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Aníbal Pires

A BRECHA – UM APONTAMENTO

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES A BRECHA – UM APONTAMENTO

 

Do livro A Brecha de João Pedro Porto disse, num desses comentários imediatistas e de ocasião numa publicação do Facebook, que a leitura do último romance deste jovem escritor açoriano, não é a mais adequada para o Verão.

E mantenho. A Brechaé um daqueles livros que devem ser consumidos no aconchego das noites de Inverno.

É uma leitura densa que necessita de tempo e atenção pela sua complexidade, mas também pela riqueza da escrita que ora se assume em prosa, mas também em poesia e na dramaturgia.

O recurso à mitologia clássica e algumas referências da história nacional compõem uma trama intrincada, onde tudo pode acontecer. Até a morte dos deuses às mãos do Homem.

Ficam alguns fragmentos, no vídeo abaixo, deste livro de João Pedro Porto que aquando da leitura sublinhei e que hoje partilho convosco.

(…) Mais uma prega virada no escuro e será como se durma sem saber se acordo. Mas, e daí, assim o é todo o sono. (…)

(…) Ao pôr-se a jeito de cheiros, o Homem notou um fétido odor que emanava de todas as bocas falantes. Toda aquela gente era de má-língua, não por contrafazerem as sintaxes, mas por darem mau uso à taramela. A coisa era feita de duas maneiras distintas. Ora se falava bem de face a face ora se desnaturava o dito, feito não dito nas costas de quem se abandonava com um pois bem e um aceno. Não teria, o Homem, espinhaço para isso. (…)

(…) A terra terá sido sempre lida com as páginas e as cabeças erigidas a Norte, salvo pelos povos da meia-lua. Desse Norte se disse, por anos, ser o hemisfério superior, que é como quem diz: de superior condição. O Sul será sempre algo selvático, onde se dançam os tangos e se matam os homens por ninharias. A futilidade é mortal, no Sul. Será por isso que lá vamos. Não há banalidade no Sul. Se o mistério tiver esconderijo, esse será sempre austral. Até o órgão mais carnal e o pórtico mais recôncavo de todo o éden moram no lugar sulino do corpo dos homens e das mulheres. (…)

(…) Tudo começou com um som daqueles que são exclusivos do silêncio. De todos os sons de que se faz o silêncio, o mais conhecido é o zunzum. Seguem-se-lhe o tinido e o zumbido. Mas de nenhum desses se faria aquele que ouvi. Era algo mais parecido com o roçar de tecidos espreguiçados a bocejo. Ajudava que o zunido do vento fosse quebrado pelos arcos. Tomei isto como consideração, porque poderia, na realidade, tudo ser obra do vento, que é um ser curioso. Não por ter qualquer interesse, mas por ter nariz. E a tendência abstracta de o enfiar onde não é chamado. Se bem que, para cusco, já lá estava eu. (…)

(…) Nada muda! Continuas o mesmo. Sim, existiam os deuses. Mas de nada serviam. Não eram mais que palavras ditas pelas nossa bocas, obeliscos de prefeitura. Coisa de adoração, coisas de temer. E sem perfeição que se visse. Não eram mais que gentes, também. Feitos por outras gentes. Gentes como nós. (…)

(…) Esse oceano, destinado , destinado a encantar-me a alma com a escuma, começou toda esta demanda enredada em vil fuso e agora aqui narrada como se o passado voltasse a ser algo que não apenas uma coisa deixada para trás. Assim, pois, parti (…)

(…) Adeus ó mundo,

Adeus ó eu, que me vou

na carquilha que vem.

Mais uma prega virada no escuro

E será como se durma;

Nada mais. (…)

 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Novembro de 2017

Aníbal Pires

À BEIRA DO COLAPSO

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES À BEIRA DO COLAPSO

 

A semana passada trouxe a esta tribuna a situação vivida pelos trabalhadores de terra que prestam serviço à Ryanair.

Contratos, horários de trabalho e salários que, como alguém me disse, mais parecem de serviçais.

Disponibilidade total, contratos a tempo parcial e um salário que mal dá para a alimentação. Diria eu que entre as atuais relações de trabalho e a servidão do princípio do século XX, venha o diabo e escolha.

Poderia ser um caso único, mas não é.

A precariedade, o subemprego, os salários em atraso, o trabalho sem direitos e com baixos rendimentos abrangem a generalidade dos trabalhadores do setor privado, mas não só. No setor público existe um enorme contingente de cidadãos que saltitam entre os diferentes programas ocupacionais, nas IPSS idem, idem, aspas, aspas, isto para não falar da situação dos técnicos superiores que dependem diretamente da administração pública, mas que são contratados pelas IPSS. Para quando a sua integração na administração pública regional e, para quando, a equiparação salarial.

Quem ouve o discurso oficial, as leituras enviesadas dos indicadores estatísticos e se abstrai da realidade observada dirá, Tudo está bem e conforme por estas ínsulas encantadas.

Mas não. Não está, aliás pouco ou nada está bem no mundo do PS, e note-se que não é por acaso, ou facilidade de linguagem que digo PS, quando seria expetável que utilizasse a designação oficial, ou seja, Partido Socialista. Digo PS porque, embora o PS seja um partido, em bom rigor, há muito tempo que deixou de ser socialista, ou mesmo, social democrata pois essa foi sempre a sua matriz ideológica, mas já nem isso é.

O PS, o seu Governo e o seu Grupo Parlamentar passeiam-se tranquila e alegremente pela Região. O caminho até 2020 está, aparentemente, livre de obstáculos dignos desse nome.

Ou não estará, pois, alguns setores nevrálgicos para a Região estão à beira do colapso. Estão a um passo do precipício, e, não me parece que haja vontade e capacidade política para suster o passo em frente e a inevitável queda no abismo.

Se no atual quadro partidário regional, se poderá afirmar que não existem adversários que coloquem em perigo mais uma vitória eleitoral do PS, quer para a República, quer em 2020 nas eleições regionais, não é menos verdade que o PS, pela sua inoperância e incapacidade política para travar o crescente do descontentamento. Descontentamento que tenderá a aumentar com as fragilidades e ruturas no setor dos transportes, com o declínio de uma economia terciarizada, com o aumento das assimetrias regionais e, com degradação da qualidade dos serviços públicos em áreas como a saúde e a educação.

Ou seja, o PS pode vir a ser o autor e protagonista das suas próprias derrotas políticas, mesmo que continue a ganhar as eleições, independentemente da sua natureza.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 06 de Julho de 2019

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Aníbal Pires

RYANAIR VERSUS GROUNDLINK

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES RYANAIR VERSUS GROUNDLINK

 

Todos temos conhecimento, com mais ou menos consciência, que as relações laborais na transportadora aérea Ryanair estão no limbo da legalidade. Desde os trabalhadores de terra ao pessoal de voo, pilotos e tripulantes de cabine, todos eles são vítimas da desregulação da legislação laboral e dos expedientes empresariais que à custa de quem trabalha obtêm lucros chorudos. A Ryanair tem vindo a obter resultados líquidos superiores a mil milhões de euros, este valor está reportado a 2018, ano em que se verificou uma queda nos lucros obtidos.

Por outro lado, são conhecidas, pela generalidade da opinião pública, as facilidades e financiamentos indiretos que os destinos, regiões e países concedem ás operadoras de baixo custo. Claro que os indefetíveis do mercado consideram que tudo isto é, não só normal, mas sobretudo resultante do progresso e uma caraterística das sociedades contemporâneas.

Eu, cá por mim, diria que é a barbárie e, no que concerne aos trabalhadores de terra, os mais desprotegidos de todos os trabalhadores que prestam serviço á Ryanair, diria que estes trabalhadores estão espoliados de direitos e, como tal, explorados até à medula. Mas não é só barbárie que se trata é, também um fator de perversão do funcionamento do tal mercado.

Afirmei, terá notado, que os trabalhadores prestam serviço à Ryanair, assim é, trata-se de trabalhadores contratados, a tempo parcial, por uma empresa que dá pelo nome de Groundlink III Handling, cujo cliente único é a Ryanair.

O mesmo se passa com o pessoal de voo, ou seja, as contratações são feitas por subsidiárias da Ryanair ou, por brokers que se dedicam a disponibilizar mão de obra especializada, mas de baixo custo, aos patrões da Ryanair.

Embora os contratos feitos com o pessoal de terra que presta assistência às aeronaves e aos passageiros sejam, como já referi, a tempo parcial com um salário base que não chega aos 400 euros, a verdade é que estes trabalhadores, não só têm de manter disponibilidade total para suprirem as necessidades da operação aérea, como em muitos dias do mês trabalham mais de 8h por dia. Ou seja, a escala de serviço que é distribuída mensalmente nunca, ou raras vezes, corresponde ao trabalho que efetivamente é realizado. Sim, claro que sim o salário real depende das horas trabalhadas, atingindo valores que ficam sempre abaixo dos 650 euros, retirando as que vão para o banco de horas, que como se sabe pode ir até 150 horas por ano.

Os contratos da Groundlink III Handling com os trabalhadores de terra que prestam serviço à Ryanair, em Ponta Delgada, mas também em outras das bases do território nacional, embora abrangidos pelo CCT para o setor, não respeitam os normativos acordados entre o Sindicato e as empresas que o subscreveram. Ou seja, a Groundlink III Handling em Ponta Delgada está a obrigar e a ameaçar os trabalhadores para aceitarem horários e condições de trabalho à margem da lei.

É uma questão para a Inspeção Regional do Trabalho ter em devida conta e atuar em conformidade e sem perda de tempo, mas não só. Também a tutela política do trabalho e dos transportes tem o dever de intervir, neste com em outros setores onde se verificam ilegalidades e os trabalhadores são vítimas de coação e espoliados dos seus direitos sociais e laborais.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 29 de Junho de 2019

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Aníbal Pires

INFORMAÇÃO E LIBERDADE

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES INFORMAÇÃO E LIBERDADE

 

As redes sociais proporcionam uma rápida difusão da informação sobre acontecimentos ocorridos nos mais recônditos lugares do planeta. Rede disponível e um smartphone é quanto baste para fazer a “notícia”. Se é mau, Não será. Se é bom, Talvez.

Mais importantes do que estas “fast notícias” são os juízos que se fazem delas e, sobretudo, o objetivo com que são depois difundidas e comentadas. Quantas e quantas vezes e passado o impacto inicial nos apercebemos que afinal, Não era bem assim. Isto para além das leituras enviesadas fabricadas pelos mercenários (uns voluntários, outros nem por isso) das redes sociais. E depois nunca há lugar a um desmentido. Quem leu agora já não lê depois e fica com a “notícia” original, não confirma a sua veracidade não procura outras fontes e, “voilà”, Tá conseguido o objetivo, algumas vezes nobre, muitas vezes nem por isso. É o resultado do mediatismo e do imediatismo que carateriza o nosso tempo onde o espaço para a reflexão deixou de existir. Tudo tem de ser agora, daqui a pouco já não tem interesse. O papel que sempre esteve alocado à comunicação social é hoje um espaço partilhado e anárquico. Se é mau, Não será. Se é bom, Talvez.

Não se pense que estas breves reflexões sobre as redes sociais têm como objetivo denegri-las, Não, não pensem. A internet e as redes sociais permitiram a democratização do acesso à informação e, sobretudo, a possibilidade de aceder a fontes e partilha de informação que as corporações mediáticas não citam, não utilizam e obliteram. Logo só posso estar satisfeito com isso, E estou, e utilizo a rede e as suas plataformas de informação e comunicação.

A questão é outra e, preocupa-me. Sendo a internet e as plataformas de informação e comunicação que lhe estão associadas instrumentos aos quais um número significativo de pessoas acede e utiliza para diferentes fins, mas também para se informar e para difundir informação é, natural que se tenham enquistado na rede os tais mercenários a que me referi. Alguns destes mercenários estão por militância e tudo fazem para desconstruir a informação e a opinião com a qual não estão alinhados, os outros, os mercenários remunerados, estes fabricam as notícias e procuram credibilizá-las através dos OCS tradicionais, manipulam a opinião. São assim como uma espécie de terroristas virtuais que em nome da liberdade individual e do direito à opinião, valores incontestáveis, mentem, omitem, manipulam, formam a opinião que serve o amo, seja por uma questão de crença, seja como meio de vida. Novas tecnologias, novas oportunidades de ganhar a vidinha, prostituindo-se. E esta opção não é uma opção nova. É bem antiga, como velhas são as estratégias de dominação de um grupo humano sobre outros. O medo, sombra alongada da ignorância, é o principal aliado de quem continua a dominar a opinião pública mundial.

A liberdade individual é diretamente proporcional ao conhecimento. Quanto mais cultos e informados, mais livres seremos.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Junho de 2019

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