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Opinião

HÉLIO MADEIRAS, O HERÓI QUE NINGUÉM CONHECE

Pedro Neves

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13 de Outubro, 17:00:
Acabo de chegar ao Porto vindo de Ponta Delgada, com o intuito de ter uma sessão de reuniões de direcção do PAN durante todo o fim de semana. Tenho que me preparar para dois dias que vão ser exaustos e desgastantes, dois dias que iremos estar fechados do mundo e do que se passa ao nosso redor. Vou degustar algo rápido e ver ao mesmo tempo os ventos e a precipitação devido à visita da Ophelia aos Açores. A não ser que tudo mude em poucas horas, nada irá acontecer à região. Vou dormir, preciso de estar fresco para amanhã.

14 de Outubro, 09:00:
Já estamos fechados em reunião. Vamos almoçar e jantar dentro do espaço enquanto o mundo gira, vive e não pára. Podia acontecer tudo à nossa volta e nós não saberíamos de nada. Já é de madrugada, o nosso corpo já pede uma cama, a mente, essa, exige-nos descanso de forma desesperada.

15 de Outubro, 09:00:
Voltamos ao Espaço PAN onde é necessário estarmos alerta e ter pensamento rápido por mais umas horas. Acaba bem depois da hora de almoço e fico na dúvida se hei-de comer num ápice e chegar atrasado ao avião, ou se não como e vou mais calmamente para meter os pensamentos em ordem. Algo tomou uma decisão por mim sem pedir permissão. O meu estômago tem vontade própria e as minhas pernas vão ter que funcionar bem para ir a correr para o metro.

Saio do espaço onde tivemos durantes horas a fio e reparo que algo estranho está a acontecer. Não sei explicar se era a minha razão, os meus sentidos ou a minha intuição, mas o mundo parecia muito estranho cá fora. Senti o ar pesado e abafado mas de forma bastante diferente do que já tinha experienciado. O céu estava estranho, como se algum ser tivesse o poder de manipular o céu daquela forma. Parecia que tudo o que via estava impregnado de um filtro digital de fotografia. Sabia lá eu que metade de Portugal continental estava em chamas.

15 de Outubro, 16:00:
Cheguei ao aeroporto de forma ofegante. Por mais que goste da cidade do Porto, os Açores chamam-me e a minha família também, e eu estou a ver que vou perder o avião. Chego ao cais de embarque e ouço as lamúrias do costume, de quem está habituado em ver os aviões atrasados para o nosso pedaço de terra mas não deixa de ficar chateado sempre que tal aconteça. Vou ter que esperar 3 horas no aeroporto, e tanto que quero uma cama, e tanto que quero fechar os olhos. Prometi naquele momento que não iria ver notícias até ao dia seguinte. Fecho os olhos e espero pacientemente pelo avião, e espero pacientemente pela cidade de Ponta Delgada e pela boleia até minha casa. Chego a casa, uns abraços, um bocado de comida e cama.

16 de Outubro, 07:00:
Depois de acordar faço a minha rotina diária. Vejo as notícias e o choque veio a seguir. Portugal Continental estava em chamas desde ontem à tarde. As notícias seguintes são sempre piores do que as anteriores, tablóides atrás de tablóides, um pior que o outro. Preciso de mais informação vinda não da comunicação social mas das pessoas, sem filtro e sensacionalismos. Vou ao Facebook e não precisei muito tempo para ver a fotografia mais assustadora e perversamente bela que já tinha visto. Esta fotografia tinha sido tirada na torre dos bombeiros em Vieira de Leiria. Era um registo tão dantesco que ao primeiro olhar, duvidava qualquer incauto sobre a veracidade da mesma. O PAN tinha que fazer uma comunicação e mostrar às pessoas o que se estava a acontecer naquele momento, e inserindo esta fotografia no conteúdo, ninguém iria ter dúvidas do que se estava a passar em várias zonas do país. Tinha que pedir imediatamente autorização à pessoa que tirou esta fotografia, só faltava saber quem era. Enquanto procurava, e sem saber, metade do mundo estava à procura do mesmo para pedir autorização do uso da imagem. Desde a ONU, até os media na China, Europa e Estados Unidos, todos sabiam que usando aquela imagem não se precisava de se juntar muitas palavras para contar a história.

Encontrei quem precisava de encontrar. Era um bombeiro de nome Hélio Madeiras, voluntário há 19 anos e que está há 12 na Força Especial de Bombeiros, actuando, no inverno, como recuperador salvador na Autoridade Nacional de Protecção Civil.Bastava ver as suas fotos para ver que a sua vida estava sempre por um fio. Cheirava a herói, tinha pinta de herói e todas as acções que estavam documentadas fazia inveja a outros heróis. É aquele herói que vai salvar vidas sem saber se no dia de amanhã ele vai ver o nascer do sol. O autor estava já destacado para Oliveira de Frades para salvar mais uma vidas enquanto celebrava os seus 36 anos no meio do fogo. Antes da sua viagem, foi a correr para tirar a foto que agora todos conhecem, uma foto que tirou com o intuito de avisar as pessoas.

Respondeu-me, não arrogantemente como os heróis de Hollywood, mas de forma muito cordial e simpática, autorizando o uso da sua fotografia.

Bem sei que existiu muitos mais heróis neste história e do qual, como cidadão e pessoa, estou muito grato pela ajuda dada, mas o Hélio Madeiras tocou-me, tanto pela sua simplicidade como pela prontidão de ajudar toda a gente que via pelo caminho. É uma pessoa simples, que não tem noção da sua própria grandeza.

Aníbal Pires

MEGALOMANIA HOTELEIRA

Aníbal Pires

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ANÍBAL PIRES MEGALOMANIA HOTELEIRA

 

Pode até não estar claro o modelo de turismo que queremos para os Açores, aliás as opiniões são diversas e, cada um de nós terá a sua. Julgo, porém, que a generalidade dos agentes económicos ligados direta ou indiretamente ao setor do turismo estará de acordo quanto à importância da sua sustentabilidade.

Se a premissa da sustentabilidade presidir ao desenho das políticas públicas para o setor e se os agentes económicos se conformarem a elas, então tudo será mais fácil e o destino turístico Açores terá futuro. Por outro lado, julgo que nesta, como em qualquer outra atividade económica, se deve atender, considerando sempre o princípio da sustentabilidade, à diversidade de oferta que o destino Açores tem para oferecer e, por conseguinte, adequar as políticas de promoção e os apoios públicos ao investimento às diferenças que existem entre as diferentes ilhas, ou seja, as motivações para escolher passar uma semana nas Flores ou no Corvo não são, certamente, as mesmas do que optar pela Terceira, por S. Miguel ou pelas ilhas do triângulo. E ainda há quem prefira Santa Maria ou a Graciosa.

O que pretendo dizer não é propriamente uma novidade, mas de vez em quando é bom lembrar que cada uma das 9 ilhas açorianas tem particularidades que podem e devem ser promovidas.

Claro que não é só com a promoção diferenciada que se eliminam algumas assimetrias na procura, mas ajuda.
Pensar que os Açores se podem tornar um destino turístico de massas o que é, mais ou menos sinónimo de destino de baixo custo, é um erro.

Erro, desde logo, porque as caraterísticas climáticas do arquipélago são impeditivas de satisfazer esse desiderato, esta pode ser a salvaguarda, para que tal não venha a acontecer, se for devidamente assimilada pelos empresários do setor, em particular os hoteleiros, o que por vezes parece não ser assim pois, são conhecidas as manifestações de interesse na construção de unidades hoteleiras, diria, sobredimensionadas e pouco adequadas a um destino de natureza como é o nosso, pelo menos é assim que o promovemos. Por outro lado, a competitividade dos destinos, mormente o destino Açores, não pode, nem deve ser ancorada, como por vezes parece ser, no baixo custo.

E será bom lembrar que a competitividade tem uma relação direta com a sustentabilidade. O destino Açores pode ser competitivo sem ser de baixo custo e, o baixo custo pode influenciar negativamente a sustentabilidade de um destino turístico.

As razões para lhe trazer este tema de conversa são diversas, mas tenho de lhe confessar que a principal motivação foi o recente anúncio da construção de uma mega unidade hoteleira, à nossa dimensão, no concelho de Vila Franca do Campo. Este tipo de investimento na oferta tradicional de alojamento hoteleiro, pela dimensão, arquitetura e implantação, não acrescenta nada ao destino turístico Açores, bem pelo contrário é exatamente o que não se devia fazer.

Votos de uma Feliz Páscoa.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 20 de Abril de 2019

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Pedro Gomes

TEMPO DOS LILASES

Pedro Gomes

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PEDRO GOMES TEMPO DOS LILASES

 

Estamos no tempo de vésperas, em Sexta-Feira Santa.

No mês da Páscoa, o tempo tem outro sentido.

A morte e ressurreição de Jesus Cristo tem o significado de compromisso com os homens de boa vontade, crentes ou não crentes.

Nas celebrações da Páscoa, que se repetem há dois mil anos, os rituais renovam-se a cada ano. Mudamos com o tempo e a nossa relação com a vida também se altera. Como ensinou Heraclito, nunca nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio.

O tempo pascal é um tempo de passagem. Não apenas da passagem da morte à vida, mas da renovação da vida.
Renovação dos gestos, das atitudes, do desejo e da vontade.

A celebração da morte do Senhor, com a igreja em silêncio, os altares despidos, o despojamento, convida ao recolhimento interior.

Na sua vida, Jesus manteve sempre o contacto com o povo: crianças e idosos, ricos ou pobres, proscritos e poderosos, todos foram recebidos.

Na cruz em que morre, Jesus continua a atrair: o centurião, ladrões, verónicas.

Para todos, o filho de Deus tem uma palavra de acolhimento, de ternura, de compaixão. Ninguém é excluído. Ninguém fica para trás. Ninguém é insignificante.

Numa época de relativismo dos valores, do abandono de princípios em favor do utilitarismo, da desvalorização do homem e da sua condição humana, de descrença generalizada, a mensagem de Jesus mantém-se actual. Amar continua a ser o mandamento essencial. Pelo amor, tudo muda, tudo se transforma.

O amor incondicional, sem barreiras, sem constrangimentos. O amor que acolhe, aceita e perdoa. O amor que é sinónimo de misericórdia.

Nos versos de Juan Vicente Piqueras, “não fujas do que sentes. Não permitas/ que a vida se perca no vazio,/que a morte ao chegar encontre/já feito o seu trabalho”.

É quanto baste.
Uma Santa Páscoa.

Pedro Gomes
19ABR2019 – 105 FM

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Paulo Casaca

AS REFORMAS EM DEBATE

Paulo Casaca

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PAULO CASACA AS REFORMAS EM DEBATE

 

A Fundação da família acionista de referência de uma importante cadeia portuguesa de supermercados registada nos Países Baixos editou um estudo sobre a ‘sustentabilidade do sistema de pensões português’ que preconiza um adiamento da idade de reforma.

Aparentemente, não terá ocorrido à referida fundação a ideia de conseguir essa sustentabilidade fazendo com que, por exemplo, a referida cadeia de supermercados se registe em Portugal, contribuindo assim para a sustentabilidade da segurança social através da equidade no pagamento de impostos, em vez de recorrer a mais tempo de trabalho por parte dos trabalhadores portugueses.

A reforçar essa proposta, surgiu uns dias depois uma entrevista de um líder partidário reformado que, nas vésperas de completar as suas oito décadas de idade, veio preconizar um adiamento das reformas para essa idade.

O debate das reformas surge assim inquinado pelo da ‘sustentabilidade’, ou seja, pela preocupação daqueles que não pagam os seus impostos em Portugal ou foram privilegiados com uma ou mais reformas continuando activos, em assegurar que são sempre os mesmos, que não eles, que sustentam a despesa pública em Portugal.

Contudo, creio que seria essencial fazermos um debate menos interessado e mais ponderado desta matéria, tendo em conta as profundas mutações do trabalho, da inserção social e, naturalmente, da esperança de vida.

A vida é mais longa, o tipo de trabalho é em qualquer altura diverso, muda e mudará mais com o tempo, e a sociedade está em plena mutação, pelo que o conceito da reforma tal como começou a ser aplicado nos finais do século XIX precisa de ser profundamente repensado.

Provavelmente teremos de conceber não uma reforma, mas antes um sistema de pequenas e maiores reformas, que terão muito a ver com o tipo de actividade desenvolvida, com a inserção social, bem como com a evolução das capacidades de cada um, num debate não contaminado pelos pequenos interesses de quem se habituou a tudo receber e nada pagar e que se aflige com a perspectiva de ver os seus privilégios questionados.

Bruxelas, 2019-04-17

Paulo Casaca

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