 80,3%, Assembleia da República (2015), abstenção 58,8%, Assembleia Regional (2016), abstenção 59,2%, Câmaras Municipais (2017), abstenção 45,00%.

É compreensível que o envolvimento e a proximidade motivem os eleitores à participação eleitoral, mas, em abono da verdade, existem outras razões bem mais importantes para que a participação eleitoral não dependa apenas da proximidade do poder, até porque esse poder é ilusório.

Desde logo porque os centros de decisão não se encontram na proximidade, ou seja, as decisões que se relacionam com a Região e com o País são conformadas, como já referi, não em Ponta Delgada ou na Horta, nem em Lisboa, as grandes decisões são tomadas em Bruxelas. Desde que foi assinado o Tratado de Lisboa que a legislação regional e nacional se submete à legislação europeia, por consequência o nosso quotidiano é determinado mais pelas políticas europeias do que pelas políticas locais, regionais ou nacionais.

Não participar nas eleições para o PE porque se trata de um órgão político distante é um erro que pagamos, estamos a pagar, caro, muito caro pois, é nas instâncias europeias que se encontram os centros decisórios e, por outro lado a abstenção favorece o poder instituído e as famílias políticas maioritárias no PE que nos conduziram à crise social, política e económica que estamos a viver.

Um cidadão que se abstém reforça, com a sua posição demissionária, a legitimidade das políticas europeias.

A não participação, sendo uma decisão individual, não influencia o que será a decisão coletiva, ao passo que a participação, essa sim será tomada em devida conta.

Os 21 deputados portugueses ao Parlamento Europeu serão eleitos com muita ou pouca participação dos eleitores, a não participação é meramente acessória. Verdadeiramente importante é se quem decide, quem vota, vai continuar a dar o seu apoio maioritário aos responsáveis no País e na Europa pela crise que graça na União Europeia, ou se vai decidir mudar, mudar o seu voto e apoiar quem defende os interesses do País e do Povo. Não vamos continuar a “sacudir a água do capote”.

Foi um prazer estar consigo.

Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 18 de Maio de 2019

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Pedro Gomes

CONTINUAMOS POBRES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES CONTINUAMOS POBRES

 

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento dos portugueses (2018) que indicam que o risco de pobreza e de exclusão social é “bastante mais elevado nos Açores” (31,6%) e na Madeira (27,5%), quando comparado com a média nacional (17,4%).

Os números são devastadores e revelam o fracasso das políticas de crescimento económico e de desenvolvimento adoptadas nos Açores.

É impossível combater a pobreza, nas suas variadas dimensões e elevar o nível de vida das pessoas, sem opções coerentes de políticas públicas que conduzam ao crescimento económico e à geração de emprego e riqueza.

Os resultados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística confirmam outros dados estatísticos que apontam no mesmo sentido: as políticas públicas de combate à pobreza e à exclusão social estão a falhar os seus objectivos.

A taxa de pobreza ou de exclusão social atinge cerca de 89.000 açorianos – um número que impressiona, pois está próximo da população empregada (111.000 pessoas).

Ao fim de vinte e três anos de governação socialista e de aplicação de políticas de esquerda, os Açores continuam a marcar passo na erradicação da pobreza, apesar do Governo Regional afirmar, repetida e tardiamente, que o combate à pobreza é uma prioridade, tendo aprovado uma Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social (Resolução do Conselho do Governo nº 72/2018, de 20 de Junho) e um Plano de Acção 2018-2019 (Resolução do Conselho do Governo nº 95/2018, de 22 de Agosto), mais de vinte anos depois do PS ter assumido a responsabilidade da governação regional.

Os números da pobreza obrigam a uma reflexão séria sobre o que falhou nos Açores e em que medida é que os recursos públicos poderiam ter sido utilizados de outra forma.

A pobreza e a exclusão social não decorrem apenas da actuação dos poderes públicos, mas também em resultado da actividade do sector privado, que nos Açores é pequeno, frágil e dependente da actuação das entidades públicas.

As designadas políticas de “nova geração”, em tempos anunciadas pelo Presidente do Governo Regional, geraram apenas novos pobres, que mantêm os Açores no lugar cimeiro da estatística da pobreza.

Dramaticamente, estes pobres não são uma estatística: são pessoas bem reais, com nome e com rosto, que sofrem todos os dias para pagar o pão, a conta da água ou do telefone.

Pedro Gomes
17MAIO2019 – 105 FM

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Paulo Casaca

ATAQUES IRANIANOS NA PENÍNSULA ARÁBICA

Paulo Casaca

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PAULO CASACA ATAQUES IRANIANOS NA PENÍNSULA ARÁBICA

 

O pequeno emirato de Fujairah situa-se no golfo de Omã, à saída de um outro golfo que os árabes chamam árabe e os persas chamam pérsico, e é estrategicamente significativo por ser o porto de saída dos Emiratos Árabes Unidos para o Índico que não passa pelo estreito de Ormuz.

O ataque iraniano do passado fim-de-semana deu-se pouco depois da ameaça de ataques aos interesses ocidentais e na altura em que as suas forças anunciaram a retirada do porto iemenita de Hudaydah, na entrada do Mar Vermelho, desmentida, no entanto, pelo governo iemenita.

O ataque visou quatro petroleiros, um dos emiratos, dois sauditas e um norueguês, sendo realizado por explosivos acima da linha de água. A base naval mais próxima dos guardas islâmicos situa-se a 127 milhas náuticas do local, em Bandar e-Jask, o que mostra uma capacidade razoável de sabotagem à distância. Dois dias depois, o alvo foi um oleoduto saudita que encaminha o petróleo para o Mar Vermelho como forma de contornar o estreito de Ormuz.

Os ataques – sem vítimas, sem marés negras, sem naufrágios – parecem ter sido cuidadosamente calibrados para evitar nesta altura um efeito drástico na opinião pública. As agências noticiosas iranianas foram as primeiras a difundir a notícia do primeiro ataque, entremeando juras de inocência com ameaças veladas, enquanto atribuíram o segundo à secção iemenita dos Guardas Islâmicos.

Teerão deu assim dois exemplos práticos de como pode atacar o abastecimento petrolífero mundial, mesmo quando este contorna o estreito de Ormuz, e de como pode fazer de conta que não perpetrou os ataques.
O desenrolar dos assaltos no tabuleiro operacional e da desinformação é típico da teocracia iraniana. Foi assim que esta conseguiu derrotar as forças árabes que se lhe opunham, do Iraque à Síria, passando pelo Líbano, ameaçando o Iémen e agora frontalmente os países árabes do Golfo.

Estes reagiram com grande embaraço a um ataque que expôs a sua vulnerabilidade, enquanto os EUA o fizeram com considerável atraso, permitindo à imprensa próxima de Teerão difundir a ideia de que Trump ameaça repetir os erros do Iraque.

Uns e outros têm de se preparar com urgência para uma guerra assimétrica nos meios, nos alvos e especialmente nos tabuleiros do jogo, com um inimigo que dispõe de uma capacidade estratégica vastamente superior ao da sua força militar convencional.

Bruxelas, 2019-05-15

Paulo Casaca

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